domingo, agosto 30, 2026

DO SANEAMENTO À CLIMATOLOGIA: A Solução Inusitada do Candidato Flávio Bolsonaro para o Aquecimento Global


DO SANEAMENTO À CLIMATOLOGIA: A Solução Inusitada do Candidato Flávio Bolsonaro para o Aquecimento Global



Por José Montalvão


Na condição de observador da política nacional e graduado em Gestão Pública, acompanho com atenção o debate eleitoral nas emissoras de grande alcance. Na recente entrevista concedida à Rede Globo, o candidato à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro, brindou a audiência e a comunidade científica com uma tese surpreendente: a de que o investimento em saneamento básico e o correto canalizamento do esgoto seriam a chave central para enfrentar as mudanças climáticas e conter o aquecimento global.

Frente a uma crise ambiental planetária que mobiliza os maiores centros de pesquisa do mundo, a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a proposta soou para muitos analistas — e para a própria audiência — como uma verdadeira pérola da ingenuidade teórica, se não uma total confusão de conceitos de gestão pública.

Saneamento Básico vs. Mudanças Climáticas: Misturando Alhos com Bugalhos

É preciso estabelecer uma distinção clara entre dois problemas fundamentais da gestão pública, que possuem naturezas, causas e soluções completamente distintas:

  1. A Importância Real do Saneamento Básico: Ninguém em sã consciência nega que o saneamento básico — rede de água tratada, coleta e tratamento de esgoto, e manejo de resíduos sólidos — é vital para a saúde pública. Tratar o esgoto reduz a mortalidade infantil, previne doenças endêmicas (como cólera, hepatite e dengue) e evita a contaminação dos rios e lençóis freáticos. Trata-se de uma obrigação primária de infraestrutura e dignidade humana;

  2. A Complexidade do Aquecimento Global: O aquecimento global é provocado pelo efeito estufa decorrente da emissão massiva de gases dióxido de carbono ($CO_2$), metano ($CH_4$) e óxido nitroso ($N_2O$). Suas causas estão ligadas à queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás), ao desmatamento desenfreado e à matriz energética poluidora global.

Afirmar que "canalizar o esgoto vai esfriar o planeta" ou resolver os eventos climáticos extremos é confundir a despoluição de um rio local com o equilíbrio térmico da atmosfera terrestre. Embora o esgoto sem tratamento produza gás metano, a solução para a crise climática passa por transição energética, energia limpa, reflorestamento e metas rigorosas de descarbonização — pautas de geopolítica avançada que vão muito além de enterrar manilhas na rua.

A Falta de Estofo Técnico no Debate Executivo

O episódio na entrevista da Globo expõe uma fragilidade recorrente nos debates presidenciais: a apresentação de soluções simplistas para problemas de altíssima complexidade.

Para a população brasileira — que sofre com secas severas no sertão, enchentes devastadoras nas áreas urbanas e picos de calor históricos —, ver um candidato a chefe do Executivo Federal tratar o aquecimento global com esse nível de reducionismo é preocupante. O Brasil tem papel estratégico na agenda ambiental do planeta pela extensão da Amazônia, pelo potencial de energia solar e eólica e pela sua biodiversidade. Relegar a política climática de uma potência ambiental ao recolhimento de efluentes demonstra desconhecimento das pautas globais do século XXI.

Conclusão: O Brasil Precisa de Soluções Reais, Não de Slogans

Investir em saneamento básico é urgente e necessário para garantir saúde e dignidade ao povo brasileiro. No entanto, vender o saneamento como o "remédio para o aquecimento global" em rede nacional é tentar enganar o eleitor com metáforas sem respaldo científico.

O eleitor brasileiro precisa de candidatos preparados, que estudem a máquina pública com profundidade e apresentem propostas embasadas em dados, ciência e viabilidade técnica. O futuro do nosso país e o respeito à inteligência do cidadão exigem muito mais do que frases de efeito improvisadas em estúdios de televisão!

José Montalvão

Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI - Registro C-002025).

Blog de Dede Montalvão: Analisando as propostas presidenciais com rigor técnico, combatendo desinformações e cobrando preparo dos candidatos!

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