O "match" na magistratura
“A permuta não é uma imposição. Os tribunais podem analisar o histórico dos magistrados e as duas cortes precisam aceitar para a permuta se concretizar”, diz a juíza Vanessa Mateus, presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB). “Mais da metade dos aprovados nos concursos é de outros estados. Você permitir que essa pessoa volte para casa, se ela assim desejar, é um ganho muito grande, não tem prejuízo para ninguém”, avalia.
Magistrado desde 2017 no Tribunal de Justiça do Estado de Alagoas (AL), o juiz Bruno Massoud conseguiu fazer a permuta para retornar ao estado do Ceará, onde nasceu, apenas em 2025. Ele considera que o "boca a boca" ainda é determinante para quem deseja localizar um colega para mudar de estado. Foi justamente por meio de um amigo em comum que ele conseguiu encontrar.
“E como sabia do interesse dele em retornar para Alagoas, já iniciamos a tratativa e os ajustes para que pudéssemos dar entrada no pedido quando saíssem as resoluções”, detalha Massoud, que conta ter amigos na magistratura que estão à procura de pares para realizar a permuta.
A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), que atuou ativamente pela aprovação da Emenda Constitucional 130/2023, vê com preocupação uma plataforma externa ao Judiciário ter a possibilidade de coletar dados de juízes. “Tem magistrados que não querem antecipar para seu próprio tribunal o desejo de fazer uma permuta sem saber se vão efetivamente fazê-lo, com receio de gerar uma sensação de não pertencimento à Corte”, conta a presidente da AMB.
A associação tem um grupo de estudos sobre permuta e avalia sugerir que o Judiciário tenha uma plataforma própria para facilitar esse processo. Hoje, a AMB conta com uma planilha de interesses dos associados em permutar. Se é identificado um match, a associação coloca os dois magistrados em contato. “Hoje a principal dificuldade não é encontrar um par. A dificuldade que eles estão encontrando é quanto à incompatibilidade de entrâncias, por diferenças de funcionamento dos tribunais e de senioridade dos magistrados”, avalia Mateus.
No ar há cerca de um mês, o PermutaMagis conta com aproximadamente 60 inscritos, mas ainda não viabilizou o primeiro match. Quanto à segurança da plataforma, Jarouche afirma seguir a LGPD e diz ter tentado mitigar ao máximo os riscos. “A grande vantagem é que um eventual fraudador não teria nenhum benefício econômico na plataforma. Vejo um baixo risco de ataques”, avalia o desenvolvedor, que diz não planejar monetizar o site.
Conseguir a mudança para o estado desejado, afirma Massoud, gera um sentimento de gratidão e pertencimento, que se reflete em mais gás, empenho e produtividade na gestão dos processos da comarca. “A sensação de assinar o termo e voltar para casa foi parecida com a de quando tomei posse lá em 2017: a realização de um sonho”, conta.
(Paulo Holland)