Publicado em 12 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet
Caso Master coloca PF e STF em rota de colisão
Malu Gaspar
Rafael Moraes Moura
O Globo
Apesar do discurso de unidade corporativa, a nota assinada por 27 superintendentes da Polícia Federal (PF) em defesa do diretor-geral, Andrei Rodrigues, enfrentou resistência na própria instituição. O texto foi divulgado na última quinta-feira (6) em meio à crise que colocou a PF em rota de colisão com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator das investigações de dois esquemas bilionários: o desvio de aposentadorias do INSS e as fraudes no Banco Master. Os dois casos são os que mais preocupam a classe política nestas eleições.
Idealizada na semana anterior por alguns auxiliares mais próximos a Rodrigues, a manifestação começou a ser discutida em uma reunião on-line no sábado (1), mas desde o primeiro momento foi alvo de discussões e divergências internas não só em torno do tom a ser dado na redação final, mas também sobre a conveniência de um posicionamento público neste momento.
AUTONOMIA – Na versão final da nota, os superintendentes não citam o nome de Rodrigues, mas afirmam que a atividade investigativa da Polícia Federal “não se submete a interesses políticos, ideológicos ou pessoais, mas ao estrito cumprimento da lei”.
A redação inicial, contudo, tinha um tom bem mais enfático, dizendo que os superintendentes não aceitariam medidas que representassem interferência em investigações. Embora também não mencionasse o STF, o texto foi visto por parte deles como um desafio ao Tribunal e desnecessariamente agressivo. Segundo apuração com quatro fontes a par do que se passou nos bastidores, pelo menos seis dos 27 superintendentes se colocaram contra a manifestação e o texto apresentado na reunião on-line, no primeiro momento.
Alguns também lembraram o fato de que não houve a mesma reação entre o final de 2025 e o início deste ano, quando o ministro Dias Toffoli tomou uma série de decisões controversas como relator do caso Master — como determinar que todos os bens, documentos e materiais apreendidos pela PF fossem lacrados e armazenados na sede do próprio Supremo. Ou, ainda, mandar que o material fosse encaminhado para a Procuradoria-Geral da República (PGR), designando ele mesmo os peritos da PF que vasculhariam as provas.
RELATÓRIO ENTREGUE A FACHIN – O diretor-geral ainda foi tratorado pelo STF depois de entregar ao presidente da Corte, Edson Fachin, um relatório de 200 páginas elencando indícios de envolvimento de Toffoli com o banco de Daniel Vorcaro, incluindo o aporte de R$ 35 milhões na empresa da família do ministro que era dona do resort Tayayá, no interior do Paraná.
O conteúdo do documento acabou vindo à tona e Toffoli se viu obrigado a renunciar à relatoria, mas, numa reunião para discutir como reagir ao relatório, o documento da PF foi chamado de “lixo” e “nada jurídico”. Alguns ministros inclusive chegaram a fazer campanha junto ao Palácio do Planalto pela queda de Rodrigues.
SILÊNCIO – E mesmo assim, os superintendentes da PF nada falaram naquela ocasião. O grupo divergente questionou então os colegas sobre por que iriam se manifestar agora, se haviam permanecido calados em um momento que alguns consideraram até mais grave. Ao final, porém, prevaleceu a noção de que estaria em curso uma escalada do Supremo contra a PF, e que antes reagir tardiamente do que não reagir.
Também pesou o fato de que estava marcada uma reunião do ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, e do advogado-geral da União, Jorge Messias, com Mendonça, no STF, para discutir a crise com a PF. “Achamos que era importante demonstrar unidade nesse momento crítico, ainda mais considerando que o assunto estava para ser discutido”, disse um dos superintendentes sob reserva.
CONSENSO NEGOCIADO – Desde a primeira reunião ficou acertado que, se não fosse unânime e assinada por todos, uma nota não só valeria de nada como poderia expor as divisões internas na PF. Por isso, diante da resistência de parte dos colegas, os articuladores do manifesto foram apresentando novas versões da nota, mais diplomáticas, até chegar à que obteve o consenso geral.
Ela diz que “para o adequado exercício de sua missão constitucional, é indispensável a preservação da independência técnica das investigações e da autonomia administrativa necessária à gestão eficiente de seus recursos e prioridades institucionais”.
Até aí, ninguém discorda. O que está em jogo no fundo é o rumo a ser dado a um caso tão sensível politicamente quanto o do Master: as investigações sobre os desvios bilionários do INSS e o possível envolvimento de Fábio Luís da Silva, o Lulinha, e do ex-chefe de gabinete do presidente da República Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, com integrantes da quadrilha.
INTERVENÇÃO – Enquanto Mendonça desconfia do vazamento de operações sigilosas e se queixa das tentativas de intromissão do governo Lula nas investigações, a PF vê tentativa de intervir e direcionar politicamente as apurações. O diretor-geral tem protestado contra decisões do ministro, como a determinação do envio ao magistrado do material bruto das investigações do caso INSS e a proibição de delegados que atuam no caso de compartilharem informações com seus superiores hierárquicos.
A divergência se tornou pública no final de julho, quando a PF enviou à Advocacia-Geral da União (AGU) um ofício contestando as medidas de Mendonça, pedindo que se encontrasse uma saída jurídica para rebatê-las.
Antes, a decisão do Ministério da Justiça de determinar o retorno de mais de cem policiais que estavam cedidos a órgãos da administração pública já tinha feito o gabinete de Mendonça alertar o governo Lula nos bastidores de que, se a medida atingisse a Corte, poderia configurar tentativa de obstrução de Justiça e levar à abertura de uma nova frente de investigação.
VAZAMENTO – Também contribuiu para a deterioração da relação entre o gabinete de Mendonça e Rodrigues a suspeita de vazamento de uma fase da Operação Compliance Zero, relacionada ao Banco Master, que mirou o então líder do governo no Senado Federal, Jaques Wagner (PT-BA).
Um pedido de audiência feito por Wagner a Mendonça no mesmo dia em que chegou o ofício da PF pedindo autorização para fazer uma operação contra ele levou à suspeita de vazamento de informações da investigação.
A reunião dos ministros da Justiça e da AGU com Mendonça aconteceu no mesmo dia em que a nota dos superintendentes foi divulgada, adicionando ainda mais tensão e ruído a uma situação que já estava difícil de resolver. Pelo que aliados dizem nos bastidores, a disposição de ceder é zero.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – A grande imprensa está unida na Operação Abafa, liderada pela Organização Globo para reduzir a carga contra Vorcaro. Mas as redes sociais são inclementes e estão cobrando a investigação sobre Renata Varandas, a namorada do diretor da PF, Andrei Rodrigues, porque ela está envolvida nos escândalos do Banco Master, que são muitos e continuam aumentando. (C.N.)