segunda-feira, julho 27, 2026

"Lula para Trump: ‘Ninguém vai nos derrotar através de mentiras’


(The Washington Post, 26.7.2026)


Há um ano, fiquei surpreso com a publicação, em uma plataforma digital, de uma carta do presidente Donald Trump impondo uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. O primeiro parágrafo se referia ao ex-presidente Jair Bolsonaro — que foi condenado ano passado por tentativa de golpe de Estado no Brasil e agora está em prisão domiciliar —, explicitando a motivação política por trás da medida.


Nas minhas conversas com o Presidente Trump desde então, salientei que não precisamos partilhar a mesma visão do mundo para prosseguir numa relação mutuamente benéfica entre os nossos países. Afinal, lideramos as duas maiores democracias e economias das Américas.


Negociações entre nós, juntamente com decisões da Suprema Corte dos EUA, desmantelaram a versão inicial das medidas tarifárias abrangentes. No entanto, este mês, desconsiderando dezenas de reuniões entre as nossas equipes, argumentos técnicos sólidos e documentos que entreguei pessoalmente ao Presidente Trump, o governo dos EUA impôs novas tarifas ao Brasil variando de 12,5% a 37,5%.


Como resultado, a Global Trade Alert, uma organização independente sediada na Suíça, estima que o Brasil e a Turquia são agora os dois países mais fortemente tarifados pelos Estados Unidos, atrás apenas da China. Isto apesar do superávit dos EUA com o Brasil no comércio bilateral de bens e serviços, que totalizou US$ 428 bilhões em 15 anos consecutivos.


Além de injustas, as novas tarifas são um erro estratégico: prejudicarão a economia dos EUA e a parceria com o Brasil. Vários setores industriais dos EUA dependem de insumos brasileiros. Alimentos, calçados, têxteis, móveis, autopeças e muitos outros produtos ficarão mais caros para os consumidores dos EUA.


As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram para o nível mais baixo desde 1997. Comparando os primeiros seis meses de 2025 e 2026, o comércio bilateral com os EUA caiu 12,8%, enquanto o comércio do Brasil com a União Europeia cresceu 6,1% e seu comércio com a China aumentou 15,9%.


A médio prazo, essas tarifas irão perturbar cadeias de abastecimento hoje profundamente integradas, e as empresas brasileiras substituirão os fornecedores norte-americanas por parceiros de outros lugares.


Isso diz muito sobre a inconsistência entre os interesses que os Estados Unidos proclamam em sua estratégia de segurança nacional e as políticas que seguem em relação ao Hemisfério Ocidental.


A América Latina e o Caribe não precisam de porta-aviões patrulhando suas águas nem de tarifas punitivas. O que nos falta são parceiros confiáveis e previsíveis. Numa época em que os EUA estão fechando seu mercado, outros países têm se apresentado como alternativas, oferecendo uma agenda positiva capaz de fomentar o desenvolvimento econômico e social.


Estou convencido de que unir forças em torno de iniciativas concretas que envolvam investimento, comércio e luta contra o crime organizado é o caminho a seguir para superar os males que afligem um hemisfério que pertence a todos nós.


Dividir o mundo em esferas de influência e buscar empreendimentos neocoloniais em busca de recursos estratégicos são gestos anacrônicos e retrocessos.


Apesar da longa história de intervenções políticas e militares dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, houve momentos em que Washington se mostrou capaz de ser um parceiro digno de nossos interesses de desenvolvimento.


O Presidente Franklin D. Roosevelt implementou a Política de Boa Vizinhança, que procurava substituir o uso da força pela diplomacia na política externa dos EUA em relação à região. Essa abordagem contribuiu decisivamente para os estágios iniciais da industrialização do Brasil. Ao enfrentar a crise financeira de 2008, o Presidente George W. Bush incluiu três países latino-americanos na cimeira inaugural do Grupo dos 20 líderes.


Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é a guerra contra a fome, a pobreza e a desigualdade. E as únicas armas que devemos utilizar são o investimento, a transferência de tecnologia e o comércio justo e equilibrado.


Tentativas de impor restrições ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não serão aceitas. Nunca antes um secretário de Estado dos EUA declarou que o Brasil não é amigo dos Estados Unidos. Ninguém nos derrotará através de mentiras.


As alegações do presidente Trump contra o Brasil, tentando justificar tarifas, são infundadas. A liberdade de expressão não é um passe livre para atividades criminosas nas plataformas de redes sociais — não desistiremos de proteger as nossas famílias e crianças da ganância de um punhado de oligarcas tecnológicos. Nosso sistema de pagamento, PIX, não discrimina empresas dos EUA. e é uma referência internacional em infraestrutura pública digital. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, começamos a combater agressivamente os crimes ambientais e a reduzir drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros.


Respeitamos a soberania de outros Estados e negociamos com todos aqueles que sabem respeitar a nossa. A reciprocidade é a base de todas as relações entre as nações, e temos os mecanismos apropriados para garanti-la.


Estamos prontos para continuar engajados em um diálogo aberto e construtivo, como exige o relacionamento entre dois países como Brasil e Estados Unidos. Mas o destino do Brasil cabe somente aos brasileiros determinar — sem interferência estrangeira ou subserviência."

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