59% dos tiroteios ocorreram em dias letivos em Salvador, aponta estudo inédito

O Instituto Fogo Cruzado e a Iniciativa Negra Por Uma Nova Política Sobre Drogas lançaram, na quinta-feira (13/08/2026), o relatório “A Geografia da Exposição: Disparos de arma de fogo, território e escolas afetadas em Salvador”, que analisa o impacto da violência armada sobre as escolas públicas da capital baiana entre 2023 e 2025. Com apoio da Imaginable Futures, o levantamento mapeou 3.748 ocorrências de disparos de arma de fogo, média de 3,4 por dia, e identificou que 2.206 registros, equivalentes a 59% do total, ocorreram em dias letivos. A pesquisa também aponta concentração territorial, racial e socioeconômica da exposição e propõe que o poder público adote planejamento específico para as áreas mais atingidas.
Levantamento relaciona violência armada e calendário escolar
Segundo o estudo, 40% das ocorrências foram registradas durante o dia, período que coincide com horários de entrada, saída, aulas e recreio. O dado contrapõe a percepção de que a violência armada estaria concentrada apenas à noite ou de madrugada e indica riscos para a circulação de estudantes, trabalhadores da educação, familiares e moradores.
Entre os episódios ocorridos em dias de aula, 37,4% foram classificados como decorrentes de intervenções policiais e 32% estavam relacionados a homicídios ou tentativas. Somadas, as duas categorias representam 69,4% dos registros desse recorte, percentual apresentado no documento como “quase 70%”.
Os números descrevem exposição territorial à violência, mas não permitem concluir, isoladamente, que todas as ocorrências provocaram suspensão de aulas. O próprio relatório trata os efeitos em termos de risco para a mobilidade, a segurança, o funcionamento escolar e a continuidade das atividades educacionais.
Índice mede proximidade, letalidade e persistência dos tiroteios
Para dimensionar as diferenças entre as unidades de ensino, a pesquisa criou o Índice de Risco do Entorno Escolar (IREE). O indicador considera três dimensões: a intensidade, definida pela proximidade dos disparos; a severidade, associada à letalidade; e a persistência, medida pelas semanas afetadas. A área analisada alcança um raio de até um quilômetro ao redor de cada escola.
O levantamento informa que Salvador possui cerca de 600 unidades escolares, responsáveis por aproximadamente 275 mil matrículas por ano. A maioria apresenta baixa exposição a eventos armados, mas uma parcela menor permanece submetida a níveis elevados ou críticos, o que revela forte assimetria dentro da rede pública.
Entre 2023 e 2025, 120 escolas integraram áreas classificadas como críticas durante pelo menos um ano. Destas, seis unidades permaneceram em situação de risco crítico persistente durante os três anos analisados.
Exposição variou ao longo dos três anos
Em 2023, somente 10 escolas não registraram exposição a tiroteios. Outras 283 acumularam de 10 a 40 dias afetados, enquanto 81 unidades ultrapassaram 40 dias, com casos que chegaram a 74 dias no ano.
Em 2024, apenas 11 escolas não apresentaram registros. O estudo contabilizou 280 unidades com exposição entre 10 e 40 dias letivos e 71 acima de 40 dias. O maior número registrado chegou a 80 dias afetados.
No recorte de 2025, 12 escolas não tiveram dia afetado. Outras 133 instituições ficaram na faixa de 10 a 20 dias; 183, entre 21 e 40 dias; e 23 escolas superaram 40 dias de exposição, com casos de até 55 dias afetados.
Ao comparar esses números com um calendário de cerca de 200 dias letivos, o relatório sustenta que a violência armada não pode ser tratada como ocorrência meramente esporádica em parte dos territórios. A recorrência tem potencial para afetar a circulação da comunidade, a organização das unidades e a continuidade do trabalho educacional.
Oito bairros concentram quase 20% dos registros
A distribuição dos episódios de violência armada também apresenta forte concentração geográfica. Dos 163 bairros de Salvador, apenas oito reuniram quase 20% de todos os tiroteios mapeados entre 2023 e 2025: Beiru/Tancredo Neves, Pernambués, Fazenda Grande do Retiro, Lobato, Valéria, Federação, IAPI e Castelo Branco.
Em todos esses bairros, a população classificada como não branca — preta, parda e indígena — supera 83%. No Lobato, a proporção chega a quase 93%. Em seis das oito localidades, a renda média per capita é inferior a R$ 900.
Nas seis escolas que permaneceram em situação crítica durante todo o período analisado, a renda média do entorno variou de R$ 594,10 a R$ 702,59, enquanto a proporção de população não branca ficou entre 87,4% e 91,2%.
De acordo com os modelos estatísticos apresentados pelo estudo, escolas localizadas em territórios com faixas de renda menores e maior presença de população não branca registram valores significativamente mais altos no IREE. A conclusão associa a exposição escolar à estrutura desigual do espaço urbano de Salvador, sem distribuir o risco de maneira uniforme pela cidade.
Mais de 23 mil estudantes estavam em áreas de risco elevado
Em 2025, 2.802 estudantes estavam matriculados nas 10 escolas classificadas pelo IREE como de alto risco. Outros 20.744 alunos estudavam em unidades situadas em áreas críticas. Somados, os dois grupos representavam 23.546 matrículas sob níveis altos ou críticos de exposição territorial à violência armada.
