Publicado em 26 de julho de 2026 por Tribuna da Internet

Trump cria um comércio de regras móveis
Pedro do Coutto
O novo ciclo de tarifas imposto por Donald Trump ao Brasil revela algo mais profundo do que uma disputa comercial. O problema para empresas e investidores não está apenas no tamanho da sobretaxa, mas na dificuldade de prever qual será a próxima medida, quais produtos serão atingidos e até onde poderá chegar a escalada protecionista de Washington.
É essa instabilidade que começa a alterar o comportamento das empresas. Exportadores precisam refazer contratos, recalcular margens e avaliar se ainda vale a pena manter determinados produtos no mercado americano. Importadores, por sua vez, não sabem se o custo de hoje será o mesmo daqui a alguns meses. O comércio deixa de ser organizado apenas pela lógica da competitividade e passa a incorporar uma variável cada vez mais importante: o risco político.
CAUTELA – A estratégia de Trump funciona justamente porque produz esse efeito. Uma tarifa conhecida pode ser incorporada ao planejamento. Uma tarifa que pode mudar a qualquer momento obriga empresas a agir com cautela. Investimentos são adiados, contratos são revistos e fornecedores começam a procurar alternativas. A incerteza, nesse cenário, torna-se uma espécie de imposto invisível sobre a economia.
O Brasil está particularmente exposto. Os Estados Unidos são um dos principais destinos das exportações brasileiras e representam um mercado relevante para setores industriais e do agronegócio. Mesmo quando determinados produtos são preservados por exceções, a complexidade do sistema tarifário dificulta o planejamento. Empresas precisam entender não apenas a alíquota anunciada, mas também como ela se combina com outras cobranças, classificações e eventuais medidas futuras.
O efeito pode ser mais duradouro do que a própria tarifa. Um comprador americano que substitui um fornecedor brasileiro por outro país pode não retornar imediatamente quando as condições comerciais melhorarem. A perda de mercado, portanto, não acontece necessariamente no momento em que a tarifa entra em vigor. Ela pode se consolidar lentamente, à medida que cadeias de fornecimento são reorganizadas.
CONTRADIÇÃO – Há ainda uma contradição na política de Trump. Ao tentar proteger empresas e empregos americanos por meio de barreiras comerciais, Washington também aumenta os custos e a insegurança para empresas que dependem de cadeias internacionais. O protecionismo pode favorecer determinados setores no curto prazo, mas, quando aplicado de forma ampla e imprevisível, tende a criar distorções que ultrapassam as fronteiras dos Estados Unidos.
Para o Brasil, a resposta exige equilíbrio. Uma reação automática, baseada apenas em retaliação, pode ampliar o conflito e gerar custos adicionais para empresas e consumidores. Mas uma postura passiva também seria um erro. O governo precisa manter a negociação diplomática, buscar exceções e defender os interesses dos exportadores, ao mesmo tempo em que prepara uma estratégia para reduzir a vulnerabilidade externa.
Esse talvez seja o ponto mais importante da atual crise. O Brasil não deveria limitar sua política comercial à tentativa de adivinhar o próximo movimento de Trump. A questão estratégica é construir condições para que decisões tomadas em Washington tenham impacto cada vez menor sobre a economia brasileira.
DEPENDÊNCIA – Isso significa diversificar mercados, ampliar acordos comerciais, melhorar a infraestrutura de exportação e aumentar a capacidade de vender produtos de maior valor agregado. Não se trata de abandonar o mercado americano, mas de evitar que ele seja uma dependência.
A política tarifária de Trump também expõe uma transformação mais ampla na economia mundial. Comércio e geopolítica estão cada vez mais misturados. Tarifas podem ser utilizadas não apenas para proteger setores econômicos, mas como instrumentos de pressão política e diplomática.
Empresas, portanto, precisam incorporar ao planejamento uma realidade que antes parecia excepcional: decisões políticas podem alterar rapidamente a lógica de seus negócios. É por isso que a questão central não é saber apenas quanto o Brasil pagará para exportar aos Estados Unidos. O verdadeiro custo está na imprevisibilidade.
DESCONFIANÇA– Quando regras comerciais mudam constantemente, o investimento se torna mais cauteloso, a confiança diminui e as empresas começam a buscar segurança em outros mercados. Trump pode usar as tarifas para pressionar parceiros e defender seus interesses, mas também corre o risco de acelerar um movimento de diversificação que, no longo prazo, reduza a centralidade do próprio mercado americano.
Para o Brasil, a lição é evidente. A diplomacia precisa tentar reduzir os danos imediatos, mas a política econômica deve olhar além da crise. Se cada nova decisão de Washington obriga o país a refazer seus cálculos, o problema não está apenas na tarifa. Está na dependência. E essa é uma vulnerabilidade que nenhuma negociação pontual será capaz de resolver.