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Trump pressiona, mas não tem garantias de desefcho
Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)
O bloqueio imposto pelos Estados Unidos ao Irã não representa um domínio consolidado do conflito, mas uma tentativa de moldá-lo por meio da interrupção deliberada da circulação de recursos essenciais. Ao deslocar o confronto do plano militar para uma dimensão estrutural, Washington busca converter dependências em instrumentos de coerção, introduzindo um mecanismo de pressão que, embora eficaz no plano tático, não garante um desfecho. O que emerge não é um domínio inequívoco, mas um cenário em que a condução do conflito se fragmenta, passando a ser disputada no tempo, no custo e na capacidade de resistência.
Essa limitação torna-se mais evidente à medida que o impasse se prolonga. Apesar da superioridade material americana, o bloqueio já implicou custos que somam dezenas de bilhões de dólares, sem produzir uma mudança decisiva no comportamento iraniano. Esse descompasso entre investimento e resultado não é um detalhe técnico; constitui um sinal claro sobre os limites de abordagens baseadas em desgaste prolongado. Modelos desse tipo dependem da capacidade de gerar efeitos concretos dentro de um horizonte politicamente aceitável; quando isso não ocorre, a eficácia se deteriora não por falta de intensidade, mas pelo acúmulo de tempo.
REFLEXOS – A economia internacional, por sua vez, absorve os efeitos dessa dinâmica de forma desigual, porém contínua. Baseada em uma rede de fluxos interdependentes — energia, bens e financiamento —, ela exige um mínimo de previsibilidade para funcionar. A interrupção deliberada de um desses fluxos não se limita ao alvo direto, espalhando-se por mercados, cadeias logísticas e decisões estatais. O bloqueio deixa, assim, de ser apenas uma medida direcionada e passa a atuar como um mecanismo de reconfiguração indireta do sistema global, obrigando múltiplos atores a recalibrar riscos em um ambiente em que a incerteza deixa de ser episódica para se tornar permanente.
O estreito de Ormuz condensa essa tensão em um ponto crítico. Como corredor central da circulação energética mundial, qualquer perturbação em seu funcionamento produz efeitos imediatos e amplificados. Ao transformar esse espaço em uma variável ativa, os Estados Unidos introduzem um fator de instabilidade que não controlam plenamente, pois a própria lógica de um ponto de estrangulamento implica vulnerabilidade compartilhada. A tentativa de limitar o fluxo expõe, assim, um paradoxo inevitável: quanto mais se restringe a circulação, mais se evidencia a fragilidade do modelo que a sustenta.
É nesse contexto que a resposta do Irã revela uma eficácia menos evidente, mas decisiva. Incapaz de rivalizar diretamente com o poder militar americano, Teerã adota uma lógica de perturbação deliberada que não busca vencer, mas impedir que o adversário alcance um resultado conclusivo. Ao introduzir incerteza nas rotas marítimas e manter a possibilidade de incidentes controlados, desloca o confronto para um plano em que o tempo e o desgaste assumem centralidade. Trata-se de uma abordagem que não exige superioridade, apenas continuidade, convertendo a resistência em um instrumento ativo de influência.
IMPASSE – O resultado é um impasse estrutural que escapa às categorias clássicas de vitória ou derrota. Nenhum dos lados possui incentivos suficientes para recuar, mas ambos enfrentam custos crescentes para avançar. Esse equilíbrio negativo, sustentado pela ausência de desfecho, tende a se prolongar e a produzir efeitos cumulativos que ultrapassam o teatro imediato do confronto. A estabilidade não desaparece de forma abrupta; ela é gradualmente substituída por uma tensão persistente que se infiltra nas decisões econômicas e políticas, moldando comportamentos de forma contínua.
Mais do que um episódio isolado, esse cenário expõe uma fragilidade central da ordem internacional contemporânea: a dependência de infraestruturas críticas concentradas. A economia global opera por meio de pontos específicos cuja interrupção gera efeitos desproporcionais. Quando esses pontos passam a ser utilizados como instrumentos de coerção, deixam de ser meros elementos técnicos e se tornam alavancas de poder. Essa transformação amplia o alcance das formas indiretas de influência, ao mesmo tempo em que eleva o risco sistêmico associado ao seu uso.
Diante dessa realidade, a resposta dos demais atores internacionais assume uma natureza essencialmente adaptativa. Países dependentes de energia buscam diversificar fontes, empresas reconfiguram cadeias de abastecimento e alianças são reavaliadas com base em sua utilidade concreta. O resultado não é uma reorganização coordenada, mas um processo de fragmentação progressiva, no qual o sistema deixa de evoluir de forma integrada e passa a se estruturar em circuitos paralelos — mais resilientes em alguns aspectos, mas globalmente mais complexos e menos previsíveis.
RESULTADOS TANGÍVEIS – Do ponto de vista dos Estados Unidos, a continuidade do bloqueio levanta uma questão que vai além de sua eficácia imediata. A projeção de poder depende não apenas da capacidade de agir, mas da capacidade de produzir resultados tangíveis. À medida que os custos se acumulam sem um desfecho claro, o risco desloca-se do plano externo para o interno, onde a credibilidade passa a ser medida pela relação entre meios empregados e efeitos alcançados. Um instrumento que não entrega resultados deixa de ser apenas insuficiente; torna-se potencialmente contraproducente.
Para o Irã, a equação é distinta, mas igualmente exigente. A sobrevivência do regime e a preservação de margem de manobra dependem da capacidade de resistir sem desencadear uma escalada incontrolável. A lógica de perturbação deliberada permite sustentar esse equilíbrio, operando em uma zona intermediária onde o confronto não se resolve, mas também não evolui para uma guerra aberta. Nesse contexto, prolongar o impasse deixa de ser um efeito colateral e passa a constituir um objetivo implícito.
O elemento decisivo, portanto, não reside apenas na intenção de cada ator, mas na dinâmica que essa interação produz. Ao normalizar o uso de bloqueios prolongados e a instrumentalização de pontos críticos, abre-se espaço para a replicação desse tipo de abordagem em outros contextos. O cenário que emerge é o de um ambiente internacional marcado não por conflitos isolados, mas por uma multiplicidade de tensões interligadas, capazes de gerar instabilidade difusa sem necessidade de confronto direto.
CONTENÇÃO – O bloqueio ao Irã deve, assim, ser entendido como um sinal de transformação mais profunda. O poder deixa de se afirmar apenas pela capacidade de destruição e passa a se manifestar na capacidade de interromper, condicionar e reorganizar fluxos essenciais. Essa mudança não elimina o conflito tradicional, mas acrescenta uma camada de complexidade que torna sua gestão mais exigente e seus efeitos mais difíceis de conter.
Nesse contexto, a questão deixa de ser quem exerce poder e passa a ser se um mundo dependente da continuidade de seus fluxos consegue permanecer estável quando essa própria dinâmica é convertida em instrumento de disrupção — e até que ponto essa inversão já não sinaliza o início de uma transformação silenciosa, porém estrutural, da própria ordem internacional.