
Charge do Nando Motta (Brasil 247)
Rafael Moraes Moura
O Globo
Na mira do Supremo Tribunal Federal (STF), os gastos com a produção do longa-metragem “Dark Horse” nos Estados Unidos foram mais do que o dobro do que o que foi desembolsado no Brasil. É o que afirma uma perícia contratada pela produtora Go Up Entertainment, responsável pelo polêmico filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A perícia privada foi encomendada pela Go Up, da jornalista Karina Gama, que nunca lançou nenhum filme nos cinemas brasileiros. O documento foi anexado aos autos da investigação criminal que estava sendo conduzida pela Polícia Civil de São Paulo – e que vai ser compartilhada com o STF por decisão do ministro Flávio Dino.
R$ 20,93 MILHÕES – De acordo com o documento, elaborado em junho deste ano pelo presidente do Instituto de Perícia Investigativa (IPI), Anísio Costa Castelo Branco, a produção de “Dark Horse” no Brasil, onde o longa-metragem foi filmado, totalizou US$ 3,73 milhões. É o equivalente a aproximadamente R$ 20,93 milhões, considerando a taxa de conversão da época.
Já os custos com a produção do longa-metragem nos Estados Unidos somaram bem mais: US$ 9,66 milhões (R$ 54,25 milhões). Ou seja, o custo total de “Dark Horse” teria sido de US$ 13,39 milhões. Na prática, isso significa que 72% dos gastos com o filme não foram feitos no Brasil, e sim nos Estados Unidos.
Segundo a perícia, os gastos nos Estados Unidos incluem não apenas a pré-produção (US$ 2,66 milhões) e a pós-produção do filme (US$ 1,96 milhão), mas também a produção e a filmagem de cenas (US$ 1,97 milhão), além de despesas com o desenvolvimento do projeto (US$ 383,2 mil) e a fase chamada de “soft production” (US$ 2,69 milhões), focada em questões logísticas e administrativas, anterior à pré-produção.
CRISE NA CAMPANHA – A perícia diz que teve acesso a extratos bancários e ao detalhamento dessas despesas, mas esses documentos não foram anexados. “Dark Horse” abriu uma crise na campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República após virem à tona mensagens do senador cobrando dinheiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, supostamente para o financiamento da produção.
Uma das linhas de investigação da PF é saber se os milhões de reais despejados por Vorcaro foram usados para bancar as despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) durante o autoexílio nos Estados Unidos.
“A prestação de contas foi feita dentro da investigação que está acontecendo em São Paulo e a própria imprensa vazou. Da minha parte eu digo, não sou eu que tenho que prestar conta, é o Lula, porque fez reuniãozinha escondida com Augusto Lima e o Vorcaro”, disse Flávio nesta terça-feira, se equivando do assunto, após ele mesmo ter prometido apresentar as contas do filme quando o caso veio à tona.
JUSTIFICATIVA – De acordo com aliados de Flávio, os valores seriam mais elevados nos EUA porque envolveriam o cachê do elenco internacional, encabeçado pelo ator norte-americano Jim Caviezel no papel do ex-presidente.
Conforme informou O Globo, a perícia não mapeou a origem dos recursos repassados pelo fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos, para financiar o longa-metragem. Castelo Branco alegou que “essas informações estão protegidas por cláusulas contratuais de confidencialidade e, em alguns casos, por sigilo bancário”.
OBRA ESTRANGEIRA – Em 22 de junho, a Europa Filmes apresentou o pedido de Registro de Obra Estrangeira (ROE) para “Dark Horse”, já esclarecendo, portanto, que não se trata de um filme nacional. A notícia veio à tona após uma proposta para lançar o filme no Brasil ter sido recusada pela Paris Filmes, uma das maiores distribuidoras nacionais, com um catálogo que inclui as franquias “Crepúsculo” e “Jogos Vorazes”.
No último dia 7, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) aceitou o registro de obra estrangeira de “Dark Horse”. Este é o primeiro passo para o lançamento do filme, que ainda precisa cumprir outras etapas burocráticas para ser exibido nos cinemas, como obter aval da Ancine para exploração comercial e ainda ganhar uma classificação indicativa do Ministério da Justiça.
FILMAGEM IRREGULAR – Em 28 de julho, a Ancine abriu um processo administrativo e autuou a produtora Go Up Entertainment por irregularidades na gravação do filme, o que deve constar na resposta que está sendo elaborada para a PF.
O auto de infração, emitido pela Superintendência de Fiscalização e Combate à Pirataria, informa a conduta que levou à intervenção da agência: “produzir no Brasil a obra cinematográfica estrangeira Dark Horse sem comunicar o fato à Ancine.”
Segundo as regras da agência, a filmagem de uma produção internacional no Brasil deve ser feita sob a responsabilidade de empresa registrada na própria Ancine, que além de comunicar sobre a obra tem que apresentar uma série de documentos, como cópia do contrato, plano de filmagem e passaporte de cada profissional estrangeiro contratado. Nada disso, no entanto, foi feito pela produtora no caso de “Dark Horse”. Na prática, com a autuação da Go Up, a Ancine sinaliza a aplicação futura de uma multa que varia entre R$ 2 mil e R$ 100 mil.
INTERROGAÇÕES – Não apenas a filmagem e o financiamento de “Dark Horse” são cercados de interrogações. Proprietária da Go Up Entertainment, a jornalista Karina Ferreira da Gama, nunca lançou nenhum filme, nem no Brasil e nem no exterior.
Karina entrou no projeto do filme pelas mãos do deputado federal Mário Frias (PL-SP), que assina o roteiro de “Dark Horse”. A jornalista também preside o Instituto Conhecer Brasil, que entrou na mira do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo repasse de R$ 2 milhões em emendas enviadas pelo deputado para a produção de filmes. O instituto tem registro na Ancine desde 2020 mas também nunca lançou um filme nem no Brasil nem no exterior.
O filme se tornou munição para aliados de Lula – e virou uma dor de cabeça para a campanha do senador bolsonarista, respingando no seu desempenho nas pesquisas de opinião, antes de surgirem as mais recentes revelações de que o líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), teria recebido um imóvel de R$ 2,45 milhões em Salvador como propina do Master.
CAPTAÇÃO – Após uma série de reportagens do Intercept Brasil, Flávio reconheceu ter captado R$ 61 milhões de Vorcaro, pagos por meio de uma empresa ligada a ele a um fundo administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.
Nenhum deles explicou por que era necessária a intermediação do fundo, o que levantou a suspeita de que o dinheiro na verdade estivesse sendo usado para financiar o autoexílio do filho 03 nos Estados Unidos.