Conselho do MPF tem maioria para manter Gonet no caso Master; placar é de 3 a 3 sobre investigar o PGR
Órgão abriu, em setembro, procedimento para apurar menções ao PGR em mensagens de Vorcaro
Por Isadora Albernaz/Anna Júlia Lopes/Ana Pompeu/Folhapress
25/09/2026 às 16:45
Foto: Gustavo Moreno/STF
O procurador-geral da República, Paulo Gonet
O Conselho Superior do MPF (Ministério Público Federal) formou maioria nesta sexta-feira (25) para manter Paulo Gonet à frente do caso do Banco Master, após revelações de elo entre o procurador-geral da República e Daniel Vorcaro.
De um total de 9 conselheiros votando, 6 já defenderam esse entendimento. Por enquanto, há um empate em relação à abertura de uma investigação para apurar a conduta do PGR, com 3 votos contrários e 3 favoráveis.
O relator do procedimento no órgão, subprocurador-geral da República Francisco Sanseverino, votou contra a abertura de uma apuração e foi seguido por Celso de Albuquerque Silva e Alexandre Camanho de Assis. A subprocuradora Janice Agostinho Barreto Ascari abriu uma divergência e foi acompanhada por Samantha Chantal Dobrowolski e José Adônis Callou de Araujo Sá para instaurar uma apuração preliminar.
A subprocuradora Ana Borges Coelho Santos vota neste momento. A sessão extraordinária é realizada em Brasília, na sede do órgão.
Gonet é o presidente do Conselho Superior do MPF, mas, por ser o alvo da análise, a sessão desta sexta é presidida pelo vice-presidente do órgão, subprocurador-geral da República Nicolao Dino –que é irmão do ministro do STF Flávio Dino.
Com Gonet, o conselho é formado por 10 integrantes. Como o procurador-geral não participa da análise desta sexta, contam os votos dos outros nove conselheiros. Para formar maioria, a votação precisa de cinco votos contra ou a favor da investigação de Gonet.
Janice Ascari foi a favor de escolher um subprocurador para conduzir o caso, mas também entendeu que não cabe, neste momento, instaurar um procedimento criminal. Já Sanseverino entendeu que não há provas suficientes que comprovem uma "amizade íntima" entre Gonet e o ex-banqueiro.
O procedimento foi aberto no início de setembro pelo Conselho Superior do Ministério Público Federal para apurar menções a Gonet em mensagens de Vorcaro. O PGR não participa da sessão realizada na sede do órgão, em Brasília, mas já negou irregularidades.
O relator afirmou que não foram encontradas mensagens diretas entre Gonet e Vorcaro e que os registros envolvendo terceiros não podem ser analisados "de forma isolada e ou descontextualizada para não criar uma situação artificial que não corresponda à realidade dos fatos".
Para ele, a atuação de Gonet no caso seguiu os princípios da legalidade e respeitou a independência funcional. "Desde logo, eu voto pelo indeferimento do pedido. É necessário existir elementos mínimos de materialidade de autoria dos fatos", disse logo no início de sua manifestação.
O relator foi o primeiro a votar. Os demais conselheiros votam em ordem do mais recente ao mais antigo. Eles decidem se escolhem um subprocurador-geral para investigar possível prática de crime comum atribuível a Gonet.
Ao ler seu voto, Francisco Sanseverino se alinhou aos argumentos apresentados pelo procurador-geral da República para afastar as alegações que apontam uma proximidade com Daniel Vorcaro. Gonet foi citado em relatório da Polícia Federal feito a pedido do então relator do caso Master no STF (Supremo Tribunal Federal), ministro André Mendonça.
No documento, há mensagens que o advogado Ciro Soares encaminha ao ex-banqueiro que supostamente seriam de Gonet. "Já estou com saudades de você! Estou embarcando para Roma. Manda essa mensagem para ele", diz um dos trechos.
Sanseverino repetiu o argumento de Gonet de que o advogado era pessoa com relacionamento com outras pessoas da cúpula do MPF e disse ainda que partiu de Soares a iniciativa de ligar para Vorcaro. "O procurador-geral da República [disse] ‘Bom dia’, ‘boa tarde’. Fez uma saudação breve [...] Não houve qualquer tipo de aprofundamento do assunto", afirmou o relator.
A investigação também revelou que o filho do procurador-geral teria pedido ao dono do Master para ir a um evento em Londres, com as despesas pagas, e que Vorcaro teria pedido ao ministro Alexandre de Moraes que acionasse Gonet e o chefe da PF, Andrei Rodrigues, para barrar uma operação contra a instituição financeira.
Depois de Mendonça tornar público o documento, Gonet, em nome da PGR (Procuradoria-Geral da República), pediu para que o relatório fosse anulado por entender que o magistrado "se valeu da polícia" para "impor a investigação" do colega, exercendo "atividades que não lhe foram assinaladas".
O relator do procedimento do Conselho Superior do MPF defendeu que o procurador-geral da República é o promotor natural para atuar perante o STF e para apresentar manifestações em todos os processos de competência da Suprema Corte.
"Assim, não cabe ao conselho, nem a qualquer outro órgão do MPF, fazer o controle disciplinar sobre o conteúdo dos atos ou manifestações do agente do MPF no exercício de suas funções institucionais", disse.
O procedimento contra Gonet foi aberto após pedido feito por deputados federais do Novo. No documento, os parlamentares afirmam não apontar conduta ilícita do procurador-geral, mas defendem o afastamento considerando que parte da apuração inclui interlocuções sobre ele.
Gonet queria aproveitar o procedimento no Conselho Superior do MPF para negar interferências na investigação e relação de proximidade com Vorcaro.
Aliados entendiam que é melhor que ele se antecipasse para responder e comprovar ausência de interferência, para, assim, evitar a instauração de investigação formal. Pela estratégia, ele estancaria "a sangria" e preservaria o caso. Ainda, preveniria especulações ao dar a sua versão dos fatos.
Internamente, Gonet optou por estabelecer um grupo de trabalho para lidar com os casos do Master e diluir a responsabilidade e a pressão sobre o procurador-geral.
Na sessão que o STF marcou para discutir o pedido da PGR, Gonet teve a oportunidade de falar e negou uma eventual amizade ou sequer conhecer Vorcaro. O chefe do Ministério Público afirmou ter falado apenas uma vez, e de forma banal, com o ex-banqueiro.
Contudo, dias depois, veio a público uma foto em que Gonet aparece bebendo uísque e fumando charutos com o dono do Master. A imagem apareceu em conversas extraídas do celular do ex-banqueiro pela Polícia Federal.
O CSMPF é responsável por promoções na carreira, processos administrativos e aprova normas, critérios de atuação e a proposta orçamentária da instituição.
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