domingo, março 28, 2021

Bolsonaro expôs a população à doença e à morte intencionalmente, cometendo crime contra a humanidade, diz jurista


Deisy e seu grupo analisaram 3.049 normas federais sobre a Covid-19

Roberta Jansen
Estadão

Coordenadora do doutorado de Saúde Global e Sustentabilidade da USP e consultora da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, a jurista e especialista em ética Deisy Ventura afirma que a forma como o presidente Jair Bolsonaro conduz o enfrentamento da covid-19 se enquadra em crime contra a humanidade.

O Brasil soma mais de 275 mil mortes desde o início da pandemia. Neste momento, segundo a Fiocruz, enfrenta “o maior colapso sanitário e hospitalar da história do País”.

NA CONTRAMÃO – “Mesmo no momento mais agudo da epidemia, o presidente não para de combater a saúde pública, não para de divulgar notícias falsas, não para de incitar a população para que desobedeça às autoridades sanitárias, não para de incitar a população a se expor ao vírus mesmo diante do colapso da saúde pública”, afirmou a especialista, em entrevista ao Estadão. “É um comportamento ilegal que um governante exponha seu povo à doença e à morte intencionalmente.”

O Estatuto de Roma estabeleceu o Tribunal Penal Internacional (TPI) em 1998. Define “crimes contra a humanidade como qualquer um dos seguintes atos quando praticados como parte de um ataque generalizado ou sistemático contra uma população civil: homicídio, extermínio, escravidão, deportação, encarceramento, tortura, estupro, desaparecimento forçado, apartheid e outros atos desumanos de caráter similar que causem intencionalmente grande sofrimento ou atentem gravemente contra a integridade física ou a saúde mental e física”.

ATOS DESUMANOS – Para Deisy, a estratégia adotada pelo governo de Jair Bolsonaro frente à pandemia se enquadra no último item. Esse ponto trata dos atos desumanos que atentam contra a integridade física e a saúde, causando intencionalmente grande sofrimento.

De acordo com a jurista, o presidente optou deliberadamente pela estratégia de alcançar o mais rapidamente possível a imunidade de rebanho. O meio para chegar a esse objetivo seria a disseminação intencional do vírus. Assim, poderia haver a retomada da atividade econômica de maneira mais rápida. Mesmo que isso custasse milhares de vidas.

As provas da adoção desta estratégia, segundo ela, se acumulam. O presidente se recusou a comprar vacinas quando ainda havia estoques internacionais disponíveis para venda. Insiste em defender um tratamento precoce que não tem eficácia cientificamente comprovada. Boicota as políticas de isolamento adotadas pelos governos estaduais e municipais. Também estimula aglomerações.

ESTUDO – Para chegar a essa conclusão, Deisy e seu grupo analisaram 3.049 normas federais sobre a covid-19 produzidas ao longo do ano passado. “Nosso estudo mostra que há um plano sistemático de disseminação do novo coronavírus no Brasil promovida pelo governo federal por razões eleitoreiras e econômicas”, disse.

“Trata-se de um crime contra a humanidade por se tratar de um ato desumano, um ataque sistemático contra a população civil. A maioria das mortes seria evitável se uma estratégia de contenção da doença tivesse sido adotada; isso constitui uma violação sem precedentes do direito à vida e do direito à saúde dos brasileiros.”

Deisy Ventura foi uma das signatárias do pedido de impeachment do presidente protocolado no dia 5 de fevereiro pelo ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão e o sanitarista Gonzalo Vecina, fundador da Anvisa. O Palácio do Planalto não quis se manifestar sobre a análise feita pela especialista.

O presidente vem sendo chamado por várias pessoas de “genocida” pela postura que adotou frente à pandemia de covid-19. Como especialista no tema, a senhora diria que os atos de Jair Bolsonaro podem ser enquadrados no crime de genocídio?
É preciso fazer a diferença entre duas coisas. O uso da expressão “genocida” pelo público em geral é em seu sentido leigo, não técnico. A pessoa que exerce um cargo público se expõe ao escrutínio da sociedade. O (youtuber) Felipe Neto (que foi intimado em inquérito por usar a palavra para se referir ao presidente) não é obrigado a ler tratados internacionais para citar uma palavra que existe no sentido leigo também. O objetivo é denunciar algo grave que está acontecendo e proteger os interesses da população.