A concentração também aparece quando os dados são organizados pelas Prefeituras-Bairro. Quase 17,9 mil estudantes estavam em apenas duas regiões: Liberdade/São Caetano, com 12.643 matrículas, e Cidade Baixa, com 5.242.
Essas duas regiões foram classificadas como de Prioridade Muito Alta e reuniam 39% das escolas localizadas em áreas críticas. As Prefeituras-Bairro de Cabula/Tancredo Neves e Cajazeiras apareceram na faixa de Prioridade Alta.
Relatório recomenda resposta territorial e integração de políticas públicas
A matriz de priorização foi organizada a partir das dez Prefeituras-Bairro de Salvador para orientar a tomada de decisões. O relatório argumenta que a rede escolar não deve receber tratamento homogêneo diante de diferenças tão acentuadas entre os territórios.
Entre as recomendações estão o uso de dados georreferenciados e do IREE no planejamento público, a distribuição territorializada de equipes, a gestão de crises, o apoio psicossocial e pedagógico, a criação de sistemas integrados de dados e a adoção de protocolos intersetoriais.
O documento propõe fluxos operacionais que articulem Educação, Assistência Social, Segurança Pública e Saúde, com respostas antes, durante e depois dos episódios de violência. A administração municipal é apontada como responsável por coordenar ações nos territórios prioritários, em articulação com os demais órgãos competentes.
Metodologia reúne dados de segurança, educação e perfil socioeconômico
A metodologia integra registros de segurança pública produzidos pelo Instituto Fogo Cruzado, dados educacionais do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e informações territoriais, raciais e socioeconômicas do Censo Demográfico de 2022, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A escola foi adotada como unidade central de observação.
O Fogo Cruzado informa produzir dados abertos sobre violência armada desde 2016 e acompanhar mais de 50 indicadores em 57 municípios das regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Belém. A Iniciativa Negra atua desde 2015 em áreas como política de drogas, direitos humanos, educação popular, cultura, incidência política e produção de conhecimento.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2015 — Atuação da Iniciativa Negra: a organização inicia atividades voltadas à justiça racial, política de drogas, direitos humanos, educação popular e produção de conhecimento; sua experiência integra a elaboração do estudo sobre Salvador.
- 2016 — Monitoramento do Instituto Fogo Cruzado: a organização passa a produzir dados abertos sobre violência armada; essa base sustenta o componente de segurança pública usado na pesquisa.
- 2022 — Base demográfica: dados raciais, territoriais e socioeconômicos do Censo Demográfico de 2022 do IBGE são incorporados à metodologia do relatório.
- 2023 — Primeiro ano do recorte: o levantamento identifica apenas 10 escolas sem exposição; 283 registram de 10 a 40 dias afetados e 81 ultrapassam 40 dias, com máximo de 74 dias.
- 2024 — Persistência da exposição: somente 11 escolas ficam sem registro; 280 são afetadas entre 10 e 40 dias e 71 superam 40 dias, com casos de até 80 dias.
- 2025 — Mais de 23 mil matrículas sob risco elevado: 12 escolas não registram exposição; 133 ficam entre 10 e 20 dias afetados, 183 entre 21 e 40 e 23 acima de 40 dias. No mesmo ano, 23.546 estudantes estavam em áreas classificadas como de risco alto ou crítico.
- 13/08/2026 — Lançamento do relatório: o Instituto Fogo Cruzado e a Iniciativa Negra Por Uma Nova Política Sobre Drogas, com apoio da Imaginable Futures, apresentam o estudo e a matriz de prioridades para políticas públicas em Salvador.
O principal significado público do levantamento está na sobreposição entre violência armada, desigualdade territorial e acesso regular à educação. Embora a maior parte da rede esteja em áreas de baixa exposição, os dados revelam um núcleo persistente de escolas e estudantes submetidos a risco desproporcional. A concentração em bairros de menor renda e com maior proporção de população não branca indica que o problema não se distribui ao acaso no espaço urbano.
O percentual de ocorrências associadas a intervenções policiais exige avaliação institucional das estratégias operacionais empregadas em dias e horários de aula. O dado, contudo, não estabelece por si só responsabilidade individual nem descreve as circunstâncias de cada episódio. Da mesma forma, os registros de exposição não demonstram automaticamente quantas aulas foram suspensas, quantos alunos deixaram de comparecer ou quais danos pedagógicos e psicossociais se concretizaram em cada unidade.
O núcleo factual permanece expressivo: 59% dos 3.748 registros mapeados ocorreram em dias letivos, 120 escolas estiveram em áreas críticas por ao menos um ano e 23.546 estudantes encontravam-se em zonas de risco alto ou crítico em 2025. A relevância pública decorre do impacto potencial sobre educação, mobilidade e segurança. Caberá aos órgãos responsáveis por Educação, Assistência Social, Segurança Pública e Saúde, em articulação com a administração municipal, os órgãos estaduais competentes e as comunidades escolares, transformar o diagnóstico em protocolos, proteção territorial e acompanhamento mensurável.