sábado, setembro 28, 2019

Lott, um militar legalista e contra a corrente, tem biografia republicada


Resultado de imagem para marechal lott
Lott. o marechal, teve uma vida verdadeiramente exemplar
Elias Thomé SalibaEstadão
“No Palácio do Catete, faltava Café e Luz, mas tinha pão de Lott”. Com esta
frase, o Barão de Itararé resumia um episódio decisivo na história política
brasileira: em novembro de 1955, com Café Filho hospitalizado, o ministro da
Guerra, Henrique Lott, recusou-se a deixar o governo de Carlos Luz,
presidente em exercício; manteve-se no posto e articulou a defesa da
legalidade constitucional, garantindo a posse do presidente eleito,
Juscelino Kubitschek. Mais que uma encruzilhada nos muitos e tortuosos
caminhos da história brasileira, o famoso contragolpe de Lott transformou-se
no episódio decisivo na biografia do controvertido marechal.
Se Lott não tivesse orquestrado o contragolpe, 1964 provavelmente seria
antecipado para 1955 e toda a história posterior seria diferente. O “se” não
tem nenhum efeito sobre o passado, mas é uma tentação natural de todo
historiador: imaginar outras possibilidades é, na verdade, um recurso e,
até, um caminho lógico para entender melhor a história real – já que é
difícil explicar o que aconteceu, sem pensar no que poderia ter acontecido.
IMAGINAÇÃO – O contrafactual é parte natural de uma espécie de
laboratório de testes: com uma diferença, o laboratório do historiador é a sua
imaginação, sempre rigorosamente documentada. Este talvez seja o principal
mérito do jornalista Wagner William em “O Soldado Absoluto”, uma biografia
(agora relançada pela Editora Record) detalhadíssima do Marechal Lott.
Admirado por políticos de esquerda – sem qualquer afinidade ideológica com
ele – e amaldiçoado por aquela fração de militares que articularam o golpe de
1964, Lott acabou um personagem esquecido, quase ausente na memória
política brasileira. Indo muito além dos fatos e da biografia do personagem
central, Wagner William reconstrói uma história crivada de meandros,
equívocos, frustrações e ressentimentos que deixaram marcas perturbadoras
na política brasileira.
À margem da geração de “tenentes”, que pregava a participação militar na
cena política, Lott sempre buscou a imparcialidade, estampada no perfil de
sua personalidade.
PRIMEIRO ALUNO – Em todos os cursos, sem exceção, desde a Escola de
Aperfeiçoamento de Oficiais, foi sempre o primeiro aluno. Tinha horário fixo
para levantar, almoçar, jantar e até para beber água. No Rio de Janeiro,
conta-se que frequentadores da praia acertavam o relógio pela corrida matutina
de Lott, que nunca se atrasava. Só começou a assumir cargos importantes
quando era necessário alguém para “botar ordem na casa”. E quando isto
acontecia, perguntavam: do que o general gosta?
“Ele não bebe, não fuma, é caseiro, não gosta de reuniões sociais e não aceita
barganhas nem presentes.”
Já na campanha presidencial contra seu adversário, Jânio Quadros, da “espada
contra a vassoura”, Lott encarnou exatamente o oposto do candidato histriônico,
populista.
PATRIOTISMO – Nas eleições presidenciais de 1960, Lott não desejava ser
candidato, mas encarava a disputa contra Jânio segundo dizia, como “um ato de
patriotismo para salvar o Brasil desse homem”. Mas, Lott também não era o
preferido de JK, que, discretamente, articulava a volta ao poder.
Despojado e direto, sem habilidade política, Lott não mexia um dedo para
agradar. Até seu tipo físico não ajudava – forte, pele avermelhada, olhos
azuis penetrantes – parecia mais uma criança robusta, posando em anúncio de
leite em pó.
Intransigente, irritantemente perfeccionista, sem nenhuma aptidão para ajeitar
ou contemporizar, acabou virando paradigma do militar de hábitos rígidos. Assim,
quando não entrava como personagem nas famosas “piadas de caserna” (na época,
uma seção famosa da revista Seleções) Lott acabou se transformando naquele
militar sempre admirado nos quartéis, modelo de honra e caráter, que pregou a
neutralidade enquanto pode.
PODER MODERADOR – Como ministro, chegou a ser uma espécie de “poder
moderador” – até ser envolvido pela engrenagem e, de certa forma, mergulhar, de
corpo inteiro, no jogo das facções patrimonialistas no cenário político brasileiro.
Cenário que ele definia, resignado, e já no final da vida, como autentica “piscina de
crocodilos”.
Menos alegre e muito mais dolorosa, a história dos familiares e pessoas ligadas a
Lott também ocupa lugar importante no livro. Muitas tiveram suas carreiras
encerradas depois do golpe de 1964. Sua filha Edna, eleita deputada estadual e
cassada em 1969, morreu em 1971, assassinada por seu secretário e motorista.
NETO TORTURADO – Nelson, filho de Edna, ainda como estudante de História,
engajou-se na ALN, envolvendo-se em ações armadas. Quase como resposta
documentada à descrença do seu avô – “Meu Exército não faz isso”, teria sido a
imediata reação do Marechal às denúncias – o autor inclui no livro o testemunho
inédito e detalhado da prisão e tortura do neto de Lott nas dependências do Exército.
Herói por sua intransigente defesa da vontade das urnas ou figura
controversa por destituir dois presidentes em nome da legalidade? A vantagem
de uma biografia detalhada e rigorosamente documentada é que ela ultrapassa
a mera superfície dos maniqueísmos fáceis. Decididamente, o “se” não altera
o passado. Mas instiga nossa memória.
                                          (Artigo enviado por Mário Assis Causanilhas)

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas