segunda-feira, outubro 09, 2023

Guerra perdida




O crime organizado está em toda a parte, com estrutura, armas e dinheiro. Cadê o Estado?

Por Eliane Cantanhêde (foto)

O Brasil assistiu, na semana passada, a uma síntese da gravíssima crise de segurança pública, que só piora e não se sabe até onde pode chegar. Os 33 tiros contra quatro médicos num quiosque no Rio e a chacina de uma família inteira na Bahia não deixam dúvidas: o crime está ganhando a guerra, enraizou-se no País inteiro, tem comando, estrutura, quadros, armas e dinheiro, muito dinheiro. O Estado está tonto, inseguro, despreparado e passivo. A política aplicada há 40 anos deu nisso.

O episódio no Rio revela muito dessa nossa tragédia cotidiana. Não havia nenhum esquema de segurança para um evento internacional com milhares de pessoas. O alvo dos tiros era um bandido conhecido, filho de um ex-PM que virou chefe de milícia (como tantos outros...), morador de uma das áreas mais luxuosas do País, a um quilômetro não apenas de uma delegacia de polícia, mas de uma delegacia de homicídios. Parte da paisagem, à luz do dia, à luz da lua, à vista de todos.

Já a “inteligência” da quadrilha, com olheiros por toda parte, identificou e avisou sobre o “alvo” no quiosque, os matadores estavam a postos e já chegaram atirando não em um, mas em todos à mesa. O erro macabro foi a confusão entre o bandido e um dos médicos, com altura, peso, barba, cabelo e até óculos muito parecidos. E isso custou a morte de três cidadãos de bem e também dos seus executores. Em 12 horas, o crime julgou, condenou e matou os que mataram. E o “tribunal” foi convocado de dentro da prisão, por celular.

Em Jequié, cidade mais violenta de um País tão violento, que fica na Bahia, Estado recordista em assassinatos e letalidade policial, criminosos dizimaram uma família inteira de ciganos. Entraram na casa – na casa! – e atiraram numa moça de 22 anos, grávida de nove meses, numa menininha de quatro anos, duas mulheres e dois homens. Um terceiro já havia sido morto.

O ministro da Justiça, Flávio Dino, e o diretor geral da PF, Andrei Passos, estavam justamente na Bahia, anunciando mais RS 134 milhões para o combate ao crime organizado. O que, como o próprio Dino deve saber, não resolve nada. Pinuts. Sem um pacto nacional entre os três poderes, Estados, municípios, universidades, mídia e setor privado, com assessoria dos maiores especialistas daqui e do mundo, não tem governo, ministro, PF ou dinheiro que deem jeito.

E mais. Segundo o Sou da Paz e a Oxfam Brasil, a reforma tributária em tramitação no Congresso pode reduzir drasticamente (é literal) os impostos sobre armas no País. De 75,5% no Rio e de 63,5% em São Paulo para 10% nos dois Estados. Tudo que está ruim pode piorar...

O Estado de São Paulo

Em destaque

Redução da jornada de trabalho teria custo similar ao de reajustes históricos do salário mínimo, aponta Ipea

    ESCALA 6X1   Redução da jornada de trabalho teria custo similar ao de reajustes históricos do salário mínimo, aponta Ipea Nos grandes se...

Mais visitadas