Publicado em 20 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet
PF apura elo entre lobista, Lulinha e Marcola
Pedro do Coutto
A investigação da Polícia Federal sobre as relações de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, com empresários e lobistas ligados ao escândalo dos descontos fraudulentos do INSS começa a adquirir uma dimensão política difícil de ser contida pelo Palácio do Planalto. Não porque exista, até aqui, uma condenação ou uma prova definitiva de crime por parte do filho do presidente, mas porque o conjunto de relações revelado pela investigação aproxima personagens privados de áreas sensíveis do governo e cria uma pergunta que, em ano eleitoral, tem enorme potencial de desgaste: quem tinha acesso a quem em Brasília e para defender quais interesses?
A revelação mais recente é particularmente incômoda. Segundo informações publicadas por O Globo e confirmadas pela Folha de S.Paulo, a Polícia Federal encontrou no celular da empresária Roberta Luchsinger uma mensagem enviada a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que foi chefe de gabinete de Lula até julho deste ano. O conteúdo era uma minuta de contrato para a venda, ao Ministério da Saúde, de medicamentos à base de canabidiol, com previsão de dispensa de licitação. Marcola confirmou ter recebido o documento, mas afirmou que não o encaminhou a ninguém e classificou o recebimento como inadequado. A negociação, segundo as informações disponíveis, não avançou.
CONEXÕES – É justamente aí que está o ponto politicamente mais sensível. Uma minuta não é um contrato, uma conversa não é uma condenação e uma tentativa de negócio que não prosperou não pode ser apresentada como corrupção consumada. Mas, em uma investigação criminal, o valor de um elemento não está necessariamente em provar sozinho um delito. Está também na possibilidade de estabelecer conexões, reconstruir relações e compreender como determinadas pessoas circulavam entre interesses privados e estruturas do Estado.
E as conexões, neste caso, são numerosas. Roberta Luchsinger é amiga de Lulinha e já admitiu à Polícia Federal que apresentou o filho do presidente ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o chamado Careca do INSS. Ela também confirmou ter prestado serviços relacionados à regulação do mercado de canabidiol para Antunes, embora negue ter conhecimento de suas supostas atividades ilícitas e rejeite qualquer repasse de dinheiro a Lulinha. Em depoimento, afirmou ainda que a viagem de Lulinha a Portugal com Antunes teve caráter de prospecção de negócios e que ele teria sido convidado por interesse no mercado de medicamentos à base de canabidiol.
A defesa de Lulinha, por sua vez, sustenta que ele não participou de negociações, não recebeu valores e não teve envolvimento ilegal nos negócios relacionados à cannabis medicinal. Também reconheceu que o Careca do INSS custeou a viagem a Portugal, mas afirmou que se tratou de um convite sem compromisso comercial.
ENTORNO INSTITUCIONAL – O problema político para Lula é que a investigação não permanece restrita à vida privada de seu filho. Ela começa a tocar o entorno institucional do presidente. Marcola não era um funcionário qualquer. Chefiou o Gabinete Pessoal de Lula durante anos e esteve entre os auxiliares mais próximos do presidente. Em agosto, já havia vindo a público que ele recebeu de Roberta uma quantia que descreveu como empréstimo pessoal, posteriormente quitado. O próprio Marcola informou que o valor corrigido chegou a R$ 249 mil e negou qualquer relação ilícita entre a operação e suas funções no governo.
Agora aparece outro elemento: a mesma empresária teria enviado a esse ex-integrante do núcleo presidencial uma minuta destinada ao Ministério da Saúde. Pode ser apenas uma coincidência administrativa? É uma hipótese que precisa ser considerada. Pode também haver uma explicação legítima para o contato? Naturalmente.
RELAÇÕES PESSOAIS – O Estado recebe diariamente propostas de empresas e intermediários interessados em vender produtos e serviços ao governo. O ponto é que, quando o remetente está sob investigação, mantém relações pessoais com o filho do presidente, possui vínculos com um empresário acusado de ocupar posição central no escândalo do INSS e envia justamente a um ex-chefe de gabinete presidencial um documento destinado a um ministério estratégico, a coincidência deixa de ser politicamente irrelevante.
A investigação autorizada pelo Supremo Tribunal Federal busca justamente esclarecer se houve tráfico de influência ou corrupção em operações envolvendo a comercialização de cannabis medicinal e o acesso ao Ministério da Saúde. A PF suspeita que Lulinha possa ter atuado, junto com Roberta, em favor de interesses ligados a Antunes. Essas suspeitas ainda precisam ser comprovadas e os investigados negam irregularidades.
É importante preservar essa distinção. O debate político não pode substituir a investigação policial, assim como uma investigação não pode ser transformada automaticamente em sentença. O Brasil já pagou caro demais pela transformação de suspeitas em certezas antes da conclusão dos processos. Mas também seria um erro tratar o caso como mera exploração eleitoral.
SÍMBOLO DE NARRATIVA – A oposição certamente fará isso. E Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, tem diante de si uma oportunidade óbvia para tentar transformar o caso em símbolo de uma narrativa mais ampla: a de que o governo Lula teria permitido a aproximação entre interesses privados, familiares e estruturas do Estado. A campanha já começou a explorar politicamente as investigações envolvendo Lulinha e procura aproximar o nome do presidente do escândalo do INSS.
