
‘Ninguém vence a gente mentindo’, disse Lula
Camila Araujo
O Globo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva explicou a ausência de um pronunciamento público sobre o tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos, na última quarta-feira. Hoje, Lula saiu pela tangente e declarou que só deve tratar publicamente do tema após o presidente americano Donald Trump comentar a nova medida. A decisão teve repercussões econômicas e políticas para o Brasil.
“Eu vou deixar para falar do tarifaço depois que o Trump falar. Enquanto ele não falar, eu não falarei. Nós vamos mostrar que contra o Brasil ninguém ganha mentindo. Ou é mais verdadeiro que nós, ou não vai enganar a sociedade brasileira”, declarou o presidente durante agenda em Manguinhos, na Zona Norte da capital.
ESTRATÉGIA – Pré-candidato à reeleição cumpriu agenda, nesta sexta-feira, na Fundação Oswaldo Cruz. O evento tratou de anúncios vinculados a pesquisas em saúde. Antes de tratar do tarifaço, no entanto, o presidente havia afirmado que não falaria do tema, numa estratégia de concentrar sua reação nas redes sociais.
Após uma sequência de publicações feitas nos últimos dias, ele voltou a defender o Pix hoje mais cedo em publicação, reforçando a estratégia do Planalto de transformar o sistema em símbolo da resposta brasileira à medida americana em meio ao temor de prejuízos à economia diante da decisão do governo americano. Enquanto Lula se manifestava pelas redes, as declarações oficiais à imprensa ficaram a cargo do vice-presidente Geraldo Alckmin e do chanceler Mauro Vieira.
POLÊMICAS – Além do tarifaço, o presidente abordou outras polêmicas como os escândalos de corrupção do governo Cláudio Castro. Na presença do governador interino Ricardo Couto, ele disse: “Você é uma chance que Deus está dando a esse povo, alguém para governar com dignidade este estado”.
O evento contou com a presença da primeira-dama, Janja da Silva, que também discursou, e de outros aliados, como Guilherme Boulos e Alexandre Padilha. O governador interino, Ricardo Couto, também falou Prefeito do Rio, Eduardo Cavalieri (PSD) também discursou fazendo elogios ao presidente, citando feitos do governo federal na cidade e ponderando que, “como não sou candidato, posso anunciar”.
Flávio Bolsonaro agora tenta se descolar do tarifaço que ajudou a construir
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Senador simula indignação com medida de Trump
Bernardo Mello Franco
O Globo
Depois de um mês de ameaças, o governo americano baixou um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. O secretário Marco Rubio não disfarçou o teor político da medida. Num tuíte pouco diplomático, atacou o presidente Lula e disse que ele teria colocado “o próprio ego” à frente das negociações.
É curioso um subordinado de Donald Trump criticar o ego alheio, mas o pior ficou para as justificativas. A Casa Branca voltou a reclamar do Pix, de decisões judiciais que contrariaram big techs e até do desmatamento da Amazônia, que caiu pela metade nos últimos três anos.
PRÓXIMO TERRENO – O trumpismo tem um projeto. Quer restaurar o poder de mando sobre a América do Sul, numa versão reciclada da Doutrina Monroe. Nos últimos anos, sete países da região elegeram presidentes de direita ou extrema direita alinhados ao republicano. O Brasil é o próximo terreno dessa batalha.
Desde o tarifaço de 2025, o Itamaraty se empenhava em aparar arestas e distensionar as relações com os Estados Unidos. O esforço culminou na visita de Lula a Trump, no início de maio. Passados dois meses, a alardeada química entre os dois presidentes evaporou. Quem quiser entender a mudança deve observar os movimentos recentes de Flávio Bolsonaro.
O candidato do PL fez promessas em série ao governo americano. Em público, acenou com acesso privilegiado a terras-raras, tarifa zero sobre o etanol e até uma “equipe de transição” para anotar pedidos da Casa Branca. Talvez seja preciso esperar pela divulgação de documentos reservados, daqui a algumas décadas, para saber o que ele barganhou em privado.
RESPONSABILIZAÇÃO – O estrago para a economia brasileira já está contratado. A questão é saber quem o eleitor vai responsabilizar pelos prejuízos. Na primeira rodada de sobretaxas, Lula empunhou a bandeira da soberania e se recuperou nas pesquisas. O movimento pode se repetir com o novo tarifaço, abrindo mais uma frente de desgaste para Flávio.
Nesta quinta-feira o senador ensaiou uma cambalhota discursiva para tentar se descolar do amigo americano. Em vídeo divulgado nas redes, fingiu espancar a tela e bradou que a culpa era de Lula, e não dele. A julgar pelos números da Quaest, apenas 30% dos eleitores parecem dispostos a acreditar nesse teatro.