E do ponto de vista técnico?
No meu entendimento jurídico, o termo genocídio ou incitação ao genocídio se aplica em relação às populações indígenas. (O crime é entendido como o extermínio deliberado de um grupo de pessoas motivado por diferenças étnicas, nacionais, raciais, religiosas e, por vezes, sociopolíticas. O objetivo final deste crime é o extermínio de todos os indivíduos daquele grupo específico. O exemplo mais conhecido é o extermínio dos judeus pelo regime nazista). Em relação à população em geral, na minha opinião pessoal, não se aplica o crime de genocídio. No que diz respeito à pandemia, do ponto de vista técnico, o que está ocorrendo é um crime contra a humanidade.

Por quê?
Segundo o Estatuto de Roma, crime contra a humanidade é definido “como qualquer um dos seguintes atos quando praticados como parte de um ataque generalizado ou sistemático contra uma população civil: homicídio, extermínio, escravidão, deportação, encarceramento, tortura, estupro, desaparecimento forçado, apartheid e outros atos desumanos de caráter similar que causem intencionalmente grande sofrimento ou atentem gravemente contra a integridade física ou a saúde mental e física”. O que está acontecendo agora no Brasil se enquadra nesse último item, que trata dos “outros atos desumanos”.

A senhora poderia citar exemplos nas atitudes do presidente Jair Bolsonaro na condução da pandemia que se enquadre tecnicamente nesse quesito de “atos desumanos”?
A jurisdição internacional é claríssima nesse ponto. Há um plano sistemático de disseminação do novo coronavírus no Brasil por razões eleitoreiras e econômicas. O plano do governo era alcançar a imunidade de rebanho por contágio com o objetivo de fazer com que a crise sanitária fosse mais curta, e a atividade econômica pudesse ser retomada rapidamente (o que garantiria sua reeleição). Mesmo sabendo que isso custaria milhares de vidas. Então, o plano é promover um ato desumano, impingir sofrimento e morte. Bolsonaro não para de oferecer indícios de que existe um plano sistemático, de que é uma política do governo federal, a cada dia há mais elementos que comprovam o crime: a propaganda contra a saúde pública, o estímulo à exposição ao vírus, a grande mentira do tratamento precoce. Não temos uma estratégia de contenção do vírus, mas de disseminação do vírus. Mesmo no momento mais agudo da epidemia, o presidente não para de combater a saúde pública, não para de divulgar notícias falsas, não para de incitar a população para que desobedeça às autoridades sanitárias, não para de incitar a população a se expor ao vírus mesmo diante do colapso da saúde pública. É um comportamento ilegal que um governante exponha seu povo à doença e à morte intencionalmente.

A tentativa do presidente de derrubar o toque de recolher em vários Estados por intermédio do STF também pode ser considerado mais um indício de crime contra a humanidade?
Com certeza. A ação judicial corrobora a intenção de obstruir estratégias eficazes de contenção do vírus; é mais uma prova indiscutível. Inclusive a argumentação desenvolvida na ação é claríssima: é a defesa da liberdade para ficar doente, a defesa da liberdade para morrer, é isso que o presidente da República propõe. Sempre na mesma ideia da imunidade de rebanho por contágio, sempre na mesma ideia de que é preciso que morra esse contingente de pessoas para que a economia, entre aspas, seja salva. E mesmo que a gente constate que essa estratégia do presidente é absolutamente danosa para a economia não se pode esperar que ele tenha a grandeza de voltar atrás, porque não é um governante, é um candidato, não é um presidente da República, é um agitador extremista.

Mas todos os especialistas em saúde pública e a própria OMS já haviam dito que a imunidade de rebanho não funcionaria. Ou seja, não haveria a retomada econômica de forma mais rápida. Qual seria o objetivo de insistir nesse plano?
O problema da ignorância é que tu não sabes o que tu não sabes. No início da pandemia, quando ninguém conhecia ainda a doença, foram feitos cálculos políticos e econômicos que levavam em conta essa estratégia. O primeiro-ministro britânico Boris Johnson e o então presidente dos EUA Donald Trump chegaram a flertar com a ideia, mas logo corrigiram o rumo. E ficamos só nós nessa infâmia, nessa toada. Qualquer pessoa com formação em saúde pública  diz que a estratégia não funciona. Em outubro, num claro recado ao Brasil, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, disse sobre a imunidade de rebanho por contágio que a estratégia era, do ponto de vista científico, muito perigosa (porque pode sair do controle, como aconteceu no Brasil); e, do ponto de vista ético, inaceitável. E é isso. Do ponto de vista ético é inaceitável porque não podemos tomar uma decisão sabendo que ela vai matar um contingente enorme de pessoas se essas mortes poderiam ser evitadas com a adoção de outra estratégia. Com a adoção desse plano, ele faz a escolha de matar pessoas que não precisavam morrer.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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