quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Vorcaro-Toffoli é retrato de compadrio que começa com fazendeiros e juízes…

 

Nota da Redação deste Blog -  O artigo do jornalista Leonardo Sakamoto, colunista do UOL, toca em uma ferida antiga da República: a promiscuidade estrutural entre poder econômico e poder judicial. Ao comentar os encontros entre o empresário Daniel Vorcaro e o ministro Dias Toffoli, especialmente no contexto do inquérito envolvendo o Banco Master, Sakamoto sustenta que o problema não é um “desvio da regra”, mas a própria regra funcionando como sempre funcionou em muitos rincões do país.

A crítica central é contundente: o Brasil naturalizou o convívio íntimo entre quem julga e quem tem interesse direto nas decisões. E essa naturalização não nasce hoje, nem se restringe aos tribunais superiores. Ela se reproduz historicamente em relações de compadrio que remontam aos grandes proprietários de terra, aos coronéis, aos chefes políticos locais que sempre souberam cultivar proximidade com juízes, promotores e delegados.

Nos grandes centros urbanos, ainda existe uma imprensa estruturada, com capacidade de investigação e repercussão nacional. Há constrangimento público. Há escrutínio. Mas, nas pequenas cidades do interior — esses “Brasis” espalhados pelo território — a realidade pode ser bem diferente. Onde a imprensa é frágil ou dependente economicamente do poder local, o silêncio vira regra. Onde blogs independentes ousam denunciar, não raro enfrentam processos judiciais, condenações por danos morais ou multas que funcionam como instrumento de intimidação.

O ponto mais sensível da análise é justamente o conflito de interesse. Quando um magistrado mantém relação próxima com partes potencialmente interessadas em processos sob sua jurisdição, espera-se, em nome da ética e da credibilidade institucional, que se declare suspeito. Não se trata de acusar previamente, mas de preservar a confiança pública no sistema de Justiça. A imparcialidade não precisa apenas existir — precisa parecer existir.

Sakamoto sugere que o caso envolvendo Vorcaro e Toffoli não é um raio em céu azul. É um sintoma. E sintomas não devem ser tratados como exceções folclóricas, mas como sinais de uma cultura institucional que tolera zonas cinzentas. Quando encontros privados entre autoridades e partes interessadas deixam de causar estranhamento, é porque a régua moral já foi rebaixada.

O problema maior não é apenas jurídico; é republicano. A República pressupõe separação clara entre interesses privados e decisões públicas. Quando essa linha se embaralha, o cidadão comum passa a desconfiar que a Justiça tem endereço, sobrenome e relações pessoais. E desconfiança crônica corrói a legitimidade das instituições.

No interior, onde muitas vezes “todos se conhecem”, o desafio é ainda maior. A amizade pessoal não pode ser confundida com neutralidade institucional. O juiz que é amigo íntimo de uma das partes e não se declara suspeito transmite a mensagem de que a toga pode conviver confortavelmente com interesses particulares. E quando comunicadores locais são processados por denunciar essas relações, o efeito é pedagógico — mas pelo lado errado: ensina-se que questionar custa caro.

O debate levantado por Sakamoto não deve ser reduzido a nomes específicos. Ele expõe uma engrenagem histórica. Se quisermos fortalecer o Estado de Direito, é preciso discutir com seriedade mecanismos de transparência, regras mais rígidas sobre encontros privados de autoridades judiciais e proteção efetiva à liberdade de imprensa — especialmente nos pequenos municípios.

Porque, como bem sugere o colunista, não estamos diante de um ponto fora da curva. Em muitos lugares, essa é a curva. E normalizar a curva é aceitar que o compadrio continue sendo parte do método — quando deveria ser parte do passado.

Por José Montalvão - Editor Deste Blog



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