Publicado em 26 de julho de 2026 por Tribuna da Internet

Pleito determina o destino de políticas públicas
Mauricio Moura
O Globo
Existe uma eleição no Brasil que move bilhões de reais, determina o destino de políticas públicas, define se o presidente da República terá ou não governabilidade — e que a esmagadora maioria dos eleitores não consegue nomear sequer um dos candidatos que disputam. Estamos falando da eleição para a Câmara Federal.
Em 2026, até o momento, todos os sinais apontam para a repetição de um padrão que já dura décadas: o eleitorado brasileiro chegará às urnas, para o cargo mais complexo e tecnicamente relevante do sistema político, quase no escuro.
DESCONHECIMENTO – Comecemos pelos dados recentes. Pesquisas recorrentes do Ideia mostram algo consistente. A maioria dos eleitores não sabe quem é o presidente da Câmara e mais de 75% do eleitorado não lembram em quem votaram para deputado (a) em 2022.
Para completar o cenário, não são 25% que declaram ter algum tipo de confiança no Congresso. A desconfiança, na prática, convive com a desinformação: o eleitor rejeita o Parlamento em abstrato sem ter ideia do que seus representantes concretos estão votando. E aproximadamente 80% acreditam que os parlamentares atuam somente em benefício próprio.
ARMADILHA – Esses dados apresentam uma armadilha: sem informação individualizada sobre cada deputado, o eleitor generaliza. Pune os bons junto com os maus. Reelege os maus junto com os bons. O ciclo se perpetua.
Vale a pena parar e contemplar, por um momento, o que está em jogo. Em 2025, as emendas parlamentares somaram R$ 50,4 bilhões. Salvo engano, cada deputado federal dispõe de R$ 37,2 milhões em emendas individuais, impositivas e de execução obrigatória pelo Executivo. Esse dinheiro vai para obras, hospitais, máquinas agrícolas, convênios com prefeituras. Define o que é construído, onde e para quem.
TRANSPARÊNCIA – Mas isso não é bom? Os parlamentares distribuindo recursos para suas bases? Pode ser, quando há transparência e controle. O problema é que a ausência de fiscalização popular — fruto do desengajamento do eleitor — cria condições ideais para o uso dessas verbas como moeda de troca política.
Parte do desengajamento tem raízes estruturais no sistema eleitoral. O voto para deputado federal obedece ao sistema proporcional — e seu funcionamento é genuinamente contraintuitivo. O eleitor vota em um candidato, mas esse voto conta simultaneamente como voto no partido. Um candidato muito votado pode “puxar” colegas de partido com votações ínfimas para a vaga. O resultado paradoxal: somente um percentual bem pequeno de parlamentares consegue se eleger exclusivamente com votos próprios.
O foco das campanhas, da cobertura jornalística e do debate público concentra-se quase exclusivamente na disputa presidencial. Os debates sobre deputados federais são, quando existem, eventos de nicho. O horário eleitoral gratuito é uma colagem caótica de rostos e jingles sem substância programática.
INCENTIVOS ESTRUTURAIS – Há limitações do que a sociedade civil e a imprensa podem fazer contra incentivos estruturais arraigados. Mas há caminhos. O primeiro é a cobertura jornalística regionalizada e aprofundada sobre os candidatos a deputado federal — quem são, o que defendem, como votaram (os com mandato), quais são seus financiadores.
O segundo é a educação eleitoral massiva, especialmente para jovens, sobre como funciona o sistema proporcional e por que o voto para deputado importa tanto quanto o voto para presidente. O terceiro — e talvez mais urgente — é a pressão por transparência das votações nominais no Congresso (saber quem votou em que é crítico). A democracia representativa não funciona quando os representantes são desconhecidos. Ou funciona para poucos. Vale a pena seguir assim?