Lula defendeu sistema eleitoral brasileiro durante conversa com Trump
Diálogo teria sido curto, no começo de uma ligação de mais de uma hora
Por Caio Spechoto/Isabella Menon/Folhapress
21/08/2026 às 18:35
Foto: Ricardo Stuckert/PR/Arquivo
O presidente Lula (PT) cumprimenta o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca
A conversa entre os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e dos Estados Unidos, Donald Trump, incluiu um rápido diálogo sobre a eleição brasileira. O petista defendeu o sistema eleitoral do país. Uma das principais preocupações de Lula e de seu grupo político é com a possibilidade de interferência americana nas eleições em que o atual presidente concorrerá a um novo mandato.
Os dois governantes falaram por telefone na manhã desta sexta-feira (21) por uma hora e 20 minutos, de acordo com a nota divulgada pelo Palácio do Planalto.
Até a publicação desta reportagem, nem Trump e nem a Casa Branca detalharam a ligação. Ao jornal Folha de São Paulo, uma autoridade do governo americano apenas confirmou que o telefonema aconteceu sem mais detalhes.
De acordo com o relato obtido pela reportagem, Trump mencionou a eleição brasileira no início da conversa, em um momento mais informal. Lula disse que está tudo correndo bem, que a campanha começou recentemente e que o sistema eleitoral brasileiro é confiável.
O governo brasileiro divulgou uma nota oficial sobre o telefonema. De acordo com o documento, os dois presidentes falaram sobre o tarifaço imposto pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros, sobre o combate ao crime organizado e sobre os principais conflitos globais. "A ligação transcorreu em tom amistoso e cordial", afirmou o governo brasileiro.
Segundo a nota divulgada pelo Planalto, houve um indicativo de reabertura de negociações sobre as tarifas. "O presidente Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltassem a se reunir o mais brevemente possível", afirma o texto.
A avaliação de pessoas do entorno de Lula, porém, é que a ligação não deverá melhorar a relação entre os dois governos ou resultar em um relaxamento do tarifaço no curto prazo.
De acordo com essa linha de raciocínio, o petista e Trump se dão bem, mas os escalões inferiores do governo americano têm viés contrário ao governo Lula. Isso dificultaria a relação entre os dois países, uma vez que a atenção do presidente dos Estados Unidos vai majoritariamente para outros temas.
Assim, o dia-dia da relação bilateral ficaria mais a cargo do Departamento de Estado americano, comandado por Marco Rubio. A equipe de Rubio abriga os principais interlocutores do grupo político bolsonarista, opositor de Lula, no governo americano.
Depois do telefonema, autoridades brasileiras passaram a achar menos provável que algum tipo de interferência americana nas eleições do Brasil parta de Trump, mas que isso não mudaria uma possível disposição de escalões inferiores do governo americano de agir contra Lula.
Na conversa com Trump, o presidente brasileiro questionou os motivos do tarifaço e defendeu as ações do Brasil para combater o crime organizado. O presidente americano teria demonstrado concordância em alguns momentos, mas as autoridades brasileiras não têm certeza sobre o que ele consentiu. A avaliação é que Trump ouve sobre muitos assuntos e depois reage, mas que não é possível saber com quais pontos específicos ele concorda ou discorda.
A conversa não teria abordado a mais recente sanção dos EUA contra o Brasil: a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti. A medida foi adotada em retaliação à demora do governo Lula em conceder o agrément —aval diplomático— ao embaixador indicado pelos EUA para assumir a representação em Brasília, Daniel Perez.
Pérez também não teria sido mencionado, nem os representantes do governo americano cuja entrada no Brasil foi barrada pelo Ministério das Relações Exteriores recentemente. O jornal americano The Washington Post publicou que esses funcionários viajariam ao Brasil para questionar o processo eleitoral do país.
De acordo com um porta-voz do Departamento de Estado, em fala na época da sanção que envolveu a embaixadora brasileira, os EUA respeitam o povo brasileiro e qualquer candidato que for escolhido livremente "por meio de eleições livres e justas no Brasil".
A autoridade do órgão, que tem sido o principal ponto de tensão entre a relação diplomática entre os países, afirmou ainda que os EUA respeitam e lidam com governos de ambos os lados do espectro político no Brasil e tiveram "relações muito bem-sucedidas com eles".
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