terça-feira, julho 03, 2007

Crise da educação ofusca política no desfile

O trajeto do cortejo do 2 de Julho é palco certo para manifestações de diversos segmentos, principalmente os partidos políticos, mas este ano coube aos professores grevistas do Estado dar o tom, vestindo luto e protestando contra "a intransigência do governo". Jaques Wagner chegou a ser vaiado pela categoria, mas reagiu democraticamente. O presidente da APLB-Sindicato, Rui Oliveira, vangloriou-se de que a entidade “pautou o desfile”, que teve muitos grupos criticando a situação da educação. O governador Jaques Wagner, que na Lavagem do Bonfim, em janeiro, viveu um clima de lua-de-mel com o público, ontem experimentou o outro lado do sentimento da população, mas acatou democraticamente as vaias e ainda sinalizou para uma superação do impasse: “Hoje é dia de protesto, mas amanhã será de negociação”. Por coincidência - ou não -, justamente hoje, às 9 horas, no Ginásio dos Bancários, o professorado voltará a discutir a greve, que já dura 52 dias. Destacando a “soberania” da assembléia, o líder dos professores disse que, qualquer que seja a decisão, “o movimento é vitorioso, pela resistência que evidencia e por dizer ao Brasil que os trabalhadores não vão aceitar a forma como o governo encara o direito de greve, com punições, ameaça de prisão contra sindicalistas e aplicação de multas”. O diretor-tesoureiro da seção de Feira de Santana da APLB, Germano Barreto, disse que em sua cidade o movimento continua firme, embora admitisse que, “esta semana, houve algumas dificuldades”. Na sua opinião, hoje é que poderá ser feita uma avaliação mais ampla. “Wagner já nos tirou o salário. Um mês e mais ou a menos não vai fazer diferença. Agora, nada temos a perder, a não ser a dignidade. Ele vai passar à história como o primeiro governador a inviabilizar um ano letivo”. A grande maioria usando roupas pretas, os professores mostravam disposição para a luta, traduzida nas diversas faixas e cartazes que portavam. “Wagner, de piqueteiro a pelego”, “Sou professor, votei e estou arrependido”, e “Professor não aceita as velhas práticas” são alguns exemplos do protesto que marcou a caminhada da Lapinha ao Terreiro de Jesus. E todos em coro cantavam o sucesso de Jorge Aragão: “Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão”... Se foi realmente a APLB que “pautou” o desfile, não se sabe, mas o fato é que a questão educacional esteve presente em muitos dos grupos que desfilaram. Professores e funcionários grevistas das universidades federais baianas - Ufba e UFRB - também levaram sua mensagem pela salvação da educação, assim como um grupo representativo da Apub, que tinha o popular Jorge Onça na “regência” de uma estridente bateria. Nas diversas placas carregadas pelos manifestantes, palavras de ordem pela redução da evasão escolar e crítica ao “recorde em analfabetismo”. O PCdoB, partido da base governista, mas que se solidarizou com o movimento dos docentes, foi coerente e não escondeu sua posição no desfile. Alguns cartazes destacavam a atuação do deputado Javier Alfaya, que chegou a apresentar na Assembléia uma emenda, afinal derrotada, para que o aumento de 17,28% fosse dado de forma linear a toda a categoria. Surpresa mesmo veio do PMDB, supostamente “unha-e-carne” com Jaques Wagner, mas que não deixou de protestar: “Governador, não seja mais um que passa pelo poder. Deixe sua marca”, dizia uma das faixas. (Por Luis Augusto Gomes)
DEM faz estréia como oposição
Praticamente depois de duas décadas desfilando no cortejo do Dois de Julho na condição de governista, o principal partido de oposição, o Democratas, tentou na manhã de ontem demonstrar unidade durante todo o trajeto. No entanto, seus principais líderes admitem divergências internas entre os ex-pefelistas. Prova disso, foi a ausência do senador César Borges, ligadíssimo ao também senador Antonio Carlos Magalhães – que deverá continuar internado no Incor, em São Paulo, até o final dessa semana. De acordo com o presidente estadual do DEM, o ex-governador Paulo Souto insistiu em negar que não há dentro do partido os chamados “soutistas e carlistas”, mas confirmou que ainda persistem algumas divergências entre os parlamentares. “Essa conversa eu já ouço há mais de 10 anos. O nosso partido sempre se manteve unido, forte e tenho certeza que vai continuar forte. É absolutamente natural que dentro do partido surjam discussões, alguns tipos de divergências, mas no meu conhecimento nada que possa significar um racha”. Para o deputado ACM Neto, vice-líder do DEM na Câmara Federal, “a maior prova da unidade do grupo é este evento de hoje (ontem), o Dois de Julho, onde todos nós caminhamos juntos. Os dmocratas estão unidos;é claro que existem divergências internas, talvez por idéias ou pensamentos distintos, mas existe mais ainda uma comunhão de forças para trabalhar politicamente pelo nosso Estado, onde todos nós somos democratas. Então, eu quero afastar qualquer possibilidade nesse momento de mudança partidária”, ressaltou o parlamentar,que também