Publicado em 3 de outubro de 2026 por Tribuna da Internet

Urnas revelarão o tamanho real de cada campo político
Pedro do Coutto
A campanha presidencial chega ao primeiro turno marcada por uma combinação pouco habitual: os dois candidatos que lideram as pesquisas ficaram fora do último debate televisivo, e o eleitor foi privado, na reta final, do confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro. O cancelamento do debate da TV Globo não pode ser explicado por um único fator.
Houve a decisão de Lula de não comparecer, a desistência posterior de Flávio Bolsonaro e, entre os dois movimentos, decisões judiciais que alteraram as regras do programa poucas horas antes de sua realização.
ANÁLISE – Debates eleitorais têm uma função específica: colocar candidatos diante de perguntas, críticas e respostas que não podem ser inteiramente controladas pelas assessorias. Não substituem entrevistas, programas de governo ou propaganda eleitoral, mas permitem ao eleitor observar como cada candidato reage quando precisa responder ao adversário diante das câmeras.
Foi justamente essa dinâmica que desapareceu na reta final do primeiro turno. Lula comunicou que não participaria do debate da Globo e, no mesmo horário, optou por uma entrevista no Flow Podcast. Flávio Bolsonaro havia confirmado presença, mas desistiu depois das decisões judiciais que modificaram as condições do programa. Pela primeira vez em duas décadas, o primeiro turno de uma eleição presidencial brasileira terminou sem um debate televisivo entre os dois principais nomes das pesquisas.
PROIBIÇÃO – A decisão da Globo veio depois de duas determinações judiciais. O TSE proibiu a emissora de exibir o púlpito vazio reservado a Lula e de permitir que os demais candidatos dirigissem perguntas a ele. A justificativa foi a necessidade de evitar que a ausência de um candidato produzisse efeito negativo sobre sua candidatura. Em outra frente, o STF determinou a inclusão de Renan Santos no debate. A emissora afirmou que as novas determinações interferiam nas regras previamente estabelecidas e decidiu cancelar o programa.
É importante separar os planos. A Justiça Eleitoral tem competência para examinar regras de debates e assegurar tratamento isonômico entre candidaturas. Mas permanece legítima a discussão sobre os efeitos de decisões tomadas poucas horas antes de um programa previamente organizado. Até que ponto a intervenção judicial protege a igualdade entre candidatos e em que momento passa a interferir na autonomia editorial de uma emissora?
OPORTUNIDADE – O episódio deixou uma consequência objetiva: o eleitor perdeu a oportunidade de assistir ao confronto entre os dois nomes que concentravam a maior parte das intenções de voto.
As pesquisas ajudam a compreender o momento, mas não podem ser confundidas com o resultado eleitoral. O Datafolha divulgado em 1º de outubro mostrou Lula com 42% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 38%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. No segundo turno, o levantamento apontava 48% para Lula e 45% para Flávio. A pesquisa ouviu 2.506 eleitores entre 29 de setembro e 1º de outubro.
Há, portanto, uma correção importante a fazer na leitura desses números: 42% mais 38% não significam 80% dos votos definidos. São 80% das intenções declaradas naquela pergunta. O próprio Datafolha informou que 17% dos eleitores ainda admitiam mudar de voto.
FOTOGRAFIA – Essa distinção é politicamente decisiva. Pesquisa é fotografia; eleição é movimento. O levantamento mede a opinião pública no momento das entrevistas. A urna registra uma decisão tomada posteriormente, sob influência de acontecimentos que ainda não haviam ocorrido.
O primeiro turno será, portanto, também um teste da capacidade dos institutos de captar um eleitorado submetido a uma disputa extremamente polarizada e a mudanças de última hora. O Datafolha mostra forte concentração nos dois primeiros colocados, mas não uma eleição encerrada.
Há diferenças relevantes entre regiões, renda, escolaridade e grupos religiosos. Lula aparece à frente no Nordeste e entre eleitores de menor renda; Flávio apresenta vantagem entre evangélicos e em determinados segmentos. No Sudeste, principal colégio eleitoral do país, a diferença é estreita.
DIMENSÃO – O resultado do primeiro turno revelará não apenas quem avançará, mas o tamanho real de cada campo político e onde estarão os eleitores que não se encontram completamente integrados à polarização.
A eleição de 2026 também guarda uma relação inevitável com 2022. Naquele ano, Lula venceu Jair Bolsonaro no segundo turno por 1,8 ponto percentual. O resultado foi seguido pelos ataques de 8 de janeiro de 2023 aos prédios dos Três Poderes. O episódio mostrou o grau de tensão que uma disputa presidencial apertada pode produzir quando a derrota eleitoral deixa de ser compreendida por determinados grupos como parte normal do processo democrático.
REAÇÃO – Quatro anos depois, a pergunta fundamental permanece: como os diferentes campos políticos reagirão ao resultado produzido pelas urnas? Se houver segundo turno, os eleitores dos candidatos que ficarem pelo caminho não constituirão um bloco homogêneo. Tampouco se pode pressupor que o voto em um candidato no primeiro turno será automaticamente transferido para outro. A pesquisa identifica tendências; não determina comportamentos individuais.
O mesmo vale para os candidatos que eventualmente avançarem. A vantagem obtida no primeiro turno não garante o resultado seguinte. A disputa binária exige novas alianças, respostas às rejeições e capacidade de alcançar eleitores que não estavam originalmente em cada campo político.
REFLEXO – O cancelamento do debate da Globo produz, assim, uma consequência maior do que a retirada de um programa da televisão. O eleitor perdeu uma das últimas oportunidades de observar os candidatos sob pressão e comparar respostas diante de questões comuns. Agora, porém, já não há debate que possa ser recuperado. Resta a urna.
Ela transformará percentuais em votos, intenções em decisões e pesquisas em realidade eleitoral. O primeiro turno dirá quanto da polarização captada pelos institutos se converterá efetivamente em votos e quanto do eleitorado ainda poderá alterar a configuração da disputa.
Depois dele, se houver segundo turno, começará outra eleição dentro da mesma eleição. E será nesse momento que a política deixará de ser fotografia para se tornar resultado.