segunda-feira, setembro 30, 2019

Jornalismo perde Newton Carlos, o grande observador da política internacional


Newton Carlos foi um dos maiores jornalistas brasileiros
Deu em O Globo
Classificado como um mestre por uma geração de profissionais que fizeram a história da imprensa brasileira, entre eles Janio de Freitas e Clóvis Rossi , o jornalista Newton Carlos de Figueiredo morreu aos 91 anos na manhã desta segunda-feira, no Rio de Janeiro.
Newton Carlos foi um pioneiro no Brasil da cobertura da América Latina e do colunismo sobre questões internacionais. Começou no jornalismo nos anos 1940, no Correio da Manhã, trabalhou no Jornal do Brasil e foi colunista durante 25 anos da Folha de S. Paulo, com a qual continuou a colaborar até pelo menos 2013.
MUITOS LIVROS – O jornalista escreveu mais de duas dezenas de livros, entre eles “América Latina dois pontos”, “A conspiração”, “O arsenal sul-americano de Saddam Hussein”, “Camelot, uma guerra americana” e “Bush e a doutrina das guerras sem fim”. Ganhou o Prêmio EFE, entregue pelo rei da Espanha.
Newton Carlos nasceu em Macaé, em 19 de novembro de 1927. Mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar contabilidade, mas o dom da escrita o levou para o jornalismo. Depois do Correio da Manhã, trabalhou na Tribuna da Imprensa, dirigida na época por Carlos Lacerda. Na cobertura dos sindicatos, foi convidado pelo governo espanhol no exílio — a Espanha estava em plena ditadura de Francisco Franco — a trabalhar em Bruxelas, na Organização Internacional dos Sindicatos Livres.
Depois de dois anos na Europa, voltou ao Brasil e assumiu a chefia de reportagem da revista Manchete. Em 1960, durante a reforma que modernizou o Jornal do Brasil, foi contratado como seu primeiro editor internacional, área na qual se fixaria. Escreveu também para veículos internacionais, como o Il Manifesto italiano e o Clarín argentino, além de publicações peruanas e mexicanas.
NA TELEVISÃO – Esteve na TV Excelsior, e participou do Jornal de Vanguarda. Na TV Globo, redigia o Jornal da Globo, precursor do Jornal Nacional. Esteve também na TV Rio e na TV Tupi. Pela TV Bandeirantes, cobriu todas as eleições americanas, desde 1972. Também cobriu as eleições na Espanha depois da queda da ditadura de Francisco Franco; e o golpe de Augusto Pinochet em 1973, que levou a morte do então presidente do Chile, Salvador Allende.
Janio de Freitas, que liderou a reforma do JB entre o final dos anos 1950 e o início dos 1960, conta que já havia trabalhado com Newton Carlos na Tribuna da Imprensa e no Diário Carioca quando o convidou  para assumir a primeira editoria internacional do jornal.
— Ali mesmo começou a se dedicar à política internacional, principalmente voltada para a América Latina, o que acabou se tornando uma característica sua, que influenciou muitos outros jovens jornalistas, como Clóvis Rossi — conta. — Era um repórter muito atento às questões sociais e de políticas públicas.
O “MAESTRO” – Rossi, que morreu em junho deste ano, referia-se a Newton Carlos em suas colunas como “maestro”. O jornalista Rosental Calmon Alves, que foi correspondente do Jornal do Brasil em Buenos Aires e Washington e hoje é professor da Universidade do Texas em Austin, nos EUA, acredita que Newton Carlos inspirou mais mais de uma geração de jornalistas brasileiros interessados no noticiário internacional.
— Ele foi uma inspiração para o meu interesse pelo noticiário internacional, com suas colunas sempre informativas e explicativas sobre os mais intricados assuntos de política internacional. A gente lia as notícias para saber o que estava acontecendo em terras distantes, mas depois achava a explicação na coluna do Newton Carlos, que nos permitia entender o que estava acontecendo de verdade e o que significava aquele acontecimento. Primeiro, Newton Carlos era o explicador do mundo, mas depois se tornou o explicador da América Latina.
O ANALISTA – Editor de Opinião de O Globo, Aluizio Maranhão ressalta suas análises internacionais: “Para minha geração de jornalistas, que começou  em 1970,  ele sempre foi referência em análise de política internacional. Eram tempos difíceis, de ditadura, e Newton Carlos conseguia passar luz naquela escuridão”.
Para o jornalista, sociólogo e escritor Jayme Brenner, especializado em cobertura internacional, Newton Carlos era um exemplo para a profissão, principalmente por dar destaque à América Latina e aos países em desenvolvimento.
— Ele nunca se conformou com o eurocentrismo ou americanocentrismo, e isso foi uma inspiração para várias gerações de jornalistas internacionais.
Newton eixa a mulher Eliana Brazil Protásio, com a qual estava casado havia 34 anos, e três filhas  — Cláudia, Márcia e Janaína Figueiredo, jornalista de O Globo.
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NOTA DA REDAÇÃO DE O GLOBO
 – Mais um gigante do Jornalismo, mais um grande e querido amigo que se vai. A matéria de O Globo esqueceu três jornais em que Newton Carlos trabalhou – Diário de Notícias, Ultima Hora e O Pasquim. Nos conhecemos no início da década de 70, quando fui dirigir o Diário de Notícias. Ficamos logo amigos, porque tínhamos o mesmo nome, às avessas. Depois, fui dirigir a Última Hora e nos reencontramos. Nessa época, ele morava na Rua Júlio Otoni, em Santa Teresa, onde a gente tinha altos papos com outro monstro do Jornalism , Reynaldo Jardim, um dos criadores do revolucionário Jornal da Tarde.
Também trabalhamos juntos em O Pasquim, no qual eu escrevia sobre política nacional e ele, sobre internacional. Na época, o diretor era o Jaguar; e o editor, o Cesar Tartaglia. Na época , tentei fazer uma piada: editar as duas páginas confrontantes, uma assinada pelo Newton Carlos e a outra pelo Carlos Newton. Mas eles achavam que ia dar confusão. Mas essa confusão sempre houve, muita gente até hoje me chamava de Newton Carlos, que é uma honra para mim. E havia também quem o chamasse de Carlos Newton. Aliás, seu terceiro casamento foi com uma amiga minha de infância, Eliana Brazil Protásio, neta do cientista Vital Brazil. Mas isso já é outra história. (C.N.).    

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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