quinta-feira, agosto 29, 2019

Hacker da Lava Jato diz que era seu “dever” divulgar mensagens

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“Imaginei que não seria preso por isso”, diz Walter Delgatti
Reynaldo Turollo Jr.
Folha
Walter Delgatti Neto, 30, que afirmou à Polícia Federal ter hackeado contas de Telegram de procuradores da Lava Jato e repassado as mensagens ao site The Intercept Brasil, afirmou à Folha não ter achado que seria preso porque, em sua opinião, não teria cometido crime ao acessar informações que ele diz considerar que sejam públicas. “Utilizei da minha formação técnica para acessar informações públicas, online… Espantei-me com o seu conteúdo e tornei, pequena parte do acervo, domínio público. Tecnicamente, não tive qualquer dificuldade em acessar as informações…”, declarou por escrito à reportagem. Delgatti é suspeito de praticar os crimes de organização criminosa e de “invadir dispositivo informático alheio, conectado ou não à rede de computadores, mediante violação indevida de mecanismo de segurança e com o fim de obter, adulterar ou destruir dados ou informações sem autorização expressa ou tácita do titular do dispositivo”, cuja pena é de três meses a um ano de prisão.
ILEGALIDADES – Ele negou ter falado que venderia as mensagens ao PT, buscou esclarecer seu contato com a ex-deputada Manuela d’Ávila (PC do B) e disse que, por ser aluno de Direito, entendeu que havia ilegalidades na atuação da Lava Jato, por isso copiou as mensagens. O suspeito cursava o segundo ano de Direito em uma faculdade particular de Ribeirão Preto (SP) quando foi preso. O curso foi trancado por seus advogados no último dia 13 de agosto. Delgatti é um dos quatro presos pela PF em julho sob suspeita de envolvimento nos hackeamentos. Ele concedeu sua primeira entrevista por escrito após a Justiça Federal ter negado pedido da Folha para entrevistá-lo na prisão. A entrevista por escrito foi intermediada pelos advogados Luis Gustavo Delgado Barros e Fabrício Martins Chaves Lucas. Delgatti reafirma não ter modificado as mensagens repassadas ao Intercept. “Não editei ou alterei qualquer conteúdo.”
Ele está preso na Papuda, em Brasília, no bloco F, ala G, mesmo local onde estão políticos famosos como o ex-ministro Geddel Vieira Lima (MDB-BA) e o ex-senador Luiz Estevão. Segundo Delgatti, ele entregou o material ao jornalista Glenn Greenwald de forma espontânea, de graça e anônima. A PF investiga se mais pessoas participaram da invasão do aplicativo e se houve mandantes e pagamentos.
O advogado de Gustavo Elias Santos [também preso sob suspeita de hackeamento] afirmou que o senhor disse ao seu amigo Gustavo que pretendia vender as mensagens da Lava Jato ao PT. O senhor disse isso? O que exatamente o senhor disse a ele?
Em relação à fala do advogado, cada um é responsável pelo que diz e faz… Minha defesa irá tomar as medidas cabíveis no que tange a essa calúnia. Vale ressaltar, mais uma vez, que nunca procurei nenhum integrante do PT e tampouco tive a intenção de vender o material. Alguém pretende provar o contrário? Reafirmo que entendo ter cumprido as minhas obrigações como cidadão: utilizei da minha formação técnica para acessar informações públicas, online. Espantei-me com o seu conteúdo e tornei, pequena parte do acervo, domínio público, via jornalista competente.
Ainda não entendo a razão pela qual personalidades públicas, bem como funcionários públicos, tanto temem a revelação das suas atividades online. Por qual razão esconder-se? Afinal, pleiteiam e recebem atenção pública. Prestaram concursos públicos, sob regras conhecidas e pré-definidas. Muitos são selecionados por associações político-partidárias ou por laços familiares. Têm benefícios das suas exposições públicas. Nos USA [Estados Unidos], depois do atentado às duas torres em Nova York, quase todos são monitorados por agências de Estado. Há quase 20 anos! Insisto: por qual razão parcela das autoridades e personalidades públicas brasileiras tanto temem a revelação das suas atividades online? Na minha opinião —posso?—, para figuras públicas, quase tudo que fazem é matéria de interesse público. Tudo que fazem no exercício das suas funções públicas pode e deve ser conhecido pela sociedade.
Um ponto que gerou dúvida é a participação de Manuela d’Ávila. Por que o senhor entrou em contato e conversou com ela, em vez de entrar no celular dela e pegar o contato de Glenn Greenwald da lista de contatos dela?
A lista de cada conta Telegram é composta apenas por contatos de pessoas que utilizam o aplicativo. Verifiquei que o jornalista não integrava a lista de contatos das pessoas que acessei, motivo pelo qual entrei em contato de forma anônima com a deputada d’Ávila, com o único intuito de conseguir o contato do jornalista. Acho graça, procuro uma autoridade pública eleita e um jornalista, para conversar sobre matérias públicas que acessei online. Importante: não editei ou alterei qualquer conteúdo! As vozes estão lá… A autoria de todos os textos rastreados e seus autores identificados.
