Um dos projetos que temos acompanhado é do data center anunciado pela RT-One em Uberlândia. Demos uma reportagem sobre a empresa em março do ano passado. Duas semanas depois, nossos colegas do Aos Fatos também publicaram uma matéria sobre a companhia com novas informações. Esse texto citava a existência de um inquérito civil público aberto pelo Ministério Público Federal para apurar os impactos socioambientais desse empreendimento.
Imediatamente, falei pra Isabella Mota, estagiária da nossa equipe, que a gente precisava desse documento. Alguns dias depois, ela conseguiu por meio da Lei de Acesso à Informação.
Eu imaginava que teria alguma coisa boa lá e, quando o PDF gigantesco chegou, corri para ler. Eu estava atrás de algo novo sobre o impacto socioambiental do data center, como seu consumo de água ou de energia, mas o que eu achei era muito melhor. Escrevi na mesma hora para a equipe que havia encontrado “a união mais improvável de assuntos: caso
Banco Master x data centers”..
Isso foi no dia 30 de março. Entre essa data e hoje, ocorreu o caso Vaza Flávio, que ocupou boa parte do nosso tempo. Mas o resultado da mensagem que mandei para meus colegas você confere na matéria que publicamos nesta semana. Ela mostra que o data center de Uberlândia seria construído em um terreno pertencente a um fundo ligado a gestoras investigadas no caso Master. Seria, porque a história era tão estranha que a RT-One anunciou a desistência do contrato após a publicação do texto.
Para que o PDF do inquérito se tornasse a reportagem que virou, passei horas debruçadas sobre documentos, estudando sobre fundos imobiliários e conversando com fontes para entender melhor o caso Master. O texto, depois, passou pela edição do Maurício Moraes, que pediu vários ajustes e deixou uma série de dúvidas.
Quando a Gisele Lobato entrou para a equipe do Intercept em meados de junho, ela pegou o texto para uma segunda edição. Era para ser apenas uma revisão, mas ela acabou descobrindo detalhes que tinham passado batido e que, como costumamos dizer no jornalismo, engrossaram o caldo.
Como resultado, publicamos uma reportagem que abre uma nova frente de investigação sobre a chegada dos data centers ao Brasil. Os impactos socioambientais dessas estruturas são cruciais, mas se olharmos só para eles teremos uma história incompleta. Quando analisamos os acordos empresariais, as relações políticas e seguimos o caminho do dinheiro, vemos que tem muito mais caroço nesse angu.
Em breve, traremos uma nova rodada de reportagens olhando para um outro aspecto do desenvolvimento de data centers do Brasil. Não vou dar muitos spoilers, mas posso dizer que essa investigação me fez viajar milhares de quilômetros pelo Brasil atrás de uma história. Eu falei que era uma obsessão, lembra?