sábado, março 27, 2010

LÈ ÉTAT EST MOI


tista

Foto: Tista de Deda


Navegando pela internet me deparei com uma matéria jornalística onde se atribuía ao Presidente da Câmara Municipal de Paulo Afonso, conduta semelhante ao de Luis XV, rei da França, autor da famosa frase que serve de título ao artigo: “Lè ètat est moi”, que traduzido para o português significa que o “Estado sou eu”.

Não tenho a intenção de tratar sobre o que se passa na Câmara Municipal de Paulo Afonso, onde se atribui ao seu Presidente, conduta de improbidade administrativa. No particular, me aguardarei para a conclusão dos trabalhos de futura CPI cuja instalação se anuncia. Por enquanto, lanço mão do princípio da inocência e até em respeito ao estado de saúde do Presidente que em curto período sofreu diversos reveses familiar.

A partir de um fato concreto, quem estiver em idêntica situação, deverá ficar com a barba de molho. Trato da desobediência a cumprimento de ordem judicial e as consequências negativas que poderão ocorrer. Nenhuma autoridade pública de qualquer dos Poderes da República deverá se colocar acima da Lei. Ordem judicial não se discute, cumpre-se. Se a ordem é injusta ou absurda, cabe ao interessado recorrer às instâncias superiores. É a regra.

O atual Prefeito Municipal de Jeremoabo, vulgo Tista de Deda, ao tomar posse no cargo, transferiu os marchantes do recém inaugurado mercado público municipal para outro prédio, sob o argumento de fazer algumas reformas e ao retorná-los, excluiu Gilson Andrade, Isaú Bonfim e João Batista Andrade, pelo fato deles, nas eleições, votarem no candidato opositor, Deri do Posto Paloma, e ainda porque eles receberam os boxes do ex-prefeito Spencer José de Sá Andrade.

Procurado por eles, demandei na Comarca de Jeremoabo Mandado de Segurança contra o ato do Prefeito, que foi apreciado pelo Dr. Roque Rui Barbosa, Juiz Titular da Comarca, que em decisão de 21.08.2009, deferiu liminar, determinando ao Prefeito a entrega dos boxes aos Impetrantes, cuja decisão judicial foi descumprida pelo Prefeito. Uma assessora jurídica da Prefeitura chegou a dizer ao Juiz que a ordem não poderia ser cumprida.

Von Ihering, pensador alemão, sobre a justiça deixou brilhante lição:

"A justiça tem numa das mãos a balança em que pesa o direito, e na outra a espada de que se serve para o defender. “A espada sem a balança é a força brutal, a balança sem a espada é a impotência do direito”.

Como o Prefeito de Jeremoabo desobedeceu à ordem judicial e em nome dos meus clientes, formulei Representação Criminal contra ele, por crime de Responsabilidade, e Pedido de Intervenção no Município, perante o Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. Pelo Dec.-Lei nº. 201/67 constitui crime de responsabilidade descumprir decisão judicial e o descumprimento de decisão judicial autoriza a intervenção no Município.

No pedido de Intervenção no Município autuado no TJBA sob o nº. 66590-4/2009, o Prefeito foi notificado para em 15 dias provar o cumprimento da ordem ou apresentar sua justificativa para o descumprimento. Entre idas e vindas processuais, a Desª. Telma Brito, Presidente do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, acolhendo sugestão do Procurador Geral da Justiça, concedeu prazo de 30 dias para Tista de Deda entregar os boxes, sob pena de se decretar a medida extrema, a Intervenção no Município, decisão de 25.02.2010.

Finalmente, em face da atuação positiva da Presidência do TJBA, , o alcaide de Jeremoabo que se intitulava “pequeno rei”, acima da lei e de todos, se vergou a força da decisão judicial e chamou os clientes para o recebimento dos boxes no novo Mercado Público Municipal, o que fui comunicado hoje.

O caso de Jeremoabo serve como exemplo para todos os gestores públicos. Decisão judicial é para ser cumprida e se ela gerar insatisfação ou lesão ao atingido por sua força, ele deverá cumpri-la e recorrer dela, não comportando na sociedade democrática e no Estado de Direito, a máxima de Luis XV, LÈ ÉTAT EST MOI.

Se é o Prefeito Municipal que descumpre ordem judicial deferida liminarmente, ou por sentença, se não houver suspensão do cumprimento dela pela Presidência da Corte onde se processará os recursos processuais, cabe ao prejudicado representá-lo criminalmente e pedir a Intervenção no Município.

Aproveitando-se da antiga subserviência da Corte de Justiça Baiana ao Carlismo e da recente crise ético-moral que se abateu sobre o TJBA, se tornou regra os Prefeitos desobedecerem ordens judiciais. Agora não. Desobedecida à ordem e pedido a intervenção, ou o Prefeito cumprirá a ordem ou o Município poderá vir a sofrer intervenção. Na intervenção é nomeado Interventor que passará a gerir os negócios públicos do Município e cumprirá a ordem desobedecida.

O caso de Tista de Deda opera efeitos didáticos para todo e qualquer Prefeito Municipal. É pegar ou largar. Quem pensar que desobedecer a ordem judicial o transformará no LÈ ÉTAT EST MOI, se enganará, porque não deixará de ser apenas um pequeno réu, sem reinado e sem súditos. Tista é que ficou desmoralizado.

Paulo Afonso, 26 de março de 2010.

Fernando Montalvão.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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