Publicado em 12 de abril de 2026 por Tribuna da Internet

Advogados tentam acelerar as negociações jurídica
Malu Gaspar
O Globo
A defesa do banqueiro Daniel Vorcaro montou uma operação intensiva para tentar fechar, até o final de abril, um acordo com a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público (MP) no âmbito das investigações sobre a fraude bilionária envolvendo o Banco Master.
Os advogados trabalham “diuturnamente” na preparação da proposta, que deve ser apresentada com um conjunto robusto de anexos e documentos. O objetivo é acelerar as negociações e antecipar uma solução jurídica para o caso, num momento em que a pressão sobre o banqueiro e seus interlocutores cresce dentro e fora do Supremo Tribunal Federal (STF).
CRONOGRAMA AGRESSIVO – Para dar conta do cronograma considerado agressivo, a defesa montou uma espécie de força-tarefa com cerca de dez advogados, divididos entre dois escritórios: o do criminalista José Luís Oliveira Lima e o do também advogado Sergio Leonardo.
Cada banca mobilizou cinco profissionais dedicados exclusivamente à elaboração da proposta, que além de pesquisar e organizar o conteúdo do conteúdo do celular de Vorcaro apreendido e já periciado pela Polícia Federal (foram apreendidos outros, mas o banqueiro ainda não recebeu cópias deles), ainda avaliam e buscam documentos que podem servir de prova de corroboração para os relatos que Vorcaro pretende fazer.
Nos bastidores, porém, investigadores avaliam que o prazo de 60 dias é apertado, diante do tamanho que se espera que tenha a delação, mais a definição de uma proposta de valores a serem ressarcidos a investidores e à União e as condições para o cumprimento da pena.
FUNDOS DEPENADOS – O valor que Vorcaro se propuser a devolver, aliás, é chave para o fechamento do acordo. Só que, de acordo com fontes ligadas ao ex-banqueiro, ele teme que uma parte relevante do dinheiro que distribuiu por fundos mundo afora já esteja sendo depenado das contas secretas neste momento, enquanto ele prepara sua proposta de delação.
Mesmo depois da liquidação do Master, Vorcaro ainda manteve uma fortuna bilionária espalhada por uma rede complexa de fundos de investimento no Brasil e no exterior e administrados por gestoras fora do conglomerado do banco – um grupo restrito mas ambicioso de pessoas com acesso a contas que até agora não foram localizadas. Segundo fontes familiarizadas com o caso, ainda haveria mais de R$ 10 bilhões espalhados pelo mundo.
Com a colaboração, Vorcaro indicaria aos investigadores onde está seu patrimônio e o dinheiro seria bloqueado. Seria a forma mais segura de ele usar o dinheiro que desviou para comprar a própria liberdade. Mas, para ele conseguir um bom acordo, os recursos precisam estar disponíveis – daí a pressa do dono do Master em fazer logo um acordo.
QUANTIAS BILIONÁRIAS – Só a fraude nas carteiras de crédito podres vendidas para o BRB na tentativa de compra do Master pelo banco de Brasília é avaliada em R$ 12,2 bilhões. Há ainda quantias bilionárias recebidas de fundos de pensão estaduais e municipais que estão sob investigação da PF, dentre outras frentes de apuração em torno das fraudes que podem revelar valores ainda não conhecidos.
A situação tem outro agravante: o fato do próprio Master ter sido liquidado pelo BC em novembro passado. Os recursos em posse da instituição estão sob o poder do liquidante indicado pelo BC, Eduardo Bianchini, responsável por vender os ativos do banco e organizar o quadro de credores. Bianchini, aliás, calcula que pelo menos R$ 4,8 bilhões em bens e fundos de investimentos ligados a Vorcaro já teriam sido desviados antes da liquidação da instituição.
A dispersão do dinheiro já preocupava Vorcaro desde a primeira prisão, e a tensão só se agravou com seu isolamento no cárcere nos 15 dias em que ficou detido antes da transferência para a Superintendência da PF em Brasília, depois da segunda prisão. A ida para a carceragem da PF, aliás, foi o pontapé inicial para as negociações. Antes, Vorcaro passou por quatro unidades diferentes, incluindo a Penitenciária Federal de Brasília, uma prisão de segurança máxima.