segunda-feira, agosto 03, 2026

O Brasil foi realmente o principal alvo de Trump? Ou estamos enxergando apenas uma parte da história?



O tarifaço americano vai muito além da relação com o Brasil. China, Canadá, Índia, México, África do Sul, Suíça, Camboja, Laos e diversos outros países passaram a enfrentar barreiras comerciais inéditas. Em comum, uma nova estratégia: transformar tarifas em instrumento permanente de pressão política e geopolítica.


Neste artigo, analiso país por país, os produtos atingidos, as cadeias produtivas brasileiras afetadas e a razão pela qual muitas tarifas acabaram recuando diante da realidade econômica.


O qie aparenta ser uma discussão sobre comércio exterior, na verdade reflete como está sendo redesenhada a economia internacional — e quais lições o Brasil precisa tirar desse novo cenário.


Leia o artigo completo:  https://medium.com/@jeanpaulprates/o-tarifa%C3%A7o-sem-fronteiras-76ffc458134a

MISOGINIA NÃO PODE CALAR

 


A LIBERDADE DE IMPRENSA


Ricardo Viveiros*


 

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência para se transformar em conivência. A violência verbal dirigida contra mulheres jornalistas ultrapassou, e há muito tempo, o limite da crítica política. Se tornou estratégia de intimidação, de desumanização e de ataque à própria democracia.


As declarações atribuídas ao influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo Filho, neto do ditador João Figueiredo, último general que governou o Brasil no período após o golpe militar, feitas contra jornalistas da GloboNews e contra Miriam Leitão, repercutidas nas redes sociais, recolocam esse problema em evidência. As ofensas não representam apenas mais um destempero verbal. Revelam a persistência de uma cultura política que transforma mulheres em alvo preferencial de ódio sempre que elas exercem o direito, e o dever, de informar.


Não há crítica jornalística nas expressões "putas" ou "prostitutas". Há misoginia. Não existe debate de ideias quando a mulher é reduzida a insultos de natureza sexual. O objetivo é evidente: desqualificar profissionais não pelo conteúdo de seu trabalho, mas por seu gênero.


Isso vale também para a referência de que alguém "não merece ser estuprada”. A sociedade brasileira já enfrentou esse mesmo debate. Em 2014, Jair Bolsonaro dirigiu frase semelhante à então deputada Maria do Rosário. O episódio terminou nos tribunais, e o Superior Tribunal de Justiça deixou claro que esse tipo de declaração banaliza a violência sexual ao sugerir que o estupro poderia ser um "merecimento" ou uma escolha do agressor. Não se trata de figura de linguagem. Trata-se de uma inversão moral que agride todas as mulheres, todos nós.


É por isso que a repetição dessa construção retórica não pode ser recebida com naturalidade. Ela carrega um significado histórico, jurídico e simbólico que extrapola a ofensa individual.


O alvo, desta vez, também não é qualquer pessoa. Miriam Leitão é uma jornalista cuja trajetória está profundamente ligada à história da democracia brasileira. Ainda muito jovem e grávida, foi presa, torturada e submetida a graves violações de direitos humanos durante a ditadura militar. Sua história é conhecida, documentada e representa a memória de um período em que o Estado perseguiu cidadãos por suas convicções políticas.


Atacar Miriam Leitão com referências que evocam violência contra mulheres significa atingir não apenas uma profissional respeitada, mas também a memória das vítimas da repressão política. É impossível ignorar esse contexto.


O mais preocupante, contudo, é perceber que episódios como esse deixaram de ser exceção. Há anos, mulheres jornalistas se tornaram alvo preferencial de campanhas de ódio nas redes sociais. Não importa o veículo em que trabalham, sua linha editorial ou suas opiniões pessoais. Basta que publiquem informações desagradáveis a determinados grupos políticos para que passem a ser insultadas, ameaçadas ou submetidas a campanhas claramente coordenadas de difamação.


Não é coincidência. É método.


