sábado, dezembro 28, 2019

Em algum momento viramos na curva errada, e a prioridade à ética na política não existe mais


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Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)
Celso Rocha de BarrosFolha
No começo dos anos dez, a crise do euro sucedia a do subprime americano, o resultado da aterrissagem chinesa era incerto, e estava claro que não poderíamos mais contar com o cenário externo para crescer. Após décadas de crescimento baixo, era claro que o modelo econômico brasileiro estava esgotado. Nos anos seguintes, houve duas tentativas ambiciosas de reformá-lo: a Nova Matriz Econômica de Dilma Rousseff e as reformas liberais do pós-impeachment.
A Nova Matriz fracassou. Até o PT admite que as isenções fiscais e outras medidas de estímulo não geraram qualquer crescimento, mas desorganizaram completamente as finanças públicas.
SEM DINHEIRO – Quando Dilma foi reeleita em 2014, os preços das commodities desabaram, e a Lava Jato travou o investimento público no curto prazo. Em épocas normais, seria hora de estimular a economia, mas o dinheiro do estímulo havia sido desperdiçado pela Nova Matriz quando estávamos no pleno emprego.
Os economistas ainda discutem o que teria sido melhor fazer em 2015, mas o fato é que o PIB caiu 8% em dois anos, um número de país em guerra. E assim terminou meia década de total prioridade à promoção do crescimento.
No começo do segundo mandato de Dilma, a Lava Jato ganhou velocidade e enormes escândalos da era petista vieram a público. Os escândalos das eras anteriores já tinham prescrito.
ESPERANÇA Và– Uma grande onda de esperança tomou o Brasil, mas foi um azar que a crise econômica e as revelações da Lava Jato acontecessem ao mesmo tempo. A opinião geral era que o dinheiro acabou porque os políticos roubaram. Era mentira, mas foi o que tivemos no lugar de debate sério.
Foi mais ou menos nessa altura que o PSDB e o resto da centro-direita brasileira acharam que era uma boa ideia apoiar o impeachment de Dilma Rousseff, o que implicava amarrar seu programa de reformas e seus melhores quadros ao PMDB da Câmara no auge da Lava Jato.
O programa de Temer era simples: reformas liberais e acordão do Jucá. Fracassou, bateu recordes de impopularidade e Geraldo Alckmin teve só 4,5% dos votos em 2018. Fazendo oposição às reformas, o PT foi ao segundo turno. Mas a oposição que venceu foi ao acordão.
PORÕES DA DITADURA – Não seria um problema se essas aspirações tivessem sido representadas por Joaquim Barbosa, ou Luciano Huck, ou outro democrata.
Ao invés disso, venceu o bolsonarismo, uma aliança entre acusados de corrupção do baixo clero e defensores de milícia, todos fanatizados pela ideologia dos porões da ditadura. A extrema direita pós-2008, que já havia destruído a democracia húngara e começado a destruir a polonesa, chegou ao poder no Brasil. Tornamo-nos um polo de irradiação de extremismo e negacionismo climático, uma piada e um risco geopolítico ao mesmo tempo.
Na semana passada, o Ministério Público do Rio de Janeiro informou que um esquema de corrupção da família do presidente da República fez transferências de dinheiro para o chefe da milícia que matou Marielle Franco.
NA CURVA ERRADA – E assim terminou meia década de total prioridade à ética na política. Houve vários momentos em que poderíamos ter voltado ao caminho certo. Sempre viramos na curva errada.
Agora é torcer para que alguma coisa que perdeu na década de dez vença na de 20, e que, um dia, alguém critique essa coluna por não ter visto o germe do novo em meio à catástrofe.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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