Governador já admite implosão da Fonte Nova e ministro dos Esportes defende terceirização do estádio
Alan Rodrigues
O acidente que causou a morte de sete torcedores na Fonte Nova pode ter sido o ponto final de uma história de 57 anos. A tragédia, motivada pelo desabamento de parte da arquibancada superior, reforça a tese dos que já defendiam a implosão do estádio para reconstrução no mesmo local ou em outra área de Salvador. O tema já integrava a pauta governamental desde a confirmação do Brasil como país-sede da Copa do Mundo de 2014, quando se levantou a possibilidade de Salvador ser escolhida como uma das cidades a abrigar jogos. Em visita à Fonte Nova, ontem pela manhã, o governador Jaques Wagner admitiu que a implosão do estádio é uma “hipótese real”. Ele decretou luto oficial por três dias.
O ministro dos Esportes, Orlando Silva, foi mais direto e defendeu, inclusive, a terceirização da administração da Fonte Nova. “Hoje o esporte brasileiro está de luto. Como baiano, fico ainda mais sensibilizado. A Fonte Nova foi um templo importante, mas temo que este tenha sido seu último ato”. O ministro garantiu todo apoio do governo federal e disse aprovar a proposta de construção do novo estádio. “Conheço o projeto para a Copa de 2014 e acho que a Bahia deve ter uma arena moderna. A Fonte Nova não tem a menor condição de sediar nem competições da Fifa nem Campeonato Brasileiro. Esta é uma decisão do governo do estado, mas a minha opinião é que o novo estádio deve ser construído com recursos privados e administrado pela iniciativa privada”.
Antes da chegada da comitiva governamental, o superintendente de Desportos do estado, Raimundo Nonato Tavares da Silva, o Bobô, prestou os primeiros esclarecimentos. Questionado sobre um laudo em que a Polícia Militar teria advertido para o risco de uma tragédia, Bobô argumentou que à PM cabem apenas as avaliações de segurança. “A questão estrutural é analisada por engenheiros, recebemos um relatório da gestão anterior e por quatro meses interditamos o anel superior para troca das placas de concreto”, relatou o superintendente, reforçando que o estádio estava em condições de acomodar os 60 mil torcedores presentes anteontem, no jogo entre Bahia e Vila Nova, que garantiu o retorno do tricolor à Série B.
Obras - Bobô lembrou ainda que, independentemente do acidente, já estavam previstas obras orçadas em R$1,4 milhão a partir de ontem, uma vez que não havia mais jogos programados para este ano. O ex-jogador afirmou não ter tido acesso ao relatório do Sindicato Nacional dos Arquitetos e Engenheiros da Construção Civil (Sinaenco), que classificou a Fonte Nova como o pior entre 29 estádios públicos vistoriados em 17 capitais brasileiras.
O governador Jaques Wagner chegou à Fonte Nova acompanhado do ministro dos Esportes, Orlando Silva – que veio a Salvador especialmente para tratar da tragédia –, do presidente da Assembléia Legislativa, deputado Marcelo Nilo, do chefe de gabinete Fernando Schmidt, e dos secretários de Relações Institucionais, Rui Costa, de Trabalho, Emprego, Renda e Esporte, Nilton Vasconcelos Jr., e de Segurança, Paulo Bezerra. A portas fechadas, a comitiva se reuniu na sala da superintendência e seguiu para uma vistoria em torno das arquibancadas e no trecho onde houve o desabamento. No gramado, as marcas do vandalismo também puderam ser vistas, com parte da grama arrancada, toldos e placas de publicidade destruídas durante a invasão dos torcedores, que aconteceu, segundo o secretário de Segurança, devido ao deslocamento dos policiais militares para a área externa no momento do acidente.
Após a vistoria, o governador Jaques Wagner minimizou a possibilidade de superlotação e disse que a quantidade de ingressos colocadas à venda (60.340) era a liberada pela administração do estádio. Ele assegurou toda assistência às famílias das vítimas e anunciou que qualquer decisão sobre o estádio só poderá ser tomada após a perícia. “Vamos ver se é o caso de recuperação ou se vamos partir efetivamente para a construção de uma nova praça. Este ocorrido, infelizmente com vítimas, se soma àqueles que já defendiam a demolição da Fonte Nova”.
***
PERÍCIA
ENGENHEIROS do Departamento de Polícia Técnica concluíram ontem a análise da estrutura de parte do anel superior da Fonte Nova. O laudo preliminar da perícia deverá sair em dez dias. Especula-se que a causa do acidente tenha sido desgaste de material. O anel superior da Fonte Nova foi construído em 1971 e jamais passou por uma reforma estrutural. Na inauguração, uma onda de boatos sobre o desabamento da arquibancada causou pânico entre os torcedores. No tumulto, duas pessoas morreram e cerca de duas mil ficaram feridas.
Fonte: Correio da Bahia
terça-feira, novembro 27, 2007
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