Publicado em 19 de julho de 2026 por Tribuna da Internet

Charge do Aroeira (Arquivo do Google)
Marcelo Copelli
Revista Fórum
Flávio Bolsonaro já não enfrenta apenas dificuldades típicas de uma pré-campanha presidencial. Os acontecimentos das últimas semanas abalaram a principal premissa que sustentava sua candidatura: a de que herdaria naturalmente a liderança do bolsonarismo.
A pesquisa Genial/Quaest, a postura dos partidos aliados, o fortalecimento de Michelle Bolsonaro e as tensões no PL convergem para o mesmo diagnóstico. A sucessão deixou de ser uma transmissão de legado para transformar-se em uma disputa política cujo desfecho está longe de favorecer o senador.
PROTAGONISMO – Desde 2018, o bolsonarismo organizou-se em torno da figura de Jair Bolsonaro. Sua influência extrapolava o eleitorado. Ela orientava partidos, arbitrava conflitos e definia prioridades estratégicas para um campo político até então fragmentado. Mesmo após deixar a Presidência, Bolsonaro permaneceu como o principal polo de convergência da oposição. A inelegibilidade, contudo, alterou essa dinâmica. Sua influência continua decisiva, mas já não basta, sozinha, para definir quem conduzirá a direita na próxima eleição.
A aposta do PL parecia natural: o filho mais velho do ex-presidente reunia experiência parlamentar, identificação com a base bolsonarista e o aval da principal liderança do campo conservador. Durante algum tempo, essa combinação alimentou a expectativa de que a sucessão ocorreria sem grandes sobressaltos. Os fatos das últimas semanas, porém, mostram que a realidade política se tornou mais complexa. O sobrenome deixou de garantir liderança.
A recente pesquisa Genial/Quaest produziu um efeito que vai além dos números. Ao ampliar a vantagem de Lula, reforçou entre partidos e lideranças a avaliação de que a candidatura de Flávio Bolsonaro perdeu força. Em política, a viabilidade costuma ser tão importante quanto a intenção de voto. Quando ela se enfraquece, alianças deixam de avançar, negociações perdem velocidade e potenciais aliados preferem adiar decisões. Foi esse ambiente de espera que passou a cercar a pré-candidatura do senador.
NEUTRALIDADE – A posição adotada por União Brasil, PP e Republicanos reflete essa lógica. As três legendas mantêm interlocução com o bolsonarismo e compartilham parte importante de sua agenda política, mas preferem preservar liberdade de negociação enquanto o cenário permanece aberto. Mais do que afinidade ideológica, prevalece o pragmatismo eleitoral. Para quem pretende liderar uma candidatura presidencial, esse movimento produz um efeito inevitável: enfraquece a convicção de que seu nome represente o caminho natural para a unificação da direita.
Foi nesse espaço de incerteza que Michelle Bolsonaro ganhou protagonismo. Sua boa aceitação entre mulheres, evangélicos e eleitores conservadores deixou de representar apenas um ativo eleitoral da campanha de Flávio para transformar-se em um elemento da própria disputa pelo comando da direita. A questão deixou de ser apenas quem enfrentará Lula em 2026. Antes disso, tornou-se necessário definir quem será reconhecido como principal representante do bolsonarismo.
A necessidade de Jair Bolsonaro reafirmar publicamente Flávio como seu representante ilustra essa mudança. Em outro momento, sua palavra provavelmente encerraria qualquer especulação sobre a sucessão. Hoje, embora preserve influência, ela já não elimina automaticamente outras possibilidades, porque a direita se tornou mais plural e menos dependente de um único centro de comando.
AUTONOMIA – Essa transformação também resulta da evolução do próprio campo conservador. Desde 2018, governadores ampliaram protagonismo, partidos fortaleceram sua autonomia e lideranças regionais consolidaram bases políticas próprias. A direita tornou-se institucionalmente mais robusta e politicamente mais diversa. Se antes bastava acompanhar um líder nacional, agora passou a ser necessário acomodar interesses distintos e construir consensos entre atores que ganharam peso político. Nesse ambiente, legitimidade precisa ser conquistada; já não pode ser presumida.
Seria precipitado concluir que Flávio Bolsonaro perdeu viabilidade eleitoral. A campanha permanece aberta e a influência de Jair Bolsonaro continua sendo um ativo político. Os acontecimentos recentes, contudo, autorizam uma conclusão mais objetiva: a estratégia do PL, construída sobre a expectativa de uma sucessão linear, tornou-se muito mais difícil de sustentar.
ALIANÇAS – A eleição de 2026 decidirá mais do que o próximo presidente da República. Ela mostrará também como a direita brasileira responderá ao impasse sucessório aberto pela inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Se durante anos bastava a palavra do ex-presidente para organizar o campo conservador, agora a definição de seu sucessor dependerá da capacidade de construir alianças, inspirar confiança e produzir convergência entre forças políticas cada vez mais autônomas.
É justamente nesse terreno que Flávio Bolsonaro enfrenta o maior teste de sua vida pública. Se os acontecimentos das últimas semanas continuarem apontando na mesma direção, chegará à campanha não como o candidato que unificou a direita, mas como o símbolo de uma sucessão que fracassou antes mesmo de se consolidar.
Mais do que comprometer um projeto presidencial, esse desfecho poderá marcar o momento em que o sobrenome Bolsonaro deixou de ser suficiente, por si só, para assegurar a liderança do campo conservador.