Quando a imprensa é intimidada, toda a sociedade perde. O jornalista não trabalha apenas para um veículo de comunicação. Trabalha para a sociedade, que depende de informação confiável para formar suas próprias convicções. Enfraquecer a credibilidade da imprensa por meio da violência verbal interessa apenas àqueles que preferem substituir fatos por versões deles, propaganda e investigação por intimidação.


Não se pode aceitar que figuras públicas utilizem sua enorme capacidade de alcance para estimular discursos que normalizam a violência simbólica. Palavras produzem consequências. Elas alimentam ambientes de hostilidade, incentivam seguidores mais radicalizados e tornam ainda mais difícil o exercício do jornalismo, em especial por mulheres.


É nesse ponto que entram as instituições. Havendo indícios de ilícitos, cabe ao Ministério Público investigar, ao Judiciário julgar e assegurar o devido processo legal. Responsabilização não é censura. É aplicação da lei. Liberdade de expressão exige responsabilidade de expressão, digo isso há anos. Direito à opinião jamais significou licença para ofender, humilhar ou incitar práticas discriminatórias.


O que nós queremos? Um ambiente em que divergências sejam enfrentadas com argumentos, dados e evidências ou uma arena dominada pelo insulto, pela misoginia e pela degradação do adversário. 


Combater a misoginia não é proteger um grupo específico. É afirmar um princípio civilizatório: nenhuma mulher deve ser humilhada, intimidada ou reduzida a estereótipos sexistas por exercer sua profissão ou manifestar suas opiniões.


Episódios dessa natureza não podem ser tratados como simples polêmicas das redes sociais. Eles exigem repúdio público, investigação quando cabível e, sobretudo, uma reafirmação inequívoca de que liberdade de imprensa, respeito às mulheres e responsabilidade pelas palavras são pilares inseparáveis de qualquer democracia digna desse nome. 


É preciso pulso firme contra esse tipo de absurdo, denunciar, investigar, julgar e punir com a lei. “Passar o pano” é motivar o crescimento da falta de respeito, institucionalizar a prática do ódio.


*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de “A vila que descobriu o Brasil”, “Memórias de um tempo obscuro” e “O sol brilhou à noite”. Apresenta o programa “Brasil, mostra a tua cara!” sempre aos domingos na TV Cultura.

Javier Milei faz novos ataques a Lula e o chama de ladrão e corrupto

 

Javier Milei faz novos ataques a Lula e o chama de ladrão e corrupto

Por UOL/Folhapress

03/08/2026 às 08:53

Foto: Reprodução/Arquivo/Instagram

Imagem de Javier Milei faz novos ataques a Lula e o chama de ladrão e corrupto

Javier Milei

O presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a atacar o presidente Lula (PT) e o chamou de ladrão e corrupto. As declarações foram feitas em entrevista ao jornal argentino La Nación, no domingo (2).

O argentino afirmou que Lula "não é inocente" das condenações na Operação Lava Jato. "Ele foi solto por causa de uma falha processual. Ele não é inocente."

As condenações de Lula foram anuladas em 2021 pelo STF (Supremo Tribunal Federal), que entendeu que os processos não tramitaram na devida jurisdição e que o então juiz Sergio Moro foi parcial ao conduzir os casos.

Ao La Nación, Milei defendeu suas declarações feitas na convenção de Flávio Bolsonaro e rejeitou as críticas de Brasília. "É muito menos grave chamar um ladrão de ladrão do que o próprio ato de roubar", argumentou ao rebater a reação do governo brasileiro aos seus ataques.

Ele ainda acusou, sem provas, Lula de interferir politicamente nos países da América Latina. Para o argentino, "se há alguém que interfere politicamente na região, é Lula, contaminando por completo com as ideias imundas do socialismo."

Também houve queixas de uma suposta assimetria no tratamento dado às ofensas feitas por líderes de esquerda. "Ele fica bravo porque eu disse algo verdadeiro para o Lula. Mas eles omitem os insultos do Lula e dos ministros dele, do Petro, do Evo Morales, do Correa, do Pedro Sánchez e da turma dele. Quando me insultam, tudo bem", afirmou.

