Governistas querem usar encontro de Flávio e Trump para reforçar discurso de soberania de Lula
Por Mariana Brasil e Caio Spechoto/Folhapress
27/05/2026 às 07:25
Foto: Reprodução
Flávio Bolsonaro e Donald Trump
Aliados do presidente Lula (PT) vão explorar o encontro entre Flávio Bolsonaro (PL) e Donald Trump como forma de reforçar o discurso da soberania nacional, que já vinha sendo aplicado pelo governo, mirando a eleição.
Petistas também pretendem usar como recurso contra Flávio a comparação entre a recepção feita por Trump a Lula, durante a visita realizada no início do mês, com a que foi feita aos integrantes da família Bolsonaro nesta terça-feira (26).
A ideia é dar ênfase na recepção elaborada para o presidente brasileiro, que teve elementos como tapete vermelho, fotos com aperto de mão e declarações positivas de Trump após o encontro, frente a uma recepção mais fria a Flávio e Eduardo Bolsonaro.
Trump recebeu Flávio na Casa Branca, três semanas após a visita de Lula ao presidente americano. O senador foi acompanhado por irmão e pelo aliado Paulo Figueiredo.
A ida do filho mais velho de Jair Bolsonaro (PL) aos EUA ocorre em um momento de crise em sua pré-campanha, após as revelações de seu envolvimento com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Flávio teria negociado cerca de R$ 134 milhões para patrocínio de "Dark Horse", o filme sobre seu pai.
Petistas apontam que a mobilização de Flávio busca descolar sua imagem do envolvimento com o caso, cuja revelação impactou em seu desempenho nas pesquisas. Levantamento do Datafolha realizado após a divulgação das negociações do senador com o banqueiro mostrou ampliação da vantagem de Lula, em simulação de primeiro turno, marcando 40% do petista ante 31% do rival.
Em foto publicada pelo senador após o encontro, o presidente americano aparece sentado à mesa, em postura diferente do aperto de mãos publicado no dia da visita de Lula. Para aliados do petista, a imagem e a conversa só devem surtir efeito com o eleitorado mais fidelizado de Bolsonaro, sem grandes impactos para Lula.
Para auxiliares do Palácio do Planalto, com o encontro desta terça, Flávio também assume o risco de ser associado a possíveis retrocessos em negociações em curso feitas entre Lula e Trump. Flávio disse ter discutido com o presidente americano temas que já haviam sido tratados pelos dois governos na reunião oficial do início do mês, como as negociações em torno do tarifaço e o crime organizado.
Ainda segundo esses interlocutores, a tendência é que governistas associem a Flávio Bolsonaro qualquer recuo por parte de Trump no diálogo com o Brasil, de modo a colocá-lo como alguém que atuou de forma contrária aos interesses brasileiros.
Dessa forma, Lula sairia à frente na narrativa de defesa da soberania nacional. Nos últimos meses, o presidente brasileiro vem correlacionando a família Bolsonaro à subserviência aos EUA.
Ainda na fala à imprensa, Flávio disse ter pedido a Donald Trump que classifique as facções criminosas CV (Comando Vermelho) e PCC (Primeiro Comando da Capital) como grupos terroristas, ponto de divergência entre os governos americano e brasileiro.
A ideia de designar esses grupos como terroristas vai na contramão do conceito estabelecido pela ONU (Organização das Nações Unidas), o qual a diplomacia brasileira apoia abertamente. Segundo Lula, esse tema não foi discutido em sua reunião com Trump, no último dia 7.
Aliados de Lula avaliam ainda que o encontro desta terça não representa, necessariamente, um bom cenário para Flávio e veem na mobilização um ato desesperado de sua pré-campanha, fragilizada com os episódios recentes.
Até o início da tarde, não havia confirmação oficial da Casa Branca de que Flávio seria recebido pelo presidente americano. Nas redes sociais, o senador publicou um vídeo informando que estava em Washington e que teria uma conversa "muito bacana": "Daqui a pouquinho vocês vão saber com quem".
De acordo com Flávio, a embaixada do Brasil nos EUA não autorizou que sua fala com jornalistas após a reunião fosse feita no local.
Publicamente, aliados de Lula tratam o encontro com ironia. Nas redes sociais, parlamentares governistas já adotam esse tom ao citar o episódio. Ao ser questionado sobre a visita, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), disse que já bastava "um da família Bolsonaro" trabalhando contra o Brasil.
Já nas redes sociais, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou que o encontro mira esconder o escândalo e se referiu ao episódio como "Três patetas com Trump".
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