Publicado em 25 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet
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BC avalia mudanças para ampliar segurança do sistema
Pedro do Coutto
O Pix tornou-se uma das maiores transformações da vida financeira brasileira justamente porque eliminou a espera. Dinheiro que antes dependia de horário bancário, compensação e dias úteis passou a circular em segundos, a qualquer hora e em qualquer dia da semana. Essa revolução, porém, produziu uma contradição que o Banco Central agora precisa enfrentar: quanto mais eficiente é o sistema para o cidadão, mais atraente ele se torna para quem vive de explorar suas vulnerabilidades.
É nesse contexto que o Banco Central avalia endurecer os mecanismos de segurança para transações de alto valor realizadas durante a madrugada. A proposta, ainda em discussão e sem definição sobre os valores ou os horários que acionariam a regra, prevê que determinadas operações possam permanecer sob análise por até 72 horas. A ideia é criar uma janela para que bancos e instituições de pagamento identifiquem comportamentos suspeitos antes que o dinheiro seja pulverizado, transferido novamente ou retirado do alcance das vítimas e das autoridades.
CREDIBILIDADE – Não se trata, portanto, de colocar o Pix em xeque. Trata-se do contrário: preservar a confiança em uma infraestrutura que se tornou essencial para a economia brasileira. O Banco Central já dispõe de mecanismos como o bloqueio cautelar, a marcação de fraude e o Mecanismo Especial de Devolução (MED). Em situações de suspeita, recursos podem ser bloqueados cautelarmente por até 72 horas para permitir uma investigação mais cuidadosa. A novidade em discussão aponta para uma ampliação da capacidade preventiva, sobretudo em operações que, pelo horário, pelo valor ou pelo comportamento do usuário, apresentem sinais de risco.
A preocupação não é exagerada. O próprio Banco Central mantém uma base específica de estatísticas sobre fraudes no Pix, alimentada com informações das instituições participantes. E os números precisam ser lidos com cuidado: uma contestação não significa necessariamente que uma fraude tenha sido comprovada. Mas o volume de operações questionadas revela a dimensão do problema e mostra por que o combate aos crimes financeiros digitais deixou de ser apenas uma questão de segurança bancária para se transformar em tema de segurança pública.
Há uma mudança importante na natureza dos golpes. O fraudador contemporâneo não precisa necessariamente invadir um sistema bancário. Muitas vezes, basta manipular uma pessoa, explorar uma conta vulnerável, utilizar uma conta de passagem ou movimentar rapidamente o dinheiro depois que ele entra. Em casos mais graves, o Pix também pode ser utilizado em transferências realizadas sob coação, inclusive em crimes como sequestros-relâmpagos. A instantaneidade, que é a principal virtude do sistema, transforma-se nesses casos em uma vantagem operacional para o criminoso.
FORA DO PADRÃO – É justamente aí que a proposta das 72 horas ganha relevância. O objetivo não é transformar todo Pix noturno em uma espécie de operação bancária tradicional, submetida a uma burocracia que destruiria a principal vantagem do sistema. O desafio é muito mais sofisticado: identificar quais operações fogem do padrão daquele usuário e merecem uma segunda camada de análise. O próprio desenho atual do Pix já prevê tempo adicional para autorização de transações suspeitas e mecanismos de bloqueio cautelar.
O ponto delicado será estabelecer os critérios. Se forem excessivamente amplos, a proteção poderá se transformar em inconveniência para milhões de usuários. Se forem estreitos demais, os criminosos simplesmente migrarão para os caminhos que permanecerem abertos. É uma disputa permanente entre tecnologia e adaptação criminosa. Cada nova barreira criada pelo regulador produz, inevitavelmente, uma nova tentativa de contorná-la.
Essa é uma das razões pelas quais o Banco Central também precisa olhar para além da transação imediata. Um dos problemas mais sensíveis está nos intermediários do comércio digital. Quando um consumidor paga por um produto em um marketplace, por exemplo, a instituição financeira pode enxergar a conta recebedora vinculada à plataforma, mas nem sempre dispõe, no mesmo nível de detalhe, da identificação do destinatário econômico final. Isso cria uma zona de opacidade que pode ser explorada para ocultação de recursos, circulação de dinheiro ilícito e lavagem de capitais.
