Nota da Redação Deste Blog -Em entrevista à Rádio Metrópole, o ex-prefeito de Salvador e vice-presidente nacional do União Brasil, ACM Neto, afirmou que para mudar a segurança pública na Bahia “tem que mexer no governador”. A declaração, forte e direta, segue uma linha de oposição ao atual governo estadual e tenta resgatar uma comparação com o passado, especialmente com a gestão de seu avô, Antônio Carlos Magalhães.
Segundo Neto, a Bahia vive hoje uma situação “insustentável”, marcada pelo avanço do crime organizado, perda de autoridade e fortalecimento das facções criminosas. Ele sustenta que, no período em que ACM governava, “bandido não se criava” e havia respeito — ou medo — da autoridade do Estado.
A narrativa, porém, merece ponderação histórica.
A violência na Bahia não surgiu nos últimos anos nem pode ser atribuída exclusivamente aos governos do PT. O próprio período em que Antônio Carlos Magalhães comandava o Estado não foi imune a episódios de criminalidade. Há registros, inclusive, de que a residência do então governador foi arrombada e roubada. Esse fato simbólico desmonta a ideia de que havia um paraíso da segurança pública no passado.
É evidente que o cenário da violência mudou ao longo das décadas. O crime organizado se nacionalizou, as facções se estruturaram em rede, o tráfico se interiorizou e a dinâmica urbana se transformou. O problema da segurança pública hoje envolve fatores muito mais complexos: desigualdade social, sistema prisional falido, tráfico internacional de drogas, fronteiras vulneráveis, armas ilegais e falta de integração entre União, estados e municípios.
Transformar essa discussão em uma simples equação — “basta mudar o governador” — pode até funcionar como discurso político, mas não resolve o problema estrutural.
Além disso, é preciso lembrar que segurança pública não é responsabilidade exclusiva do governador. A Constituição define competências compartilhadas entre União e estados. Políticas nacionais de controle de armas, combate ao tráfico internacional e inteligência federal também impactam diretamente a realidade local.
Quando ACM Neto evoca o passado como modelo, faz uso de uma memória seletiva. Todo governo enfrenta desafios de segurança. Nenhuma gestão foi totalmente blindada contra crimes, assaltos ou violência urbana. A diferença está na forma como se enfrentam esses desafios — com políticas públicas consistentes, investimento em inteligência, valorização policial, prevenção social e cooperação institucional.
O debate sobre segurança pública é legítimo e necessário. A população baiana quer respostas concretas, não apenas comparações nostálgicas. É preciso sair do discurso político e avançar para propostas objetivas, metas mensuráveis e integração real entre os entes federativos.
A violência na Bahia não começou ontem — e tampouco será resolvida apenas com a troca de um nome no Palácio de Ondina. O desafio é estrutural, histórico e exige responsabilidade de todos os atores políticos, independentemente de partido.
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* José Montalvão - Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, pós-graduação em Jornalismo proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025