domingo, setembro 20, 2015

O IMPROVÁVEL IMPEACHMENT


Vittorio MedioliO Tempo
Instalando-se oficialmente o processo de impeachment da presidente Dilma, como tentam diferentes insatisfeitos, haverá graves consequências imediatas. Um ano de arrasar o que já está ruim. Que seja necessário ou justificado, o impeachment será acompanhado de um aprofundamento das dificuldades nacionais, sem se saber ao certo quanto durará e aonde levará o país.
Vivemos um dos piores momentos econômicos dos últimos 25 anos, o impacto negativo se alastra junto ao desemprego, ao fechamento de empresas e à queda de atividade. A incerteza provoca a paralisação de investimentos, a fuga de capitais, deixa caótica a cena. Todos os erros do passado saem agora do armário como fantasmas e se apresentam com o pior semblante possível.
Contudo, o impeachment, para alguns, é a solução.
PROCESSO DEMORADO
Na realidade não é golpe no sentido clássico, pois, para se concretizar, terá que passar por um demorado percurso no Congresso e enfrentar dois longos debates, um na Câmara dos Deputados e outro no Senado. Ao contrário do impeachment de Collor, em 1992, que se transformou em renúncia “forçada” antes que a votação do Senado confirmasse a decisão tomada na Câmara do Deputados, Dilma possui uma base parlamentar forte e outra sindical decididamente estruturadas, que darão o que elas têm para defender o quinhão de poder que o PT e seus aliados conquistaram nos últimos 12 anos de governo.
A renúncia de Dilma é pouco provável. Faltam um colapso emocional e uma pressão insuportável que a levariam ao gesto extremo de renúncia. Existem também componentes ideológicos diferenciados que se concretizaram em décadas de história.
SUBIDA DE TEMER
A queda de Dilma não levaria ainda a novas eleições, mas à subida de Michel Temer ao cargo de presidente, pois o PMDB, partido imprescindível para formar a maioria que possa destronar Dilma, entre novas eleições e ganhar a Presidência optaria, obviamente, pela ascensão de Temer. A oposição, o PSDB e seus aliados, além de terem poucos votos, têm ainda menos argumentos e coesão para liquidar presidente e vice ao mesmo tempo.
Novas eleições, que encontrariam Aécio Neves como o maior beneficiário, muito dificilmente seriam aprovadas no Congresso no formato que o favoreça, apenas se a população cercasse o Congresso com uma pressão e um furor que os sindicatos dominados pelo PT arrefecem nas ruas.
NOVA ELEIÇÃO
O pedido deveria ser lastreado por decisão do TSE fulminando a chapa Dilma e Temer, exigindo-se, assim, nova eleição. As possibilidades ficam, bem por isso, remotas e dependentes de um milagre, mais que de uma sentença.
Concorda a oposição tucana em substituir Dilma por Temer? Esse é o ponto “impossível”. PMDB e PSDB deveriam entrar em acordo nos bastidores para dar uma grande tacada. O PMDB pode concordar em retirar Dilma, mas na condição de Temer substituí-la; já os tucanos aecistas, com DEM e PPS, não têm força numérica nem argumentos, momentaneamente, para convencer o PMDB à decapitação de Temer.
Também os tucanos estão divididos. A queda da dupla, presidente e vice, atende apenas quem defende a candidatura de Aécio, mas os “alquimistas” preferem, obviamente, aguardar 2018, quando o governador de São Paulo estará disponível e fortalecido. Entre Temer e Dilma, os aecistas preferem ver Dilma sangrar até 2018, e Temer não interessa.
LAVA JATO
O que pode unir firmemente peemedebistas e tucanos é, inusitadamente, o bafo da Lava Jato, que já devastou o PT e o PP e vem chegando a Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Os tucanos não estariam isentos de complicações na última fase da operação. Temem as delações de dirigentes de empreiteiras, ainda presos, e um efeito “Hiroshima 1945” no PSDB.
Em Brasília, ninguém tem o controle do comboio desgovernado que vem perdendo peças no caminho. Dessa forma, o processo de impeachment é visto com grande temor, como um botijão de gás aberto num ambiente sem saída e dividido por todos.
Negocia-se até uma emenda constitucional, espécie de manjericão, que tire de Lula a possibilidade de eleição em 2018, completando-se a grande pizza.
LULA EM CENA
Lula, acossado pela Lava Jato, partiu, nos últimos dias, para um périplo, levando panos quentes e uma nova partilha de poder para aquietar PMDB e até o PSDB. Nas propostas, comenta-se, na maior escuridão, até uma cadeira do STF para o juiz Sérgio Moro como forma de dar uma acalmada na Lava Jato.
Entretanto, o que falta em Brasília é um articulador para rodar sozinho uma pizza tão gigantesca, e nisso até Fernando Henrique está sendo cogitado como “deus ex-maquina” para salvar do caos gregos e troianos.
Seja o que for, o pagador da crise geral já é o povo brasileiro, até por que a equipe econômica e o ministério atual são incapazes de medidas amplas e concretas; enquanto isso, Dilma não consegue encontrar uma solução que não seja mais uma dose de sacrifícios “duvidosos”.


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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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