A suposta articulação contaria com o apoio de governos estrangeiros e da oposição argentina. Conforme a acusação sem provas, o grupo contava com a ajuda do México, da ala progressista dos EUA, da Espanha e de kirchneristas.

Os ataques de Javier Milei a Lula começaram durante a convenção partidária no dia 25 de julho em São Paulo. O evento lançou oficialmente a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Na ocasião o argentino também afirmou que confia no filho de Jair Bolsonaro (PL) para "deter o lixo socialista".

As ofensas também se estenderam ao ministro do STF Alexandre de Moraes, que proibiu uma visita do argentino ao ex-presidente brasileiro. Milei chamou o magistrado de "lixo careca".

"Sei que Lula se cansou de receber dirigentes do exterior quando estava preso. Entre eles, o nefasto ex-presidente argentino Alberto Fernández", afirmou Milei.

O episódio detonou uma crise diplomática inédita entre os dois países. Após o episódio, o Itamaraty convocou o embaixador argentino no Brasil para prestar esclarecimentos.

A resposta de Lula veio pela imprensa. Ao ser questionado sobre os ataques de julho, Lula declarou de forma irônica: "Quem é esse cara?"

O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) classificou os ataques do presidente argentino ao Brasil como "lamentáveis". Ele afirmou também que Milei presta um desserviço ao próprio país ao se envolver de forma grosseira em assuntos internos brasileiros.

Em outras reações às falas feitas no encontro partidário, os ministros Dario Durigan (Fazenda) e Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) também criticaram Milei. O atual chefe da pasta econômica chamou o argentino de "palhaço", e Boulos acusou Milei de ser submisso ao presidente dos EUA Donald Trump. "Caricatura patética", escreveu nas redes.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, elogiou o discurso de Milei, na convenção do partido em São Paulo. "Milei, parabéns", afirmou ele em entrevista ao programa Canal Livre, da Band.

"Você falou tudo o que muito brasileiro queria falar ali: que o comunismo é esse mal mesmo", declarou. "Ele fez um discurso que não atacou o Brasil. Atacou o comunismo."

Politica Livre

PGR foi contra apreensão de dinheiro e relógios de Jaques Wagner, revela documento

 

PGR foi contra apreensão de dinheiro e relógios de Jaques Wagner, revela documento

Por Redação

03/08/2026 às 09:19

Foto: Geraldo Magela/Arquivo/Agência Senado

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Jaques Wagner

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, manifestou-se favoravelmente à operação de busca e apreensão realizada contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), em junho, mas foi contrário à apreensão de dinheiro em espécie e bens de luxo encontrados nos endereços do parlamentar. Segundo documentos tornados públicos pelo ministro do STF André Mendonça, Gonet avaliou que a medida seria "prematura" e excessivamente invasiva, afirmando que a posse de bens de alto valor, por si só, não configura crime. A informação é do jornal O Globo.

Apesar da manifestação da Procuradoria-Geral da República, André Mendonça acolheu o pedido da Polícia Federal e autorizou a apreensão dos itens. Durante a operação, foram recolhidos 13 relógios de luxo e cerca de R$ 479 mil em espécie, entre dólares, euros e reais, encontrados em um hotel de Brasília e em um apartamento de Jaques Wagner, em Salvador. A defesa do senador sustenta que parte dos relógios apreendidos são réplicas.

A investigação integra o chamado caso Banco Master e apura suspeitas envolvendo o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo a Polícia Federal, também há indícios relacionados à negociação de um apartamento de luxo avaliado em R$ 2,5 milhões. Jaques Wagner nega qualquer irregularidade e afirma que está tranquilo quanto às investigações, dizendo confiar que conseguirá comprovar sua inocência.

Politica Livre

Polarização vai além da rejeição à política e reflete a disputa do poder no Brasil


Charge do Nani (nanihumor.com)

Deu na CNN

A permanência da polarização política no Brasil não pode ser explicada apenas pelo ambiente de insatisfação da sociedade com a política. Para o cientista político e professor do IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa), Rafael Cortez, é preciso compreender quais interesses políticos, econômicos e sociais são representados pelas forças que hoje disputam espaço no país.

