quarta-feira, outubro 30, 2019

TRE-SP ignora crise e prevê gastar mais de meio milhão com notebooks para a elite do tribunal


Outras opções ultramodernas custam menos da metade
Joelmir Tavares
José Marques
Folha
Em meio a um período de dificuldade no Judiciário, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP ) prevê comprar 50 notebooks ao custo unitário de R$ 11,6 mil para serem usados pelos sete juízes que compõem a Corte e pela elite do tribunal. O valor estimado a ser gasto é de R$ 580 mil. A medida, segundo o órgão, está em fase de planejamento e elaboração de estudos preliminares.
A ideia é que sejam comprados equipamentos do tipo ultrabook (mais finos e compactos), considerados de alta performance, para “propiciar o acesso aos recursos da rede e à internet com maior mobilidade”. Além dos magistrados, terão acesso aos computadores os gabinetes das secretarias e assessorias, vinculados diretamente à cúpula do tribunal.
MACBOOKS – A ideia inicial do TRE-SP era adquirir computadores ainda melhores. Na primeira vez em que o interesse pela compra dos computadores apareceu em um planejamento interno, em 2018, a previsão era comprar MacBooks. Na época, o plano de contratação previa gastar até R$ 18,6 mil em cada unidade do computador da Apple.
Se isso fosse feito, a compra chegaria a um valor de R$ 928,9 mil. No entanto, a equipe que planejou a contratação (composta por três funcionários) avaliou que “não foram encontrados subsídios suficientes para justificar a aquisição da marca específica” e reduziu o custo. Procurado, o TRE-SP diz que esses notebooks permitem mobilidade e o uso em reuniões externas, viagens e treinamentos, e são duráveis.
PERFORMANCE “ADEQUADA”  – “Com a implantação do Processo Judicial Eletrônico e do Sistema Eletrônico de Informação, os novos processos judiciais e todos os processos administrativos da Justiça Eleitoral passaram a tramitar eletronicamente e deverão ser acessados por esses usuários, necessitando ter performance adequada”, diz nota da corte.
Segundo o órgão, atualmente os juízes e servidores usam máquinas que têm até sete anos de uso, todas com garantia expirada. No entanto, especialistas em informática questionam se é necessário comprar equipamentos a esse custo para o uso do tribunal. Aparelhos do tipo ultrabook com configurações avançadas, indicados para as mesmas funções, podem ser encontrados por até R$ 5 mil.
Para Juliana Sakai, diretora de operações da Transparência Brasil (ONG que atua no controle social do poder público e no combate à corrupção), a compra é questionável. Consultada pela reportagem, ela diz que “falta transparência sobre por que há necessidade de comprar um computador com essas especificações avançadas e preço consequentemente mais alto”.
OUTRAS OPÇÕES – “Por isso mesmo a área técnica do tribunal não se convenceu de que seriam necessários MacBooks para desempenhar essas atividades e acertou ao barrar a compra.” Ainda na opinião de Juliana, as especificações do edital são genéricas. “Oferecer acesso à internet e mobilidade é um objetivo que outros computadores portáteis mais baratos também podem garantir.”
A compra dos 50 notebooks faz parte de um plano do TRE-SP para reestruturar a área tecnológica da corte, elaborado desde o ano passado. A equipe de planejamento de contratação elaborou uma planilha com possíveis serviços e equipamentos para serem adquiridos durante todo o ano, com 68 itens, que incluem desde pen-drives e impressoras até a prorrogação de licença para o uso de softwares. Alguns dos itens previstos foram cancelados.
Outra parte já está com processo de compra em curso. O TRE-SP lançou, por exemplo, uma proposta de compra de quatro MacBooks com adaptadores de USB ao valor unitário de aproximadamente R$ 22 mil. Esses equipamentos, de última geração, servirão para desenvolver aplicativos e exibir apresentações, de acordo com o órgão.
JUSTIFICATIVA – “A quantidade de equipamentos solicitada visa a prover recursos que permitam quatro analistas/programadores a realização dos trabalhos de desenvolvimento de aplicações móveis para ambiente IOS”, diz o tribunal, citando o sistema operacional da Apple, presente nos aparelhos.
O TRE-SP também abriu um processo de compra de R$ 2,6 milhões para aquisição de 450 notebooks que serão usados para implementar a biometria no estado. Cada computador custará aproximadamente R$ 6.000, segundo os cálculos.
VIDA ÚTIL – Em nota, o tribunal afirma que será destinada uma unidade desses notebooks “para cada cartório eleitoral, postos e pontos de atendimento, em substituição aos equipamentos que estão em uso atualmente e que já estão em seu fim de vida útil”. Também afirma que não há previsão de outras aquisições nos próximos meses.
Tribunais Regionais Eleitorais são os órgãos responsáveis por organizar as eleições nos estados e julgar ações relativas a ela. A Corte é composta por dois desembargadores, dois juízes estaduais, um juiz federal e dois advogados. Atualmente, é presidida pelo desembargador Carlos Cauduro Padin.
Em São Paulo, episódios recentes de gastos revelados pela Folha levantaram questionamentos dentro do tribunal. Em um deles, o órgão deu hora extra a funcionários para trabalharem em uma eleição privada da  Associação Paulista de Magistrados (Apamagis).

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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