
Aliados querem ampliar papel de Fernanda em campanha
Luísa Marzullo
O Globo
O desempenho da dentista Fernanda Bolsonaro, mulher de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ao discursar na convenção que oficializou a candidatura ao Palácio do Planalto do senador, no último sábado, levou a campanha a acelerar um plano que vinha sendo discutido há semanas: transformar a esposa do presidenciável em um dos principais ativos eleitorais da candidatura. A partir de 10 de agosto, ela iniciará uma agenda nacional, começando por São Paulo, e passará a percorrer o país em compromissos voltados sobretudo para mulheres.
A estratégia é inspirada no papel desempenhado por Michelle Bolsonaro na campanha presidencial de Jair Bolsonaro, em 2022, quando a então primeira-dama se consolidou como um dos principais trunfos do bolsonarismo na interlocução com o eleitorado feminino e evangélico.
IMAGEM POLÍTICA – Desta vez, porém, integrantes da coordenação fazem uma ressalva importante: reconhecem que Fernanda parte de um patamar diferente e que será necessário construir sua imagem política ao longo da campanha. Auxiliares afirmam avaliar que o desempenho de Fernanda na convenção superou as expectativas.
Havia apreensão com a estreia dela em um palco nacional. A cirurgiã-dentista ensaiou diversas vezes o discurso nos dias anteriores ao evento e a campanha chegou a preparar um teleprompter para auxiliá-la durante a fala. No momento do evento, porém, ela não utilizou o equipamento e demonstrou tranquilidade, na avaliação da equipe de Flávio, o que respaldou a decisão de ampliar seu papel na corrida presidencial.
Apesar do desempenho, a leitura interna é que Fernanda ainda está distante do capital político acumulado por Michelle. Integrantes da campanha reconhecem que seu discurso foi mais protocolar, com foco em empreendedorismo, segurança pública e família, sem o forte componente emocional e religioso que marcou a participação da ex-primeira-dama na convenção de Bolsonaro em 2022.
DIFERENÇAS DE TRAJETÓRIA – Também pesam, segundo auxiliares, diferenças de trajetória. Michelle chegou àquele momento depois de anos de atuação política ao lado do marido, tendo trabalhado como assessora parlamentar e exercido protagonismo durante o governo Bolsonaro, principalmente em relação a temas como doenças raras. Fernanda, por outro lado, sempre manteve atuação discreta, distante da militância partidária e dos holofotes.
Ainda assim, estrategistas avaliam que ela reúne atributos capazes de dialogar com segmentos considerados prioritários para Flávio. A condição de mãe, cirurgiã-dentista e empresária é vista como uma credencial para aproximar a campanha de mulheres de classe média e pequenos empreendedores, públicos em que a candidatura pretende crescer. A orientação é explorar justamente esse perfil, evitando transformá-la em uma porta-voz da polarização política.
NEGOCIAÇÕES – A programação da caravana nacional começou a ser desenhada, mas só deverá sair do papel após 10 de agosto. Até lá, a campanha estará concentrada nas negociações para fechar a chapa presidencial antes do fim do prazo das convenções, em 5 de agosto, com a escolha da candidata a vice tratada como prioridade absoluta.
Superada essa etapa, a estreia de Fernanda está prevista para São Paulo, seguida por agendas no Ceará, na Paraíba, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, estados considerados estratégicos para a campanha. A expectativa é que ela mantenha uma agenda própria, alternando compromissos ao lado de Flávio e eventos exclusivos com mulheres.
AGENDAS PRIORITÁRIAS – Essa divisão de papéis também leva em consideração as circunstâncias da ex-primeira-dama. Embora continue sendo considerada o principal nome do bolsonarismo para mobilizar mulheres e o eleitorado evangélico, Michelle deverá concentrar sua participação em agendas consideradas prioritárias e compatibilizar a campanha com os cuidados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que segue em prisão domiciliar.
Outro fator considerado pela campanha é que a recomposição entre Flávio e Michelle ainda não ocorreu plenamente. Embora o senador tenha feito um gesto público ao divulgar um pedido de desculpas à ex-primeira-dama, dirigentes do PL afirmam que a relação segue em processo de reconstrução e que ainda há pendências a serem superadas.
Nos bastidores, a avaliação é que ambos atuarão em favor da candidatura presidencial, mas que Michelle não deverá se envolver na campanha com o mesmo grau de dedicação demonstrado nas eleições de Jair Bolsonaro.