As reações da cúpula da Segurança Pública ao desqualificar o relatório da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, que apontou duas execuções e acusou a polícia de destruir provas na megaoperação no Complexo do Alemão, no dia 27 de junho, provocou discussão em vários setores da sociedade. O cardeal arcebispo do Rio, dom Eusébio Oscar Scheid, criticou ontem a atual política de segurança pública ao comentar o laudo.
"Não adianta usarmos estratégias que não sejam baseadas nos princípios do respeito à pessoa de ambas as partes, sejam das autoridades que zelam pelo bem comum, sejam dos que zelam pela ordem e sejam aqueles que causam a desordem. Estratégias só valem aquelas que são baseadas no respeito", disse o arcebispo, após celebrar missa em homenagem às vítimas da violência no Cemitério de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio.
Um manifesto liderado pelo músico Marcelo Yuka, que ficou tetraplégico após ser baleado em um assalto em 2000, acusa o governo estadual de adotar a "política de extermínio" e critica as recentes declarações do governador Sergio Cabral Filho, que chamou as favelas de "fábricas de marginais" e defendeu o aborto para reduzir a criminalidade.
O texto também é assinado por associações de magistrados, entidades civis, escritores, músicos e artistas, como a atriz Letícia Sabatella e o autor de "Cidade de Deus", Paulo Lins .
O ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ João Tancredo anunciou que seis famílias dos mortos na operação acionarão o Estado. Entre elas, a família de José Farias da Silva Júnior, de 18 anos, que, de acordo com o laudo foi executado, assim como Emerson Goulart, 26.
As demais famílias que vão processar o Estado são a do deficiente físico Maxwel Vieira da Silva, 17, dos menores David Souza de Lima, 14, Pablo Alves da Silva,16, e de Bruno Paula Gonçalves da Rocha, 20, e Marcelo Luiz Madeira, 27. "Na esfera criminal, queremos transformar o auto de resistência em homicídio. Na cível, buscaremos a reparação", anunciou Tancredo.
Em nota divulgada na quinta-feira o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, disse que os peritos sequer vieram ao Rio. Foi desmentido pelo chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, que admitiu ontem que encontrou os especialistas e passou informações solicitadas. O anexo VII do relatório mostra os peritos também encontraram no Rio o delegado do Departamento de Polícia Técnico-Científica, o diretor do IML, os legistas e peritos.
A afirmação no relatório de que a polícia destruiu provas irritou as autoridades fluminense. Os peritos apontam no relatório que a Secretaria de Segurança Pública não forneceu vários dados solicitados, como o número de policiais envolvidos na operação e não explicou o sumiço das vestes dos mortos, que serviriam como prova para a perícia. O Hospital Geral de Bonsucesso (federal) e Hospital Getúlio Vargas (estadual) também não forneceram os prontuários dos atendimentos às vítimas aos peritos.
"É preciso saber o motivo da ausência dos peritos no local tomado pela polícia. As fotos dos jornais mostram os corpos cercados por jornalistas e populares, ou seja, não estava inacessível, como diz a polícia. A Kombi deixada na porta de uma delegacia com vários corpos não foi periciada", apontou o ouvidor-geral da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Pedro Montenegro.
Ao saber da reação do secretário, lembrou que o relatório foi encomendado pelo Ministério Público do Rio. "Autoridade que não preserva provas deve responder criminalmente. O Rio adota condutas de investigação contrárias às leis. Se isso ocorre por negligência, má-fé, preconceito de classe ou excesso de trabalho, deve ser investigado", declarou Montenegro.
Fonte: Tribuna da Imprensa
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