RASTREABILIDADE – A discussão, portanto, não deveria ser reduzida a “segurar o Pix por três dias”. Essa interpretação seria simplista e poderia alimentar uma reação equivocada contra o próprio sistema. O debate real é sobre rastreabilidade, inteligência financeira e responsabilidade dos intermediários. O dinheiro pode continuar circulando rapidamente, mas as instituições precisam ser capazes de acompanhar com a mesma velocidade o caminho percorrido por ele quando surgem sinais de fraude.
O Banco Central já reconhece a importância dessa rastreabilidade. Segundo a própria autoridade, as operações do Pix são rastreáveis e permitem identificar contas envolvidas em fraudes, facilitando a atuação das polícias e do Judiciário. O sistema também compartilha informações sobre chaves, contas e usuários associados a suspeitas de fraude. O desafio agora é fazer com que essa capacidade de rastreamento produza resultados antes que o dinheiro desapareça em uma cadeia de novas transferências.
Há ainda uma lição política nessa discussão. Durante anos, a digitalização dos serviços financeiros foi apresentada principalmente como uma questão de eficiência, inclusão e redução de custos. Tudo isso continua verdadeiro. Mas a economia digital também criou uma nova superfície para a criminalidade. A política pública que ignora essa dimensão chega sempre atrasada. Segurança financeira, hoje, não pode ser tratada como um departamento técnico isolado dentro dos bancos ou do Banco Central. Ela precisa envolver reguladores, instituições financeiras, empresas de tecnologia, plataformas de comércio eletrônico, polícias e Judiciário.
ALTERAÇÃO DE REGRAS – O próprio BC vem ampliando esse arcabouço. Em agosto de 2026, publicou a Resolução BCB nº 584, que altera regras e procedimentos de prevenção a fraudes aplicáveis às instituições financeiras e de pagamento. Isso mostra que o endurecimento não é uma reação pontual a um determinado golpe, mas parte de uma transformação mais ampla do modelo de supervisão.
O episódio de instabilidade do Pix registrado em 23 de agosto também reforça, por outro caminho, a importância da confiança no sistema. O serviço apresentou problemas durante a manhã, mas o Banco Central informou que investigava as causas e descartou ataque cibernético, vazamento de dados ou desvio de recursos. Em uma infraestrutura utilizada em escala nacional, uma falha técnica, uma fraude de grande proporção ou um ataque efetivamente criminoso produzem efeitos que ultrapassam a relação entre cliente e banco. Podem atingir a própria confiança na infraestrutura financeira do país.
O desafio do Banco Central, portanto, é encontrar o equilíbrio que parece simples no papel e é extremamente difícil na prática: preservar a velocidade do Pix sem permitir que a velocidade se transforme em salvo-conduto para o crime. Uma operação legítima de madrugada não pode ser tratada como suspeita apenas porque aconteceu de madrugada. Ao mesmo tempo, uma transferência atípica, de alto valor, incompatível com o comportamento histórico do cliente e destinada a uma conta de risco não pode ser processada com a mesma ingenuidade de uma compra cotidiana.
VULNERABILIDADE – A discussão sobre as 72 horas é, nesse sentido, muito maior do que uma mudança operacional. Ela revela uma etapa inevitável da maturidade do Pix. A primeira fase foi criar um sistema rápido, barato e universal. A segunda é torná-lo suficientemente inteligente para distinguir conveniência de vulnerabilidade.
O criminoso digital não precisa vencer o sistema inteiro. Basta encontrar uma porta aberta. Por isso, a resposta também não pode depender de uma única trava. O Banco Central terá de fechar várias portas simultaneamente: aprimorar a análise de risco, ampliar o compartilhamento de informações, aumentar a responsabilidade dos intermediários, melhorar a identificação do destinatário final e tornar a reação à fraude cada vez mais rápida.
A pior solução seria desacelerar indiscriminadamente o Pix. A melhor é torná-lo mais seletivo: rápido para quem transaciona dentro do padrão esperado e cauteloso quando os sinais apontarem para uma operação potencialmente criminosa. É nessa diferença — entre velocidade cega e velocidade inteligente — que estará a próxima batalha pela segurança do sistema que mudou a forma como o brasileiro movimenta seu dinheiro.