Em participação no WW Especial, da CNN Brasil, Cortez afirmou que há explicações de natureza sociológica para a continuidade desse cenário. Segundo ele, o sentimento de insatisfação com a política não é exclusivo da atual polarização entre lulismo e bolsonarismo. Ele lembrou que esse fenômeno também estava presente durante a disputa entre PT e PSDB.

CONTINUIDADE – “A despeito desse mal-estar, a gente assistia também, por outro caminho, a um certo mal-estar quando a polarização era, por exemplo, PT e PSDB. Ali tinha um pouco mais o contorno do tipo: ‘é tudo igual, não adianta nada votar'”, disse. Para Cortez, esse descontentamento tende a persistir diante das transformações da sociedade e das dificuldades de organização dos partidos políticos.

“Partido político, forças políticas na nossa era, em que a classe já não é mais um ator para sustentar e os partidos específicos brasileiros têm pouca organicidade, tornam pouco provável que a gente chegue a um mundo em que a sociedade brasileira esteja satisfeita com as forças políticas”, explicou.

Apesar desse cenário, o professor avalia que a polarização não representa apenas um ambiente de conflito, mas também interesses concretos em disputa. “O que me parece mais intrigante é entender o que essas forças representam. A despeito desse mal-estar, elas representam forças políticas, interesses econômicos e sociais, representam algum tipo de projeto político. Tem alguma coisa por trás, não é simplesmente um grande caos”, comentou.

NOVO PACTO – Na avaliação de Cortez, a disputa entre lulismo e bolsonarismo deve ser compreendida dentro de um processo político iniciado com a Constituição de 1988. “O que é desafiador para a gente entender é olhar essa polarização entre lulismo e bolsonarismo à luz de um ciclo político um pouco mais longo. A Constituição de 1988 coloca um novo pacto político para a sociedade brasileira, e a elite política vai brigar para ver quem é que vai organizar o pacto que estava definido na Constituição”, destacou.

O cientista político argumentou que, ao longo desse período, o Brasil consolidou importantes avanços institucionais, apesar das crises enfrentadas. “A gente combateu o problema da hiperinflação, fez a transição de governos de esquerda e de direita se alternando no poder sem maiores desafios, passou por dois processos de impeachment sem nenhuma interrupção institucional, nenhum revés institucional, e acabou de passar por uma nova tentativa de algum mal-estar, para usar um eufemismo, com o processo eleitoral [referindo-se aos atos golpistas de janeiro de 2023], e ficamos mais ou menos no lugar”, concluiu.


Inteligência Artificial nas eleições: quando o algoritmo entra na disputa pelo poder

Publicado em 3 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet

Charge do Adão (Canal Um Brasil)

Pedro do Coutto

A inteligência artificial chegou definitivamente às campanhas eleitorais brasileiras. Mas o episódio envolvendo a exibição de um vídeo gerado por IA com a imagem de Jair Bolsonaro durante a convenção do PL demonstrou que o verdadeiro desafio não é tecnológico. É institucional.

A controvérsia, que passou a dividir ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revela que a Justiça Eleitoral entrou em um território onde as fronteiras entre inovação, liberdade política, manipulação da opinião pública e integridade democrática ainda estão longe de ser plenamente definidas.

INTERESSE POLÍTICO – caso expõe uma pergunta muito maior do que a legalidade de um vídeo específico: até onde uma inteligência artificial é apenas uma ferramenta tecnológica e em que momento ela passa a se transformar em um instrumento de engenharia política?

Essa distinção é muito mais complexa do que parece. A inteligência artificial não possui vontade própria, ideologia ou objetivos políticos. Ela responde aos comandos, aos dados e aos interesses de quem a desenvolve ou a utiliza. Em outras palavras, o algoritmo não faz política por iniciativa própria; ele potencializa a estratégia política de seus operadores. A tecnologia pode produzir discursos, criar imagens, simular vozes e reconstruir pessoas com um grau de realismo que desafia a percepção humana. Mas sempre existe alguém escolhendo o que será dito, quando será dito e com qual finalidade.

