Auditor do BC trocou mensagens com Vorcaro sobre compra de ativos sem garantia pelo Rioprevidência
Por Italo Nogueira e José Marques/Foolhapress
29/05/2026 às 06:58
Foto: Divulgação/Arquivo
Daniel Vorcaro
Um auditor do Banco Central responsável por supervisionar bancos trocou mensagens com Daniel Vorcaro questionando o dono do Master sobre as garantias oferecidas ao Rioprevidência (Fundo Único de Previdência do Estado do Rio de Janeiro) em caso de quebra da instituição financeira.
Os diálogos, acessados pela Polícia Federal em celulares apreendidos de Vorcaro, constam em representação que fundamentou a última fase da Operação Compliance Zero, na terça-feira (26). A ação teve como principal alvo o ex-governador Cláudio Castro (PL), do Rio.
Em abril de 2025, Márcio Contador Camargo, chefe da Subunidade de Supervisão Bancária do Banco Central, enviou a Vorcaro uma reportagem da Folha que cita um depoimento de Euchério Lerner Rodrigues, ex-diretor de investimentos do Rioprevidência, ao TCE (Tribunal de Contas do Estado) do Rio de Janeiro.
A reportagem relatava que o depoimento foi dado após o fundo ter abandonado aplicações em grandes bancos para concentrar recursos em letras financeiras emitidas pelo Banco Master.
Euchério afirmou, no depoimento, que o Master possuía uma carteira de crédito consignado junto ao Rioprevidência e que, em caso de quebra do banco, o fundo previdenciário conseguiria recuperar as perdas em 23 meses com a receita proveniente dessa carteira.
Camargo questiona Vorcaro sobre a informação, e o ex-banqueiro responde ser "incorreta e imprecisa".
O funcionário do BC então pergunta: "Ou seja, não há qualquer garantia na captação da Rio Prev, correto?".
Vorcaro, então, vai em outra conversa e pergunta ao seu tesoureiro, Alberto Félix: "Lf da rioprev não tem garantia, né". Alberto responde que não.
Depois disso, o dono do Master afirma a Camargo: "Não há".
Procurado nesta quinta-feira (28) por mensagens de WhatsApp, Camargo não se manifestou. O Banco Central também foi procurado por email, mas não se posicionou até a publicação desta reportagem, assim como a defesa de Daniel Vorcaro.
As conversas são mencionadas na representação da PF e na manifestação da PGR (Procuradoria-Geral da República) que fundamentaram a operação. Camargo não foi alvo de medidas, nem de pedidos de investigação.
Os investigadores afirmam que o Rioprevidência realizou aporte de R$ 120 milhões em letras financeiras do Banco Master em 2024. Entre 2023 e 2024, segundo a PF, o fundo comprou R$ 970 milhões em letras financeiras do Master. Esses ativos não têm cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
As mensagens trocadas por Márcio e Vorcaro ocorreram pouco depois de o BRB (Banco de Brasília) anunciar o interesse em comprar parte dos ativos do Master, em 28 de março de 2025.
Àquela altura, o banco de Daniel Vorcaro já passava por dificuldades para captar recursos no mercado e tinha compromissos a honrar nos meses seguintes relativos ao pagamento de CDBs vendidos com a promessa de remunerações elevadas. A operação de venda para o BRB foi tratada no mercado como uma saída tentada por Vorcaro para dar sobrevida ao Banco Master.
Desde o ano anterior, o Master tinha dificuldades no recolhimento de compulsórios e na rolagem de obrigações. Em 2024, Vorcaro havia assinado um compromisso que dava prazo de seis meses para a correção dos problemas.
O diálogo denota que o auditor do BC já antevia problemas para o fundo de previdência do Rio em caso de colapso do Master.
A ação da PF da última terça-feira (26) que envolveu o Rioprevidência foi um desdobramento da operação Barco de Papel, de janeiro.
A PF afirma que o volume de recursos do Rioprevidência no Master sob suspeita chega a R$ 3 bilhões, incluindo novos aportes de R$ 2,01 bilhões feitos a partir de julho de 2024 em fundos de investimentos ligados ao banco.
A decisão de Mendonça traz uma cifra ainda maior dos valores que teriam sido investidos no Master, de R$ 3,69 bilhões. O montante inclui investimentos em Letras Financeiras e em fundos de investimento associados a empresas de fachada do Master.
O Rioprevidência é uma autarquia estadual responsável por gerir o Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) dos servidores públicos fluminenses.
O órgão centraliza a arrecadação das contribuições previdenciárias e administra o pagamento de aposentadorias e pensões, funcionando como a entidade jurídica que deve garantir o equilíbrio financeiro para que os benefícios dos servidores e seus dependentes sejam honrados a longo prazo.
A instituição afirmou em nota que está à disposição para prestar todos os esclarecimentos e contribuir com os órgãos de controle e a Justiça. "A atual gestão da autarquia ressalta ainda que tem adotado medidas saneadoras e que fortalecem o compliance interno e a segurança dos investimentos", completou.
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