segunda-feira, maio 25, 2026

O abalo de Flávio Bolsonaro e a reação do eleitorado conservador

Publicado em 25 de maio de 2026 por Tribuna da Internet

Crise expõe limites da resistência política do senador

Pedro do Coutto

A nova rodada da pesquisa Datafolha, divulgada após as revelações envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, expôs um fenômeno político relevante para a disputa presidencial de 2026: embora o senador tenha sofrido desgaste fora de sua base mais fiel, o núcleo duro do eleitorado bolsonarista permanece praticamente intacto. Segundo os números revelados pela imprensa, 88% dos eleitores dispostos a votar em Flávio defendem que ele mantenha sua candidatura, mesmo após o escândalo relacionado ao financiamento do projeto cinematográfico “Dark Horse”.

O dado, à primeira vista, pode sugerir resiliência política. E de fato há um componente importante de fidelidade ideológica que não deve ser subestimado. O bolsonarismo consolidou, nos últimos anos, uma estrutura emocional e identitária rara na política brasileira contemporânea. Para uma parcela expressiva desse eleitorado, ataques ao candidato são interpretados como ataques ao próprio campo político conservador. Isso cria um mecanismo automático de defesa que reduz os efeitos imediatos de crises e denúncias.

ABALOS – Mas limitar a análise à preservação da base seria um erro estratégico. O problema de Flávio Bolsonaro não parece estar no eleitor que já está convencido, e sim naquele segmento moderado, pragmático e menos ideológico que decide eleições nacionais. É justamente nesse espaço que a candidatura sofreu abalos mais perceptíveis.

As pesquisas recentes mostram que Lula da Silva voltou a abrir vantagem após a divulgação do caso envolvendo Vorcaro. Em levantamentos anteriores, havia cenário de empate técnico entre os dois. Agora, o presidente aparece novamente à frente tanto no primeiro quanto no segundo turno. O episódio não destruiu a candidatura de Flávio, mas afetou um ativo essencial: a narrativa de renovação moral e coerência ética que sempre serviu como combustível político ao bolsonarismo.

O impacto simbólico da crise talvez seja mais profundo do que o eleitoral no curto prazo. Durante anos, o discurso bolsonarista construiu sua força sobre a crítica às relações entre poder político, grandes empresários e interesses privados. Quando surgem revelações envolvendo negociações financeiras com um banqueiro investigado e posteriormente preso, cria-se uma contradição difícil de neutralizar perante setores independentes da sociedade.

RECUO – Flávio Bolsonaro perdeu parte da essência que sustentava sua pré-candidatura. E isso ajuda a explicar o recuo observado nas pesquisas. Não se trata apenas de números. Trata-se da erosão de um símbolo político. Em campanhas presidenciais, percepção vale tanto quanto estrutura partidária. Um candidato pode sobreviver a crises quando consegue preservar coerência entre discurso e prática. Quando essa coerência entra em dúvida, o desgaste tende a ser cumulativo.

Ainda assim, seria precipitado decretar o enfraquecimento definitivo do senador. O bolsonarismo continua sendo uma força eleitoral poderosa, organizada digitalmente e altamente mobilizada. Além disso, a polarização política brasileira favorece movimentos rápidos de recuperação, especialmente quando o debate público se desloca para temas econômicos, segurança pública ou rejeição ao governo federal.

O desafio de Flávio, daqui para frente, será reconstruir credibilidade sem perder radicalidade — uma equação complexa. Se endurecer demais o discurso para manter a militância mobilizada, pode ampliar rejeições no centro político. Se tentar moderar a imagem para reconquistar eleitores independentes, corre o risco de parecer artificial diante da própria base.

JANELA DE OPORTUNIDADE – Lula, por outro lado, parece ter compreendido rapidamente a janela de oportunidade aberta pela crise. O avanço nas pesquisas não decorre apenas de mérito próprio, mas também da fragilidade inesperada do adversário. Em eleições polarizadas, muitas vezes vence não quem mais cresce, mas quem erra menos nos momentos decisivos.

A corrida presidencial de 2026 ainda está longe de uma definição. Porém, os números recentes revelam algo importante: a fidelidade do eleitorado bolsonarista continua forte, mas já não é suficiente, sozinha, para garantir hegemonia eleitoral. E Flávio Bolsonaro começa a descobrir que preservar uma base consolidada é diferente de ampliar uma maioria nacional.


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