É justamente aí que reside o dilema enfrentado pelo TSE. As regras eleitorais brasileiras já proibiam manipulações capazes de induzir o eleitor ao erro, mas a velocidade de evolução da inteligência artificial tornou insuficientes conceitos jurídicos elaborados para um ambiente digital muito menos sofisticado. Hoje, não basta apenas perguntar se um conteúdo é falso. É necessário avaliar se ele produz uma percepção artificial da realidade capaz de alterar a formação da vontade do eleitor.

FRAUDE – No episódio da convenção do PL, os defensores do vídeo sustentam que não houve tentativa de enganar o público, uma vez que a própria gravação informava tratar-se de conteúdo produzido por inteligência artificial. Sob essa ótica, haveria transparência suficiente para afastar qualquer fraude.

Já os críticos argumentam que a mera identificação da tecnologia não elimina seu enorme poder persuasivo. Um avatar hiper-realista reproduzindo gestos, voz e expressões de uma liderança política continua exercendo forte influência emocional sobre o eleitor, ainda que todos saibam tratar-se de uma simulação.

Esse debate revela uma mudança importante na natureza da propaganda política. Durante décadas, a preocupação da Justiça Eleitoral concentrou-se na veracidade da informação. Agora, a discussão desloca-se para a autenticidade da própria presença política.

PARTICIPAÇÃO EM CAMPANHAS –  Um candidato poderá aparecer em centenas de eventos simultaneamente sem jamais sair de casa. Líderes impedidos judicialmente de participar da campanha poderão ser reproduzidos digitalmente. Discursos poderão ser personalizados para públicos específicos em escala praticamente ilimitada. A tecnologia altera não apenas a comunicação, mas o próprio conceito de participação política.

Por isso, limitar a discussão ao termo “deepfake” talvez seja insuficiente. Nem todo conteúdo sintético busca necessariamente enganar. Ao mesmo tempo, nem toda utilização transparente da inteligência artificial está isenta de produzir efeitos potencialmente desequilibradores sobre a disputa eleitoral. A questão central deixa de ser apenas a existência da tecnologia e passa a ser o contexto em que ela é utilizada, os interesses que representa e os impactos concretos sobre a igualdade de oportunidades entre os candidatos.

É justamente essa complexidade que explica as divergências dentro do próprio TSE. Uma interpretação excessivamente permissiva pode abrir espaço para campanhas altamente sofisticadas de manipulação emocional, difíceis de serem fiscalizadas. Por outro lado, uma regulamentação demasiadamente rígida corre o risco de restringir formas legítimas de inovação na comunicação política e de gerar insegurança jurídica para partidos e candidatos.

CRITÉRIOS – O desafio brasileiro, portanto, não consiste em proibir a inteligência artificial. Essa seria uma batalha perdida antes mesmo de começar. A tecnologia continuará evoluindo em velocidade muito superior à produção legislativa. O verdadeiro objetivo deve ser construir critérios objetivos capazes de distinguir inovação de manipulação, criatividade de fraude e liberdade de expressão de abuso do poder informacional.

Mais do que fiscalizar algoritmos, será necessário fiscalizar intenções, transparência e responsabilidade. Afinal, a inteligência artificial não vota, não disputa eleições e não possui interesses próprios. Quem disputa o poder continuam sendo pessoas. Os algoritmos apenas ampliam sua capacidade de convencer, influenciar e mobilizar.

NOVO PARADIGMA – As eleições de outubro provavelmente inaugurarão um novo paradigma para a democracia brasileira. O debate já não será apenas sobre fake news ou desinformação, mas sobre como preservar a autenticidade da vontade popular em um ambiente onde a tecnologia consegue reproduzir, com impressionante fidelidade, rostos, vozes, emoções e lideranças políticas.

A inteligência artificial não substitui a política. Mas pode transformar profundamente a forma como ela é praticada. Caberá à Justiça Eleitoral encontrar um ponto de equilíbrio que preserve simultaneamente a liberdade de inovação e a integridade do processo democrático. Esse talvez seja um dos maiores desafios institucionais desde a chegada das redes sociais à arena eleitoral.


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