Publicado em 26 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet
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Empresa protocola pedido de recuperação extrajudicial
Pedro do Coutto
A crise da Braskem chegou a um ponto em que já não pode ser tratada como simples dificuldade de caixa. A maior petroquímica da América Latina apresentou à Justiça de São Paulo um plano de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras. O tamanho da cifra impõe uma pergunta que ultrapassa os balanços da companhia: como uma empresa de importância estratégica para a indústria brasileira chegou a esse nível de endividamento?
A resposta, porém, não está necessariamente em uma sucessão de erros administrativos. A crise resulta de uma combinação mais complexa: um ciclo prolongado de baixa da indústria petroquímica mundial, perda de competitividade, pressão sobre margens, estrutura de capital excessivamente alavancada, problemas societários e de governança e os custos decorrentes do desastre ambiental provocado pela exploração de sal-gema em Maceió.
DIMENSÃO DO PROBLEMA – Os próprios resultados da empresa dimensionam o problema. No quarto trimestre de 2025, a Braskem encerrou o período com dívida bruta corporativa de US$ 9,4 bilhões e alavancagem de 14,74 vezes a relação entre dívida líquida e EBITDA. A companhia reconheceu que atravessava um ciclo prolongado de baixa da indústria global.
O dado mais recente revela um paradoxo. No segundo trimestre de 2026, a Braskem registrou EBITDA de US$ 1,043 bilhão e lucro líquido de US$ 664 milhões, impulsionados pela melhora dos spreads petroquímicos. Ainda assim, a dívida líquida ajustada chegou a US$ 9,5 bilhões e a alavancagem permaneceu em 6,74 vezes. A operação pode melhorar, portanto, sem que a estrutura financeira deixe de ser vulnerável.
É aí que a discussão precisa ser aprofundada. Uma empresa pode apresentar recuperação operacional em determinado trimestre e continuar financeiramente fragilizada. Se a geração de caixa não basta para sustentar juros, vencimentos, investimentos e obrigações extraordinárias, uma melhora pontual dos resultados não resolve o problema estrutural.
DESVANTAGEM – Há ainda uma questão industrial. A petroquímica brasileira enfrenta desvantagem diante de produtores estrangeiros com acesso a matérias-primas mais baratas. Nos Estados Unidos, a abundância de gás natural ampliou a disponibilidade de etano, utilizado na produção de etileno. No Brasil, a dependência da nafta impõe custos maiores. Ao mesmo tempo, a desaceleração chinesa e o excesso de oferta internacional pressionaram as margens. A participação da Braskem no mercado brasileiro também caiu significativamente nos últimos anos.
Isso muda a natureza da pergunta. Não basta saber quem errou dentro da Braskem. É preciso compreender se o modelo industrial sobre o qual a companhia construiu sua posição dominante continua sustentável diante das condições atuais do mercado mundial.
Isso, evidentemente, não absolve a administração. Quanto maior a relevância econômica de uma empresa, maior deveria ser sua capacidade de antecipar riscos, controlar o endividamento e responder a mudanças estruturais. A própria governança da companhia merece escrutínio.
QUALIDADE DA GOVERNANÇA – Em junho de 2026, a CVM divulgou decisões envolvendo termos de compromisso relacionados à divulgação de informações ao mercado sobre negociações envolvendo ativos da Braskem. O episódio não explica, por si só, a atual crise financeira, mas reforça a necessidade de examinar a qualidade da governança corporativa.
Outro ponto incontornável é Maceió. A exploração de sal-gema provocou o deslocamento de milhares de pessoas e deixou um passivo socioambiental de enormes proporções. As vítimas já manifestaram preocupação com a possibilidade de que a reestruturação financeira afete obrigações de reparação. A empresa sustenta que o processo é exclusivamente financeiro e não alcança suas obrigações com outras partes interessadas.
Essa distinção será fundamental. Recuperação extrajudicial não pode significar recuperação seletiva. Uma empresa pode renegociar dívidas financeiras; não pode transformar uma crise de liquidez em mecanismo para enfraquecer responsabilidades sociais, ambientais ou jurídicas.
COMPOSIÇÃO DOS CREDORES – Também chama atenção a composição dos credores. Cerca de 92,4% da dívida incluída na reestruturação está vinculada a credores estrangeiros. O maior credor individual é o Bank of New York Mellon, enquanto investidores internacionais também representam parcela expressiva dos créditos. A crise da Braskem, portanto, está diretamente conectada ao mercado internacional de capitais.
Há ainda uma dimensão política. A Petrobras possui participação relevante na estrutura majoritária da Braskem, junto com a IG4 Capital, controlada e liderada por seu fundador e CEO global, o advogado brasileiro Paulo Todescan Lessa Mattos, e é estruturada globalmente por meio da holding estrangeira IG4 Capital Partners Holding Investments LP. A estatal afirma que qualquer decisão sobre aumento de participação ou eventual operação envolvendo a petroquímica dependerá de estudos técnicos e dos mecanismos internos de governança.
É nesse ponto que a crise empresarial se transforma em questão de política industrial. A Braskem não é uma companhia qualquer. Sua produção está integrada a diversas cadeias industriais brasileiras, e sua situação pode afetar fornecedores, trabalhadores, bancos e setores consumidores de insumos petroquímicos.
COMPETITIVIDADE – Por isso, a solução não pode ser reduzida à pergunta sobre quem colocará dinheiro na empresa. É preciso saber que estrutura de capital, governança e estratégia industrial permitirão à Braskem recuperar competitividade sem simplesmente transferir o custo da crise para credores, acionistas, trabalhadores ou Estado.
O plano apresentado prevê a possibilidade de capitalização de parte da dívida e eventual suporte de liquidez dos principais acionistas. A adesão inicial, contudo, estava em 39,6% dos créditos abrangidos, e a empresa terá 90 dias para alcançar o apoio necessário. Sem acordo, a recuperação judicial poderá entrar no horizonte.
A recuperação extrajudicial pode reorganizar vencimentos e dar tempo para a companhia respirar. Mas não elimina uma estrutura de dívida excessiva nem resolve, por si só, os problemas de competitividade e governança.
ACÚMULO DE SINAIS – Por isso, a pergunta decisiva não é apenas como a Braskem chegou a US$ 10,9 bilhões em dívidas. É por que tantos sinais de deterioração puderam se acumular até que a renegociação se tornasse inevitável.
Será necessária uma investigação econômica profunda da trajetória do endividamento, das decisões de investimento, da política de capital, da evolução das margens, dos passivos de Maceió, da estrutura societária e das escolhas administrativas diante das transformações do mercado internacional.
A Braskem pode sair da crise. Mas não apenas com boa vontade entre credores e devedores. Será necessário capital, governança, transparência, disciplina financeira e uma estratégia industrial compatível com um mercado mundial muito diferente daquele em que a empresa consolidou sua posição.
INSUSTENTABILIDADE – A dívida é assustadora. Mais preocupante é que uma companhia estratégica tenha chegado a esse ponto depois de anos dispondo de informações suficientes para perceber que sua estrutura financeira estava se tornando insustentável.
A recuperação extrajudicial pode comprar tempo. A verdadeira questão é se a Braskem conseguirá transformar esse tempo em recuperação — e impedir que a crise de uma das maiores companhias industriais do continente se converta em mais uma perda de capacidade produtiva, tecnológica e estratégica do Brasil.