Cunha busca refúgio em Minas após fracasso em SP
Filipe Vidon
Guilherme Queiroz
O Globo
Cassado pela Câmara dos Deputados em 2016 e fora de mandato eletivo desde então, o ex-presidente da Casa Eduardo Cunha (Republicanos) buscará o retorno ao Congresso em outubro. Desta vez, ele não tentará pelo Rio de Janeiro, estado que o elegeu desde 2002. Ele concorrerá a deputado federal por Minas Gerais, terceiro estado diferente em que disputa uma vaga, depois de uma tentativa frustrada em São Paulo, em 2022, na época filiado ao PTB.
Cunha integra um grupo de ao menos 132 candidatos que trocaram de estado para a corrida eleitoral deste ano, segundo levantamento do O Globo a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A base reúne postulantes que já disputaram cargos em unidades da federação diferentes daquela em que estão registrados para 2026 — e mostra que a migração raramente é só geográfica: 117 desses nomes também deixaram a antiga legenda partidária ao trocar de endereço eleitoral. A sigla que mais atraiu esses “migrantes” neste ano foi o Republicanos (15), seguido pelo PL (9).
DISPUTA – Entre os cargos disputados por esse grupo em 2026, a Câmara dos Deputados concentra mais da metade das candidaturas (62), seguida por vagas de deputado estadual (38) e deputado distrital (9). Dezoito nomes miram disputas majoritárias — oito para o Senado, sete para o governo estadual e três para vice-governo —, postos em que o enraizamento territorial costuma pesar mais na urna.
São Paulo aparece como o principal destino dos migrantes políticos, com pelo menos 22 candidatos que chegam ao estado vindos de outras unidades da federação, à frente de Distrito Federal (15) e Goiás (11). O DF, porém, também é a maior origem, com 18 nomes que deixaram a capital para tentar a eleição em outros estados.
NA LISTA – Além de Cunha, outros três nomes de projeção nacional aparecem na lista de mudanças. Jean Wyllys, que deixou o país em 2019 sob ameaças de morte após o assassinato da vereadora Marielle Franco, volta à disputa eleitoral. Depois de três mandatos pelo PSOL no Rio de Janeiro, ele agora tentará uma vaga de deputado federal por São Paulo, filiado ao PT.
O humorista Tiririca faz o caminho inverso ao de Cunha. Eleito por São Paulo em 2010 com a maior votação já registrada para deputado federal no país, viu o número de votos cair nos pleitos seguintes. Para tentar contornar o desgaste, o parlamentar trocou o PL pelo PSD e concorrerá, enfim, por seu estado natal, o Ceará. Nas redes sociais, chegou a dizer que estava “de volta para a minha terra”.
Já a deputada Rosângela Moro (PL) deixa São Paulo, onde se elegeu em 2022 em meio a questionamentos sobre a validade de seu domicílio eleitoral, para tentar a reeleição pelo Paraná. O movimento acompanha as movimentações políticas do marido, o senador Sergio Moro (PL).
DE FORA DO ESTADO – Entre os nomes menos conhecidos do público, dois casos chamam a atenção pela estratégia. O PSTU montou a chapa ao governo de São Paulo com duas candidatas de fora do estado. Vera Lúcia — candidata do partido à Presidência em 2018 e 2022, mas que historicamente construiu a carreira em eleições por Sergipe — será a cabeça de chapa, enquanto Renata França, vinda de Minas Gerais, concorre como vice.
Também se destaca o histórico do Major Fábio Rodrigues de Oliveira (Novo), que tenta o Senado pela Paraíba. O levantamento do TSE mostra que ele passou por seis partidos diferentes em seis eleições consecutivas — começou concorrendo por Pernambuco pelo PMN em 2002, antes de migrar para o estado vizinho, onde rodou por legendas como DEM, PROS, PP e PRTB.
O levantamento cruzou o número de CPF de cada candidato nas bases de candidaturas do TSE entre 2002 e 2026. A base de candidatos migrantes usada nesta reportagem é parcial e pode ser ampliada até o fechamento do texto.