segunda-feira, abril 29, 2019

O OCASO DAS DEMOCRACIAS


Ronaldo Ausone Lupinacci*
Este artigo teve como ponto de partida o livro “COMO AS DEMOCRACIAS MORREM”, escrito por dois professores de ciência política da Universidade de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, e que vem obtendo larga divulgação. A visão dos autores do referido livro é muito diferente da orientação desta coluna. Mas, corresponde à visão das oligarquias que controlam as nações ocidentais. O livro nasceu das apreensões suscitadas nos Estados Unidos com a eleição de Donald Trump, e resultados eleitorais semelhantes em outras partes do planeta.
Se as democracias podem morrer interessa saber como surgiram, para investigar eventual nexo entre o nascimento e o óbito. É certo que a democracia enquanto forma de governo existiu desde, aproximadamente, a formação das primeiras cidades. Era praticada na Grécia antiga sob a forma de democracia direta. Contudo, a democracia representativa é bem mais recente, pois teve origem com a independência dos Estados Unidos da América, na segunda metade do século XVIII, em circunstâncias muito diferentes.
Até a Revolta Protestante ocorrida no Século XVI a sociedade ocidental se manteve coesa sob o ponto de vista religioso e filosófico. Mesmo a Revolução Protestante comandada por Lutero, Calvino, Henrique VIII entre outros, se trouxe divisões, não foi suficiente para destruir o edifício da civilização católica na Europa e na América Latina. A religião esteve indissoluvelmente ligada ao regime monárquico, até mesmo em países de maioria protestante, como, por exemplo, a Inglaterra.
No século XVIII o ideário republicano foi espalhado na Europa e nas Américas pela corrente filosófica denominada iluminismo. Foi impulsionado pela independência dos Estados Unidos, que adotou tal regime em decorrência de particularidades próprias daquele país, mormente a necessidade de resguardar a unidade de um povo dividido em diferentes credos religiosos. Tal ideário adquiriu força de expansão com a Revolução Francesa de 1789, ainda que na França a república democrática só tenha se implantado estavelmente depois de cem anos.
Na raiz do movimento republicano-democrático estava a ideologia igualitário-liberal, de natureza relativista e laicista inspirada, como se disse, na filosofia iluminista. A sociedade perdera a unidade de pensamento que a caracterizava. A perda da unidade de pensamento, obviamente, gerou dissensões sobre matérias religiosas, morais, políticas, econômicas, culturais enfim. Para impedir a desagregação abrupta da sociedade se imprimiu o caráter relativista e laico ao Estado, para o qual todas as correntes de pensamento, e todos os programas de ação passaram a gozar de plena cidadania, até mesmo aqueles empenhados em derrubar o sistema liberal-democrático, como foram o comunismo, o nazismo e o fascismo. Estes últimos resultaram em organizações políticas de índole totalitária, vulgarmente designadas por ditaduras.
Assim, no século passado, ao lado de democracias liberais proliferaram as ditaduras (comunismo, nazismo, fascismo, “franquismo”, “salazarismo”, “peronismo”, “getulismo”), caracterizadas pela onipotência do Estado, ou quase tanto. Todavia, a onipotência ao Estado revelou-se extremamente danosa, com o que a palavra democracia passou a ter outra acepção, vale dizer, a da única forma de governo apta a resguardar as liberdades públicas legítimas e os direitos naturais. Contudo, as democracias modernas por serem inorgânicas, vale dizer oriundas de revoluções, golpes de estado e, ademais, por estarem escoradas no relativismo filosófico, nunca foram completamente assimiladas pelas convicções dos povos.
Acrescente-se que a decadência moral crescente dos últimos séculos, afora a artificialidade intrínseca das repúblicas produzidas em série no período, constituiu fator adicional de fragilidade e instabilidade das democracias representativas. Ganância, sede de poder, imoralidade e amoralidade, sectarismos atuaram como fatores de corrosão, embora a república democrática não seja de si mesma corrupta por natureza.
Levitsky e Ziblatt em seu livro descreveram inúmeros fatos ocorridos desde algum tempo atrás procurando uma explicação para a derrocada das democracias. Baseados na história dos Estados Unidos deram ênfase às regras não escritas e à tolerância mútua como principais elementos de solidez do regime democrático representativo. Por isso, se referem à polarização surgida em torno de temas tais como o aborto, o “Medicaid” (programa de assistência médica a pessoas de baixa renda), o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, a lei de privacidade em instalações públicas (“Lei do Banheiro”), diferenças religiosas e raciais que comprometeram a tolerância mútua. De fato, assuntos que não comportam acordos ou compromissos acabam gerando tensões sociais que se refletem na política. Estamos vendo isso aqui no Brasil em torno de temas como o aborto, o porte de armas de fogo e os rigores da legislação ambiental. Conservar a democracia nos países ocidentais parece difícil exatamente porque a coesão ideológica pereceu há muito tempo, e, e as facções em desacordo se acham cada vez mais aferradas a seus princípios.
Em conclusão a tese de Levitsky e Ziblatt se mostra superficial embora a descrição que dão a certos fatos esteja correta. Realmente, hoje as democracias se acham ameaçadas não tanto por revoluções armadas ou golpes de estado, mas por fatores de erosão que vicejam nelas mesmas, oriundos dos antagonismos diversos existentes na sociedade, e, que se transmitem para as posições políticas. Este clima, por sinal alimentou, aqui, a pregação por golpe militar antes das eleições de 2018, porque parte da opinião pública se achava exasperada com a situação do País, e não via esperanças nos partidos políticos.
Além do mais, os referidos autores ignoram o fenômeno histórico da luta entre a Revolução – que pretende eliminar qualquer vestígio do Cristianismo na sociedade – e, a Contra-Revolução que pretende eliminar a Revolução[1]. Abordam alguns assuntos relacionados àquele conflito sem fazer a conexão lógica entre eles. De qualquer forma é significativo que o fracasso das repúblicas democráticas esteja sendo admitido por seus próprios admiradores que, neste aspecto relativo ao fracasso, têm o mesmo ponto de vista dos monarquistas como eu.
O fenômeno focalizado por Levitsky e Ziblatt vem sendo analisado por outros estudiosos desde que surgiram as chamadas democracias autoritárias há aproximadamente duas ou três décadas[2]. Parece haver, portanto, um consenso em relação ao crepúsculo das democracias liberais, incapazes de organizar a sociedade de modo harmônico e estável. O autoritarismo tende a descambar para a tirania como se tem visto em várias partes do mundo (totalitarismo). Mas, este é quadro político patológico que deve ser evitado porque a suspensão do exercício de certos direitos somente pode ser admitida, excepcionalmente, para curtos períodos em que os maus indivíduos se aproveitariam da plena liberdade para violar direitos alheios. Estas reflexões que, salvo fatores extraordinários, só amadurecerão muito lentamente, irão determinar, no futuro, uma reformulação total das instituições políticas.
Ronaldo Ausone Lupinacci*
* O autor é advogado e pecuarista.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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