ocupa a vice-presidência nacional do DEM para Assuntos Institucionais. Como Souto e ACM Neto, o deputado federal José Carlos Aleluia, também vice-presidente da Executiva Nacional do DEM para questões relacionadas ao meio-ambiente, disse ser natural haver divergências, mas negou que o partido esteja dividido entre “soutistas e carlistas”. “Não existe isso, nós não podemos dividir o partido. Nós temos os democratas unidos e sem nomes. É claro que o senador Antonio Carlos (Magalhães) é uma grande liderança, assim como o ex-governador Paulo Souto e o senador César Borges, mas não teremos grupos, teremos um partido unido para mostrar ao povo baiano que o nosso modelo de gestão é o que mais se aproxima do povo”. Segundo Aleluia, o senador César Borges não compareceu ao cortejo porque estaria viajando, apenas por esse motivo. “O senador deve estar viajando, mas estamos afinados, juntos. O senador é um homem que temos muito carinho e, claro, nem todos podem vir”. Entretanto, uma fonte ligada ao Democratas foi enfática em dizer que “ele (César Borges) dificilmente estará onde Paulo Souto estiver”. (Por Raiane Verissímo)
Solidariedade aos alunos sem aula
“Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão”. Este foi o refrão entoado pelos democratas, ontem pela manhã, durante todo o desfile cívico do Dois de Julho – que marcou, este ano, 184 anos de independência da Bahia e, consequentemente, do Brasil. O refrão, segundo os deputados, foi uma forma de solidarizar com os alunos da rede estadual de ensino que estão há mais de dois meses sem aula devido a quebra-de-braço entre os professores e o atual governo que nega conceder o reajuste reivindicado pela classe de 18,23%. Mesmo sem o carisma do cacique ACM, os democratas foram bastante aplaudidos por onde passou, a não ser quando se deparava com alguns militantes petistas ou alguns lugares pontuais, como no Barbalho, na esquina com a Rua São José de Baixo, ou em frente ao Cefet. “Ser vaiado por militantes não vale”, ironizou um deputado estadual. O ex-governador Paulo Souto e os deputados federais ACM Neto e José Carlos Aleluia seguiram lado a lado durante todo o trajeto – uma forma de tentar desmistificar de que exista um racha no grupo. Com a ausência do avô, que ainda continua internado no Incor, o deputado ACM Neto era um dos mais requisitados. Por onde passava, as pessoas perguntavam sobre a saúde de ACM, mostravam cartazes ou faixas pedindo que o senador voltasse logo para a Bahia. O cortejo foi considerado pela maioria dos democratas como muito bom, mesmo em seu primeiro ano como um partido da base de oposição. “Muito bom e tive ligeiramente a impressão que a recepção foi melhor do que os últimos anos. Mesmo na oposição, fomos bem recebidos. E acredito que isto já é reflexo do mau desempenho do governo da Bahia, o povo já está saturado. Pagamos nossos pecados e agora é a hora, a vez e o espaço da oposição voltar”, ressaltou ACM Neto. (Por Raiane Verissímo)
Heloísa pede a cassação de Renan
Uma intensa movimentação dos partidos de esquerda marcou ontem as comemorações do 2 de Julho. Eles que buscaram demarcar espaço e conquistar visibilidade nas ruas de Salvador. Atrás do grupo do PT, comandado pelo governador Jaques Wagner; do PMDB, comandado pelo prefeito João Henrique, e do Democratas, com o ex-governador Paulo Souto à frente, se posicio-naram os segmentos políticos considerados da esquerda radical, como o PSOL, PCdoB, PCB e PSTU, e as correntes de protesto como a APLB-Sindicato e CUT. Desta forma, não faltaram faixas contra a transposição do Rio São Francisco e em favor da greve dos professores da rede estadual, por exemplo. A ex-senadora Heloísa Helena, candidata na última eleição presidencial e atual presidente do PSOL, participou do desfile pelo quinto ano consecutivo e esteve à vontade ao lado dos militantes do PSOL, PCB e PSTU, distribuindo beijos e abraços por onde passava. Heloísa Helena comentou, sobre o desfile cívico: “É um tributo e homenagem à resistência popular, à história de mulheres e homens, negras, índios, guerreiros, que foram capazes de promover um confronto com o poder dominante. Então, é a nossa homenagem a todas elas, mulheres: às Joanas, às Quitérias, às Marias...” A presidente do PSOL aproveitou para falar sobre a crise política de Brasília, que envolve figurões da República, incluindo o senador Renan Calheiros, presidente do Senado. “Fomos nós, do PSOL, que demos entrada no pedido do movimento investigatório”. Perguntada se era a favor da cassação do senador Calheiros, ela respondeu: “Qualquer pessoa de bom senso sabe que seria fundamental cassar o senador Renan, o senador Roriz, o presidente Lula e qualquer outro envolvido com os crimes contra a administração pública”. A ex-senadora aproveitou ainda para manifestar solidariedade ao movimento grevista dos professores da rede estadual e criticar a transposição do Rio São Francisco. (Por Evandro Matos)
Fonte: Tribuna da Bahia

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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