terça-feira, setembro 29, 2026

A guerra santa

Arte: Marcelo Chello

Flavitcho Bolsonaro se perdeu na guerra santa. Está naquele momento Ney Matogrosso: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Os católicos não estão convencidos de que Flavitcho gosta da Nossa Senhora e os evangélicos não estão convencidos de que ele não gosta. Embalado pela falta de jeito de Flavitcho com a santa e pelas bets, Lula começou a semana final da campanha crescendo na pesquisa Quaest do primeiro turno entre os evangélicos, entre os católicos e entre as mulheres. E adivinha quem já se meteu na treta? Sim, os supremos. Se segura, BRASEW, que tá chegando o dia.

A treta é a seguinte. A guerra santa se intensificou no fim de semana. A imprensa toda comprou a história de que é fakenews que Flavitcho queria tirar o título de padroeira do Brasil da Nossa Senhora, mas o fato é que as imagens do filho 01 dizendo que assim que assumir vai entregar o Brasil para Jesus não ajudaram muito. Ou melhor, a frase correta foi: “um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Ele, inclusive, usa camisetas com esse mote da campanha.

E aí, no afã de tentar segurar a onda nas redes, Flavitcho se apressou demais. Primeiro entrou com um pedido no Tribunal Superior Eleitoral para derrubar uma postagem sobre a santa feita pelo humorista Antonio Tabet. O problema é que Tabet não tinha citado Flavitcho, mencionou apenas “família miliciana”. Tão afoito quanto Flavitcho, o supremo André Mendonça, que atua no TSE, mandou que as redes sociais derrubassem tudo quanto é postagem de Nossa Senhora. Tudo. Não só a do Tabet. O humorista recorreu mais do que depressa para o Supremo e deu aquele jeitinho para o caso cair nas mãos do supremo Dino. Dino mais rápido ainda que o colega André mandou tudo voltar ao ar. Sim, BRASEW, o Supremo pegou a treta para ele e agora o caso vai para o Plenário. Ahã. Aquele Plenário que a gente viu poucas semanas atrás no julgamento do fim do Supremo.

Mas não foi só isso. Além de ver fotos suas com camisetas com slogans de que ele entregará o Brasil a Jesus (o que para boa parte dos católicos significa que pode mesmo existir a intenção de tirar a Nossa Senhora da jogada), Flavitcho resolveu atacar a igreja católica. Ele disse que foram bispos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil que espalharam as fakes. Se perdeu tanto, que voltou atrás, depois elogiou a nota da CNBB que dizia que não se combate mentira com mentira (mas claro que ele fingiu que a CNBB é que tinha voltado atrás).

Em São Paulo, ainda na tentativa de se resolver com os católicos, Bolsonaro filho segurou timidamente uma Nossa Senhora de crochê. O governador Tarcísio deu literalmente uma mãozinha ao candidato fazendo com que Flavitcho erguesse a santa.

O problema para Flavitcho é que ele tem se declarado evangélico, para conquistar os votos dos evangélicos. E os evangélicos não toleram santos. Muito menos imagens de santos. Entonces.

Sobre a tal fake

Dizem que a origem da suposta fakenews teria sido um comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes, que é uma das repórteres mais bem informadas da política brasileira, que disse em programa da GloboNews o seguinte:

“Tem um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos que está mobilizando um projeto de lei para tirar Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira que pode sim surtir efeito, entre os católicos, a favor do Lula.”

Como o assunto ganhou as redes, a GloboNews achou por bem fazer um desmentido e dizer que o projeto era de 2007, não de agora.

Fato é que ninguém inventou que Flavitcho Bolsonaro disse que vai fazer o Brasil ser de Jesus. Um dos bispos da CNBB em entrevista à Mônica Bergamo exigiu uma posição:

“O que pode significar isso para a liberdade religiosa e para os religiosos não-cristãos? Haverá privilégios para os cristãos? São coisas que ficam no ar. A liberdade religiosa e de crença é um dos princípios da Constituição brasileira e interessa a todas as religiões. Se um não é respeitado em sua religião, ninguém mais será.”

