
Charge do Cláudio (Folha)
Igor Gielow
Folha
Como seria previsível, a estreia dos principais rivais da disputa presidencial no horário eleitoral gratuito de rádio e TV neste sábado (29) trouxe Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) demonstrando cautela.
O mantra do falecido marqueteiro Duda Mendonça (1944-2021), o homem que tornou palatáveis para o eleitor Paulo Maluf e o próprio Lula, sempre assombra a largada das disputas: “Quem bate, perde”.
MODO PAZ E AMOR – A primeira rodada de propagandas trouxe o presidente e o filho do antecessor apenado Jair Bolsonaro em modo paz e amor quase completo, apenas com pitadas ácidas. Foi um aperitivo do que deve vir, tematicamente, em termos de ataques.
O senador fluminense associou Lula à insegurança, enquanto o petista lançou mão da vinheta negativa que circulara na véspera com a ficha de suspeitas sobre Flávio antes de seu programa começar de fato, tática conhecida e eficaz. Na versão noturna da peça, o famoso áudio do candidato do PL com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro foi enfatizado.
Mas o prato principal de ambos foi a agenda positiva. Na falta de experiência administrativa, Flávio se apresentou como homem de família, reduziu a presença do pai a um aposto, e enfatizou a juventude de seus 45 anos ante os 80 do rival. Sem dancinha.
VULNERABILIDADE – Apenas pincelou o que deve ser explorado à frente, como o endividamento de famílias e a crise das empresas. Talvez ciente da própria vulnerabilidade, deixou o caso Lulinha para depois.
Dedicou boa parte de seus 4min20s de tempo para se dirigir às mulheres, em que seu desempenho nas pesquisas é pior, ainda que tenha escorregado ao falar que elas mandam “em casa” —sugerindo o lugar em que elas devem estar.
Lula, por sua vez, fez uma recapitulação de sua trajetória, insinuando temas de propaganda futura, como a defesa da escala 6×1, talvez a única coisa novidadeira que tenha a dizer —se a bagagem de três mandatos lhe traz trunfos, o desgaste e a falta de inovação são evidentes.
ESTADISTA – O presidente surge como um estadista, com direito a imagem apertando a mão do seu malvado favorito, Donald Trump, ao mesmo tempo em que é vendido como o antagonista dos “traidores da pátria” —o clã Bolsonaro, não nomeado.
Como Lula e Flávio têm a rejeição de quase metade do eleitorado cada, eles miram neste momento o eleitor que de fato interessa, o pendular que costuma ser identificado aos 24% que se dizem não alinhados ao lulismo ou ao bolsonarismo, segundo o Datafolha. Afinal, 49% deles dizem que podem mudar de voto.
Essa equação de saída tende a ser substituída ao longo do pleito. Se a aposta de Lula na escala 6×1 vingar, é provável que a positividade ocupe mais espaço do que a agressividade do presidente na embalagem da TV e rádio. Por outro lado, a caixa de ferramentas, como bem deve lembrar a reconvertida Marina Silva acerca de sua experiência em 2014, estará de prontidão em cenário adverso.
ANTIPETISTA – Na rabeira da corrida, os dois outros candidatos com direito a tempo de TV e rádio, Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) fizeram o esperado. O ex-governador de Goiás, com razoáveis 2min02s, conseguiu modular uma cara à sua candidatura. Explicitou-se como antipetista e, ao mesmo tempo, empregou tempo para fazer o que não conseguiu nas entrevistas ao longo da semana: apresentar sua gestão estadual, muito bem avaliada.
Já Cury, com 35s, tentou criar uma imagem calmante, ao estilo autoajuda. Mas o slogan “Não tem cura sem escuta” parece mais adequado para a disputa da presidência da Sociedade Brasileira de Psicanálise.
NÃO DECOLOU – As campanhas voltaram a apostar no horário eleitoral, certo sintoma dos excessos virtuais —com efeito, o candidato mais próximo das redes, Renan Santos (Missão), não decolou até aqui.
Com isso, o cenário único de 2018 não soa reproduzível. Lá, o então tucano Geraldo Alckmin tinha um latifúndio de 5min32s, e acabou em quarto lugar com 4,76% dos votos. Já o então outsider Bolsonaro tinha míseros 8s, abocanhando 46% dos votos primeiro turno e se elegendo no segundo. Após 13 faces na tela em 2018 e 6 em 2022, as 4 de 2026 facilitaram a legibilidade das propagandas —e explicitaram como são quase idênticas.