Flávio Bolsonaro sobe no salto e se considera eleito
Bernardo Mello Franco O Globo
O bolsonarismo viveu a melhor semana desde a derrota do capitão nas urnas. Na noite de quarta, o Senado quebrou a tradição de 132 anos e rejeitou uma indicação ao Supremo Tribunal Federal. Menos de 24 horas depois, o Congresso derrubou o veto de Lula ao projeto que reduz as penas dos golpistas.
Empolgado com os resultados, o senador Flávio Bolsonaro cantou vitória antecipada nas eleições de outubro. “O governo Lula acabou”, decretou, após a reprovação de Jorge Messias. Ontem ele avisou que já tem “vários nomes” para indicar ao Supremo. Estimulado a decliná-los, disse: “Não vou antecipar isso, não sou presidente ainda”.
EMPATE TÉCNICO – Pesquisas recentes apontam um empate técnico entre Lula e Flávio nas simulações de segundo turno. Os dois também ostentam índices de rejeição quase idênticos, o que sugere uma disputa equilibrada e com desfecho imprevisível. Ao subir no salto, o filho de Bolsonaro passa a impressão de que já se considera eleito. A soberba pode cobrar um preço alto à sua campanha.
Em declarações sopradas por marqueteiros, Flávio vinha se apresentando como um “Bolsonaro vacinado”, que não teria herdado o extremismo do pai. Ontem ele escancarou que o famigerado PL da Dosimetria foi apenas um passo para garantir impunidade aos golpistas. A meta é emplacar uma anistia que tire Jair da prisão até o fim do ano, “para que ele possa subir a rampa comigo”.
FORA DO SCRIPT – O senador também saiu do script ao ser provocado pela deputada Taliria Petrone, que citou seus laços com o miliciano Adriano da Nóbrega. Disse que o ex-PM, segurança de bicheiros e matador de aluguel, era visto como “grande exemplo para sua tropa”. Deixou de mencionar que ele já estava preso por homicídio, o que levou Flávio a entregar a condecoração na cadeia.
Depois de pular e dançar no plenário e receber um caloroso abraço de Davi Alcolumbre, o presidenciável voltou à prisão. Foi visitar o pai no cárcere domiciliar em Brasília. Na saída, informou que Jair está “muito feliz” com as notícias do Congresso.
### NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – A disputa pelo poder não se resolve por euforia momentânea nem por vitórias pontuais no Congresso — ela se decide nas urnas, onde o eleitor costuma pesar trajetória, coerência e credibilidade ao longo do tempo. Nesse terreno, episódios controversos tendem a voltar ao centro do debate, independentemente da estratégia de comunicação. No caso de Flávio Bolsonaro, permanecem no radar questões como o caso das “rachadinhas”, investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, a relação com o ex-assessor Fabrício Queiroz, além de suspeitas envolvendo transações imobiliárias e conexões com figuras ligadas a milícias. Mesmo quando há decisões judiciais favoráveis ou controvérsias processuais, o custo político desses episódios não desaparece automaticamente — e tende a influenciar a percepção do eleitorado, onde memória e confiança pesam mais do que qualquer vitória circunstancial. (M.C)