quarta-feira, março 31, 2021

Covid-19: Químicos e infectologistas discordam sobre desinfecção de ambientes e superfícies

por Ailma Teixeira / Lula Bonfim

Covid-19: Químicos e infectologistas discordam sobre desinfecção de ambientes e superfícies
Foto: Max Haack/ Secom PMS

Em meio às discussões sobre os cuidados necessários para conter a transmissão pelo coronavírus, grupos têm criticado o que chamam de "teatro da pandemia", que seria a desinfecção de ruas, espaços coletivos e superfícies, como embalagens de produtos. Quem nunca chegou do mercado e foi dar banho de álcool nas compras antes de armazená-las?

 

Para o Conselho Federal de Química (CFQ), essas medidas devem continuar. A entidade ressalta que não há evidências suficientes para descartar o contágio por superfícies, portanto, os cuidados precisam ser mantidos. Porém, consultada, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) não mantém um posicionamento similar.

 

"Desde o início da pandemia, temos recomendado que haja distanciamento social, cuidados higiênicos e a questão da limpeza é importante porque não temos estatística de quantas pessoas se contaminaram pela proximidade com pessoas e quantas se contaminaram por contato com uma superfície", pondera Wagner Contrera, membro de CFQ, em entrevista ao Bahia Notícias.

 

Foto: Reprodução/ Ciência em Ação

 

Por isso, em nome do conselho, ele defende que "qualquer medida no sentido de prevenir é sempre bem-vinda", afinal, mesmo que o percentual de contaminação por superfícies seja pequeno, "tudo que possa minimizar as chances de contaminação é válido". Esse também é o entendimento seguido pelos gestores públicos. Em Salvador, por exemplo, a desinfecção das ruas faz parte das "medidas de proteção à vida" executadas nos bairros.

 

É uma posição contrária aos críticos dessas medidas que defendem não haver comprovação de infecção por coronavírus por meio de superfície contaminada. Texto publicado pelo El País na última semana fala justamente disso, ao citar um artigo na renomada revista científica Nature para ressaltar que o Sars-CoV-2 "se transmite predominantemente através do ar". Segundo o jornal, o artigo aponta que a desinfecção permanente de superfícies deixa "uma mensagem pública confusa, quando é necessário um guia claro sobre como priorizar os esforços para prevenir a propagação do vírus".

 

Ainda assim, Contrera contrapõe esse argumento ao lembrar que ainda há muitos negacionistas da pandemia. Neste sentido, a posição do conselho é firme para que todos os meios de proteção sejam mantidos. 

 

A única ponderação que ele traz é quanto à escolha dos produtos de limpeza, que se vendem como "milagrosos" e prometem eficácia e duração por 30 dias, por exemplo. "A gente não pode se render a propagandas oportunistas, que tentam se aproveitar do momento, tentam se favorecer e prevalecer até monetariamente", disse o conselheiro.

 

SBI DISCORDA

O médico Antônio Bandeira, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), avalia de forma diferente. Para ele, não faz sentido o desespero em ficar desinfetando sacolas, objetos e ambientes, já que as transmissões do novo coronavírus se dão principalmente pelas vias respiratórias.

 

“Hoje, essa questão da transmissão através de ambientes é extremamente secundária, se efetivamente ela ocorre. Ninguém até agora comprovou que essa transmissão é viável. Então, o que a gente sabe é que o coronavírus consegue sobreviver em superfície, mas isso não quer dizer que ele se transmita através dessas superfícies”, disse o infectologista, em entrevista ao Bahia Notícias.

 

Bandeira afirma que a principal chance de transmissão do novo coronavírus é através da respiração, possibilidade que pode ser diminuída através do uso de máscaras de proteção, como a PFF-2.

 

“A verdade é que o coronavírus não penetra na pele. Ele precisa chegar a receptores do nariz. E chegar de forma viável. E a forma mais viável é através das gotículas respiratórias exaladas com intensidade quando um indivíduo fala, tosse ou espirra. Então as vias respiratórias, sem dúvida nenhuma, são as grandes responsáveis pelas contaminações”, explicou.

 

O membro diretor da SBI também defendeu que a higienização das mãos continua sendo uma forma eficiente de prevenir a contaminação pelo novo coronavírus. Caso a pessoa faça contato com alguma superfície contaminada, lavar corretamente as mãos evitará a infecção.

 

“Mesmo que você esteja em um tonel cheio de coronavírus, para você se contaminar, você tem que levar a mão à boca, aos olhos ou ao nariz. Se você higieniza suas mãos, você impede completamente de se contaminar. Então a higienização das mãos é o meio que previne completamente essa forma de transmissão por contato”, definiu.

 

“Não tem que haver nenhum desespero em ficar desinfetando superfícies e gastando dinheiro com isso”, finalizou Bandeira.

Bahia Notícias

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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