A questão, entretanto, é mais profunda do que a propaganda eleitoral. O escândalo do INSS atingiu milhões de aposentados e pensionistas por meio de descontos associativos fraudulentos. Quando a investigação começa a revelar que pessoas relacionadas a um dos principais operadores suspeitos desse esquema mantinham contatos com o filho do presidente e com integrantes do núcleo político do governo, a preocupação deixa de ser apenas familiar. Passa a ser institucional.
É essa dimensão que Lula precisa enfrentar. O presidente afirmou anteriormente que seu filho não estaria acima da investigação e que não usaria o poder presidencial para protegê-lo. Essa é, institucionalmente, a posição correta. O desafio agora é transformar a declaração em prática política inequívoca: nenhum acesso privilegiado, nenhum atalho burocrático, nenhuma proteção informal e nenhuma tentativa de desqualificar antecipadamente o trabalho da Polícia Federal.
CIRCULAÇÃO – O governo também precisa responder a outra questão incômoda: como pessoas ligadas ao caso conseguiram circular por diferentes espaços da administração federal? Segundo informações reunidas nas investigações, Roberta esteve dezenas de vezes em órgãos do governo fora de agendas oficiais, enquanto Antunes também manteve contatos com o Ministério da Saúde. A própria PF investiga se o prestígio decorrente da proximidade com o filho do presidente foi utilizado para facilitar acessos institucionais.
Esse é o verdadeiro problema político de Lula. Não é o fato de ter um filho adulto que mantém relações empresariais. Presidentes não controlam a vida privada de seus familiares. O problema surge quando relações privadas começam a se cruzar, de maneira recorrente, com funcionários públicos, ministérios, contratos, interesses empresariais e pessoas investigadas por um dos maiores escândalos de corrupção da Previdência dos últimos anos.
É nesse cruzamento que a explicação política precisa ser muito mais rigorosa do que a defesa automática. O Palácio do Planalto não pode responder à sucessão de revelações apenas dizendo que não há prova de que Lula tenha participado de qualquer irregularidade.
INTERESSES PARTICULARES – Essa afirmação pode ser juridicamente correta e politicamente insuficiente. A pergunta que o eleitor fará em 2026 não será necessariamente se Lula recebeu dinheiro ou participou de um negócio. Será se seu governo foi capaz de impedir que a proximidade com a família presidencial se transformasse em uma porta de entrada para interesses particulares. A diferença é enorme.
O episódio da minuta de canabidiol torna essa pergunta ainda mais difícil porque envolve justamente alguém que ocupava a chefia do gabinete presidencial. Mesmo que Marcola esteja correto ao afirmar que não deu prosseguimento ao documento, o simples fato de uma empresária investigada ter enviado a ele uma proposta comercial destinada ao Ministério da Saúde precisa ser explicado com precisão. Quem pediu? Por que foi enviada? O que se pretendia obter? Quem apresentou quem? Houve reuniões? Quem participou? Houve alguma intervenção posterior? Por que determinadas pessoas estavam tentando chegar a determinados setores do governo?
São perguntas objetivas. E respostas objetivas são o melhor antídoto contra a exploração política do caso. A oposição tentará transformar cada fragmento da investigação em prova definitiva. O governo cometerá um erro se responder fazendo o movimento inverso, tratando cada fragmento como irrelevante antes que a investigação termine.
TRANSPARÊNCIA – Entre a condenação antecipada e a blindagem política existe o caminho que uma democracia deveria seguir: investigação independente, contraditório, transparência e responsabilização individual quando houver prova.
Lula tem uma razão adicional para levar o assunto a sério. O presidente disputa a reeleição em um ambiente no qual a economia, a segurança, a corrupção e a percepção sobre a capacidade de governar estarão inevitavelmente misturadas à avaliação de seu legado.
O escândalo do INSS já atingiu um dos grupos mais vulneráveis da população. Se a investigação continuar aproximando o caso de pessoas que circulam no entorno presidencial, a narrativa deixará de ser apenas sobre fraudes praticadas contra aposentados e passará a ser também sobre a permeabilidade do poder. E essa é uma narrativa eleitoralmente poderosa.
EXPLICAÇÕES – A tempestade, portanto, não está necessariamente nas acusações contra Lulinha — que ainda precisam ser comprovadas. Ela está no acúmulo de conexões que a investigação vem revelando. Roberta, Antunes, Lulinha, Marcola, Ministério da Saúde, contratos de canabidiol, relações pessoais, movimentações financeiras e acessos ao governo formam um emaranhado que o Planalto terá de explicar sem retórica e sem atalhos.
Em política, às vezes o dano não nasce de uma prova definitiva. Nasce da dificuldade de oferecer uma explicação convincente para uma sequência de fatos que, isoladamente, podem parecer circunstanciais, mas que, juntos, começam a formar uma história. É essa história que Lula terá de enfrentar.
E, à medida que a eleição se aproxima, talvez a maior ameaça ao Planalto não esteja no que a oposição disser sobre as investigações, mas no que as próprias investigações ainda possam revelar.