Quem com ferro fere….

Não é de hoje que religião é usada na política eleitoral. Os bolsonaristas, inclusive, sempre usaram desse artifício para botar os evangélicos contra Lula. Uma das fakes da eleição passada, por exemplo, era a de que Lula ia fechar os templos.

Enquanto isso, a Quaest

Uma prévia do estrago dessas tretas todas para Flavitcho pode ser percebida pelos números da Quaest. Nas intenções de voto do primeiro turno, Lula subiu de 37% para 39%, Flavitcho foi de 33% para 34%. Nada demais. Tudo dentro da margem de erro. Mas o detalhe está no tipo de público em que Lula começou a crescer. Veja a análise do Felipe Nunes, dono da Quaest:

A recuperação de terreno de Lula aconteceu de forma mais clara em 3 subgrupos: mulheres, baixa renda e católicos. Entre as mulheres, o que era um empate duas semanas atrás, virou uma vantagem de +9 pp em favor de Lula.

Entre os eleitores de baixa renda, a vantagem de Lula é de 26 pontos (59% a 27%), mesmo placar entre os beneficiários do Bolsa Família.

A restrição às bets é aprovada por 62%, o reajuste do Bolsa Família por 59% e a distribuição das canetas emagrecedoras no SUS por 58%.

O eleitor de baixa renda é o que mais aprova as canetinhas emagrecedoras e o reajuste do Bolsa Família. Mas chama atenção que a proibição às bets fura a bolha e é ainda mais aprovada por quem tem renda mais alta.

Também houve uma leve recuperação entre católicos. Lula aparece com +13 pp à frente de Flávio neste subgrupo, o melhor resultado do presidente nesse segmento desde 14/ago. Entre evangélicos, a vantagem de Flávio diminuiu. (Era de 30 pontos na semana passada e caiu para 24 pontos agora.)

Mas pesquisa não ganha eleição e apesar da melhora do cenário para Lula, ele ainda está com alto índice de reprovação do seu governo faltando poucos dias para a eleição.

A propósito, o voo de Augusto Cury era, no fim das contas, um voo de galinha. O candidato caiu para 4% nas pesquisas.

A grande discussão do momento é se Lula vai ou não vai ao debate da Globo. Flavitcho está todo trabalhado no “vem lutar”. Taí o Lula também enfrentando o dilema Ney Matogrosso.

Lauro Jardim diz que a campanha de Lula ainda aguarda uma bomba contra Flavitcho agora ou na campanha do segundo turno. E vai vir do Dark Horse.

Lula se esforçando…

… para perder votos. Em entrevista à Band, ele soltou essa sobre a história de que teria ganhado um uísque do Daniel Vorcaro via o advogado Walfrido Warde (nossa, ainda nem tinha citado hoje o banqueiro mais famoso do BRASEW):

“Eu não sei se deu, mas se deu, já bebi. Eu não fico contando quem me dá uísque. Eu ganho muita coisa, lembrança.”

Ah, bom, tudo certo então.

O Senado

Ricardo Salles anunciou hoje que desistiu de concorrer ao Senado por São Paulo, o que poderá ser uma grande vantagem para os candidatos da direita. Marina Silva e Simone Tebet estão na frente das intenções de votos (com 15% e 14%, respectivamente), mas seguidas bem de perto por Derrite e André do Prado (com 12%). Ricardo Salles (aquele ex-ministro de Bolsonaro que queria passar a boiada no meio ambiente e que já foi secretário do Alckmin) tinha 4% das intenções de voto. Ou seja, a depender de como seus votos migrarem, pode ser decisivo para o resultado.

É no próximo domingo, BRASEW, e quanto mais a política apronta, mais a Tixa trabalha.

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