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Janja entra na disputa pelo voto evangélico
Sérgio Roxo
O Globo
Resistente ao longo de toda a corrida eleitoral de 2022 a gestos do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva em direção aos evangélicos, a primeira-dama Janja da Silva mudou de postura na disputa atual e tem dialogado com segmentos religiosos. Ela planeja, inclusive, para as próximas semanas, quando a campanha já estiver começado oficialmente, uma “grande reunião” com eles em São Paulo. A nova posição em relação ao grupo chama a atenção de aliados do presidente.
Mas, apesar do esforço, posicionamentos de Janja, como a sua defesa da aprovação do projeto de lei que criminaliza a misoginia, ainda são empecilhos em sua tentativa de criar conexões com os evangélicos.
RESISTÊNCIA – Na disputa de quatro anos atrás, Janja foi apontada como uma das principais responsáveis por Lula ter resistido ao máximo a lançar uma carta voltada ao segmento. A apresentação de um documento em que era assumido compromisso com a liberdade de culto e religião era defendida por toda a cúpula da campanha, mas o então candidato protelou ao máximo e só o apresentou dez dias antes do segundo turno.
Lula cedeu após conversa com a senadora Eliziane Gama (PT-MA), que é evangélica e na época estava no PSD. Apesar de ter acompanhado o marido na maioria dos eventos da campanha de 2022, Janja não compareceu ao ato de lançamento da carta aos evangélicos, num hotel de São Paulo.
MUDANÇA DE POSTURA – Lideranças petistas presentes nas duas campanhas dizem que é nítido que Janja mudou de postura em relação aos evangélicos. Indagada por meio de sua assessoria sobre a sua motivação para abrir diálogo com o grupo, a primeira-dama não respondeu.
Ao longo de 2025, Janja já havia feito uma série de viagens pelo país para encontros com evangélicas. Nas reuniões, ela chegou a cantar a música “Deus cuida de mim”, composta e interpretada pelo cantor Kleber Lucas.
DIÁLOGO – Em junho deste ano, a primeira-dama esteve no Encontro Nacional do Núcleo Evangélico do PT, em Brasília. Em sua fala, disse que “a gente precisa ir para dentro das igrejas e conversar com as nossas irmãs”. Ao usar termo típico dos evangélicos, Janja se justificou.
“Eu já estou falando “nossas irmãs” porque eu me sinto um pouquinho. O pessoal fica falando: “Ela não é evangélica”, mas eu acredito em Deus e é isso que importa. Eu acredito em Cristo”, disse Janja, que se emocionou ao citar a música “Deus cuida de mim”.
“Quando escuto o Kleber cantando… Quando eu falo até me emociono, porque o Espírito Santo precisa tocar o nosso coração aonde quer que a gente esteja. Deus está em qualquer lugar”, acrescentou. Janja contou no encontro do PT que procurou as mulheres evangélicas porque o seu “coração estava mandando” e falou que não seria representante da esquerda no diálogo.
INTENÇÃO DE VOTO – Pesquisa da Genial/Quaest mostra melhora da intenção de voto em Lula entre os evangélicos, apesar de Flávio Bolsonaro (PL) ter maior vantagem. Ele soma 53% das intenções de voto contra 31% do petista. Em maio, a vantagem era de 61% a 24%.
Mas o esforço de Janja para se conectar aos evangélicos pode ser abalado. Em entrevista à Folha de São Paulo e ao Uol, classificou críticas que a qualificam como “gastadeira” em suas viagens ao exterior como misoginia. A Câmara discute projeto de lei, defendido por ela, que criminaliza a misoginia. A bancada evangélica pede mudanças no texto, sob alegação que pode ferir a liberdade religiosa.