O que temem? Qual o crime cometido, quando apenas acessei informações de autoria de personalidades públicas e procurei a imprensa para conversar sobre o que descobri? A própria imprensa poderia checar a veracidade das informações e selecionar, sob a liberdade de imprensa, o que deveria publicar. A liberdade de imprensa é importante. Não foi fácil de obter. É protegida pela Constituição. Deve ser responsavelmente praticada. Queremos ter indivíduos tratados de maneira tão privilegiada? Atuam publicamente, são remunerados pelo setor público… mas têm segredos, que não são bem protegidos pelos serviços de provedores online, e tudo podem? Acessar e revelar o que fazem é crime; mas o que fazem e dizem deve ser protegido e mantido em sigilo, ainda que em prejuízo da sociedade? Estranho, não?
E as provedoras de serviços online e seus proprietários, seus técnicos e demais funcionários, serão presos preventivamente como eu fui? Onde está a igualdade de todos perante a lei? Quem deve monitorar e assegurar direitos iguais está cumprindo o seu dever? Nessa linha, os órgãos de Estado com responsabilidade de controlar o acesso à informação pública, inclusive sob a Lei da Transparência, têm cumprido as suas obrigações? Como registro: tecnicamente, não tive qualquer dificuldade em acessar as informações.
Gostaria que o senhor explicasse melhor por que escolheu a Manuela d’Ávila como intermediária e qual foi exatamente a participação dela.
Após pesquisas, verifiquei que a deputada Manuela tinha proximidade com Glenn e seu marido. No que diz respeito à participação dela nessa questão, limitou-se em passar o contato do repórter. Por outro lado, se tivesse procurado qualquer outro político, de qualquer outro partido que não o PT [Manuela é filiada ao PC do B], o tratamento que recebo seria o mesmo? A deputada Manuela é representante pública, não? Procurei-a porque respeito-a, e porque tinha uma informação que me interessava. Qual é o problema?
Por que o senhor copiou somente as mensagens da Lava Jato, se o senhor teve a oportunidade de copiar mensagens de outras autoridades também? Foi uma ação direcionada à Lava Jato?
A Operação Lava Jato é importante para todos os brasileiros. Tem atuado para investigar toda a nação. Sem qualquer transparência e com muitos poderes. Preocupa-me a ausência de limites com a qual opera. Venho de uma área do conhecimento onde a concentração de poder deve ser evitada. Até para promover a criatividade dos empreendedores e inovadores. Acessei informações sobre a Operação Lava Jato, entre outras. Como cidadão brasileiro, livre, acessei informações de uma operação pública, sobre matéria pública de grande interesse. Nunca imaginei que ficaria tão surpreso pela conduta do dr. D. [Deltan] Dallagnol e de seus liderados. Lá na ponta, a quais grupos de interesses ele serve? Como funcionário público, parte do Ministério Público, quais deveres e limites deve respeitar? Quem é o seu senhor? Comprou o Brasil e tudo pode? A qual nação dr. D. Dallagnol e equipe servem? Por qual razão têm tanta dificuldade em explicar-se?
Por exemplo, a matéria do uso de recursos desviados da Petrobras, devolvidos pelas autoridades americanas, deve mesmo ficar investido em privilégio dos procuradores do Ministério Público? Foi estratégia legal e sensata? O senhor Sergio Moro também, tudo pode? Ser juiz é ser dono do Brasil? Quem controla e limita as suas ações e as consequências que impõem a indivíduos e à sociedade brasileira? O Brasil precisa conhecer sobre os métodos e condutas que praticam. A meu ver, ninguém deve estar acima da lei. Todos devem respeitar a lei e explicar-se.
À medida que acessei o conteúdo das mensagens, encontrei irregularidades… Após reflexões, considerei meu dever proteger tais informações, resguardá-las e torná-las públicas… Para tanto, procurei jornalista de reputação internacional para trocar ideias sobre como proceder. Adiante serei liberado. Em algum momento, a sociedade reconhecerá que a minha contribuição foi legal e defendeu valores importantes para a nossa democracia.
O senhor tem sofrido algum tipo de pressão ou constrangimento pelos agentes da investigação?
Até o momento, fora da prisão indevida, não sofri qualquer pressão ou constrangimento aqui na Papuda. A autoridade policial continua a tratar-me com respeito, conforme determinado pela legislação. Preferia, em muito, desfrutar da liberdade. Estou fazendo amigos aqui. Preferia dividir o tempo com eles em liberdade. Mais uma vez, qual foi o crime que cometi? Por qual razão estou preso? Qual foi o crime que cometi? Sei que cumpri as minhas obrigações perante a sociedade: acessei informações de grande interesse público. Algumas envolvendo interesses nacionais. Procurei alguns profissionais para consultar sobre como proceder. Protegi as informações.
A meu ver, outros, inclusive órgãos de Estado, devem cumprir as suas obrigações em face às informações que acessei. O Brasil estará melhor protegido. Talvez no futuro venham a agradecer. Reconhecer que a minha prisão não foi justa. Quem acredita quase sempre alcança? Minha convicção: é preciso ficar atento e monitorar os agentes públicos e as ações de Estado. Testemunhei e escutei ruídos que, na minha opinião, prejudicam muito o Brasil. Proponho que tornemos ditas informações facilmente acessáveis por todos. Qual é o problema com a transparência? Cada cidadão formará o seu juízo sobre matérias de interesse público. Por que não?
O senhor tem medo de ficar preso?
Sempre acreditei na Justiça, e devido ao meu ato não ser tipificado na lei como crime, ressaltando o princípio da legalidade formal, imaginei que não seria preso por isso.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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