quarta-feira, julho 01, 2026

EDITORIAL: Jeremoabo entre a Disputa de Datas e as Ruínas do Passado – A Quem Interessa Mudar o Calendário se a História Está Desabando?

 

EDITORIAL: Jeremoabo entre a Disputa de Datas e as Ruínas do Passado – A Quem Interessa Mudar o Calendário se a História Está Desabando?


Por José Montalvão


Nos últimos tempos, Jeremoabo tem sido palco de um debate que, para a realidade prática e as necessidades urgentes do seu povo, soa quase como uma distração burocrática e uma futilidade de bastidor: a imposição, por parte de alguns setores isolados, para alterar a data da emancipação política do município, movendo as celebrações tradicionais de 6 de julho para o dia 25 de outubro de 1831.

Há quem tenha dedicado tempo, suor e legítima pesquisa para trazer luz aos fatos, oferecendo sua contribuição cidadã ao debate histórico, o que merece o devido respeito. No entanto, a grande verdade que ecoa pelas ruas e feiras da cidade é uma só: mudar ou não a folha do calendário, a esta altura do campeonato, é o mesmo que nada. Essa canetada burocrática não irá gerar um único posto de trabalho, não colocará comida na mesa de ninguém, não melhorará o atendimento na saúde e nem trará o desenvolvimento econômico que a população tanto espera.

A história de Jeremoabo, infelizmente, foi transformada por gestões passadas em um cristal quebrado. E, como todos sabem, não adianta querer emendar as arestas de um espelho partido quando o que ele reflete já está desfigurado pelo tempo e pela negligência.

O Apagamento das Raízes e o Descaso Histórico com o Patrimônio

Enquanto mentes desocupadas discutem um dia abstrato no papel para a emancipação, o patrimônio material, arquitetônico e histórico de Jeremoabo desaba a olhos vistos em consequência de décadas de abandono. Destruir ou abandonar a memória física de uma cidade provoca uma perda irreparável na identidade cultural de um povo. O que vemos hoje é a desfiguração da nossa paisagem urbana, o enfraquecimento do senso de pertencimento e um impacto econômico brutal no turismo histórico-cultural, que poderia ser uma fonte real de emprego e renda para os nossos jovens.

Quando uma cidade perde suas referências físicas, ocorre o chamado "apagamento de raízes". Os monumentos e edifícios antigos contam a história viva da fundação e da evolução da sociedade. Sem eles, as próximas gerações perdem o vínculo com seus antepassados. E os fatos, lamentavelmente, não mentem e expõem a herança maldita do amadorismo:

  • A Casa do Barão de Jeremoabo: A residência onde nasceu Cícero Dantas Martins (1838–1903) — primeiro e único Barão de Jeremoabo, latifundiário, industrial e responsável por instalar a primeira usina de açúcar do Norte e Nordeste do Brasil — hoje não passa de ruínas humilhantes.

  • A Casa do Coronel João Sá: Um dos políticos mais influentes e importantes não apenas de Jeremoabo, mas de todo o estado da Bahia, teve sua imponente residência transformada em tristes escombros.

  • Marcos Primitivos: A primeira casa construída no município e o primeiro Mercado Oficial da cidade também sucumbiram ao abandono de outrora e viraram poeira.

  • A Natureza e os Pontos de Encontro: Até mesmo as referências afetivas foram historicamente castigadas. Os antigos cajueiros, onde os jeremoabenses se reuniam e tomavam banho, sumiram. A antiga Delegacia tornou-se um prédio totalmente deteriorado.

  • Ataques Recentes à Memória: Exemplos de desrespeito continuam acontecendo na propriedade privada, como a desconfiguração da histórica Residência de Dona Olga e a derrubada seguida da queima criminosa de um juazeiro centenário, episódios que marcam o descaso cultural e o crime contra o patrimônio verde e urbano.

"Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado." — Emília Viotti da Costa, historiadora.

Patrimônio é Identidade, Não Burocracia de Gabinete

A frase da célebre historiadora Emília Viotti da Costa reflete perfeitamente a tragédia constante enfrentada por Jeremoabo, que mimetizou, em escala local, o mesmo descaso institucional que o Brasil assistiu no trágico incêndio do Museu Nacional em 2018. O patrimônio cultural de uma sociedade é tudo aquilo que constitui sua alma. Não se guarda a história se não houver um compromisso real com a preservação da memória e com a retidão das certidões públicas.

Mudar a data da emancipação política pode até render discursos políticos inflamados na oposição ou preencher atas vazias em gabinetes, mas não reconstrói o teto que caiu, não ergue as paredes da casa do Barão e não devolve a dignidade da memória jeremoabense que foi jogada no ralo.

A sociedade civil cumpriu seu papel, pesquisou e alertou. Mudar o dia da festa não esconde o rastro de abandono que as administrações passadas deixaram na cidade.

Conclusão: O Desafio de Reconstruir Sobre as Cinzas

Diante desse cenário de terra arrasada deixado pelo passado, hoje só resta ao atual prefeito Tista de Deda a hercúlea e necessária missão de continuar construindo e resgatando o que foi destruído por aqueles que governavam sem planejamento técnico. O passado de abandono já não existe mais como governança, mas as suas ruínas ainda cobram o preço.

Enquanto os palanques se digladiam por vaidades de calendário, a atual gestão foca na alta performance administrativa: trouxe o São João da Inovação neste ano de 2026, prestigiou a agricultura familiar e segue limpando as contas no TCM para garantir investimentos permanentes na infraestrutura urbana e rural. A população consciente não quer cosmética de datas vazias em Diário Oficial; o povo quer dignidade, trabalho e a reconstrução real da nossa querida Jeremoabo!

José Montalvão Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI - Registro C-002025).

Blog de Dede Montalvão: O canal dos seus mais de treze milhões de leitores, combatendo as cortinas de fumaça da política e exigindo o progresso de Jeremoabo em alta velocidade!

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