sábado, abril 21, 2018

MAQUIAVEL E OS PUXA-SACOS NAS ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS

Em seu livro “O PRÍNCIPE”, escrito em 1513 e publicado em 1532, Nicolau Maquiavel já advertia à autoridade em epígrafe que ele perderia determinada batalha justamente porque os “puxa-sacos” que o rodeavam não o deixavam ver após eles.  Como dá pra se notar, os bajuladores, tal qual a barata tem resistido a todas as mudanças, não somente no que tange ao clima, mas e, sobretudo, às tentativas de modernização nos postos de comando ao longo do tempo.
E o babão, peça descartável pelos poderosos sempre que preciso por estes, continua a engrossar fileiras à frente dos atuais poderosos de plantão, amaciando-lhes o ego, servindo de tapume ou até mesmo de viseira, executando tudo que lhe for determinado e o que é pior: aconselhando-os, desde que os conselhos dados não venham de encontro às vaidades pessoais do chefe. Vaidades estas sobejamente conhecidas pelos babões. Como pertence a uma raça que se eterniza, o babão sabe ser conveniente quando necessário, servindo de “pano de chão” para os poderosos até que caiam em desgraça, quando então abrem o jogo, vomitam tudo o que sabem, choramingam, esperneiam, até que encontrem outros a quem possa prestar os seus “relevantes serviços”, a troco, na maioria das vezes, de migalhas e humilhações. Mas, tal qual o “vira latas” que vem granindo aos pés do dono para apanhar, também o sujeito subserviente, agacha-se ante os poderosos, despido de honra e de caráter.
É lamentável como, a exemplo de 1513, quando Maquiavel escreveu o seu best seller, ainda hoje perdure essa raça miserável, que, como cupim, empesteia os órgãos públicos, agarrando-se, com unhas e dentes ao chefe, principalmente se tal chefe for muito vaidoso ou, em alguns casos, um babaca que pensa que é “aquele Roberto Carlos” e, em verdade, não é lá essas coisas. É apenas incompetente.
Há os chefes que precisam do “puxa-saco” para mostrar poder, formar um séquito de lacaios, enquanto outros os aconchega porque são umas “Maria vai com as outras”, sem vontade própria, sem talento para o desempenho do mandato, aparentando a personalidade que não têm, servindo apenas de “tapa buracos”, de lona que cobre a lama fétida deixada por antecessores desonestos, com quem assumiu escusos compromissos.
E nesse imenso Brasil brasileiro, sem mistura de estrangeiro, o que mais vemos, são mandatários que nada mais são do que simples prepostos. Gente que se elege, apenas, para servir de anteparo a administrações anteriores, encobrindo desmandos e chamando para si a responsabilidade por atos que não cometeu, sem imaginar – e para isso se faz necessária a atuação dos babões que os aplaude – que um dia, responderá por tais atos perante a justiça.
Não fossem os babões a encobrir-lhe a visão, quem sabe o babaca não se mancaria e, consciente do papel que lhe delegou o povo, agiria de outro modo, denunciando os culpados, dando nome aos bois e livrando-se assim de punições futuras.
Infelizmente o que vemos hoje Brasil a fora, são administradores eleitos pelo voto popular e que, ao tomarem posse, cercam-se de pessoas indesejáveis para a sociedade, gente abjeta, que somente o que quer é “se arrumar”, se locupletar do erário, não se envergonhando em curvar a espinha, concordar com todas as ordens recebidas, mesmo que estas venham em prejuízo de quem  quer que seja.
Por isso os governos, estão cheios de gente que se aproveita da incapacidade administrativa de certos gestores “bananas” e incompetentes, para aconselha-los a cometer atos que ferem os princípios, até mesmo legais, contrariando normas vigentes, criando situações na tentativa de desviar o foco do que realmente acontece e que o despudor dos mandantes precisa acobertar a fim de cumprir compromissos  escusos assumidos ao arrepio da Lei.
Tentar amordaçar a imprensa amedrontando-a com processos descabidos,  comprar jornalistas e órgão de notícias que gostam do “milho”, ameaçar servidores com perseguições, descumprir mandados judiciais, oferecer propina, fraudar licitações e sonegar informações garantidas por Lei, muitas das vezes provêm do aconselhamento pernicioso do bajulador.
Legislativos comprometidos com o sistema e pouco vigilantes é outro fator que desacredita muitos dos gestores, notadamente em municípios do interior. Igualmente aos babões, os legisladores - com raras exceções -, fecham os olhos e amolecem a cabeça que só balança afirmativamente sobre tudo que emana do Poder Público, não se dando ao trabalho de analisar propostas, as aprovando ao sabor da subserviência, na maioria dos casos custando caro ao contribuinte.
Legislador mal intencionado, assim como o bajulador, é outro problema crônico na administração brasileira. Veja o que acontece no Congresso Nacional e tire suas próprias conclusões.
Mas, como a praga dos indesejáveis babões - tal qual a barata - já existia nos idos de vários séculos, ao tempo de Maquiavel, é bem provável que sobreviva até mais adiante, até que políticos de vergonha, de caráter e cumpridores da ética e da decência apareçam e mudem este estado de coisas. Ou que, na melhor das hipóteses, o nosso eleitor aprenda a votar livremente.
É difícil, mas não impossível.

José Augusto Longo

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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