Publicado em 11 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet

Candidatos têm desafios para ampliar eleitorado
Luísa Marzullo
Jeniffer Gularte
Letícia Pille
O Globo
Com 40% do eleitorado brasileiro concentrado em São Paulo, Minas Gerais e Rio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, elegeram o Sudeste para a largada da campanha. Com as pesquisas de intenção de voto indicando uma disputa acirrada nesses estados, os postulantes ao Planalto veem a região como decisiva, mas enfrentam desafios para ampliar o eleitorado.
Lula fará o primeiro ato de campanha no próximo domingo em São Bernardo do Campo (SP), no ABC Paulista, onde construiu sua trajetória sindical e iniciou a carreira política. Flávio, por sua vez, deve participar no mesmo dia de um evento no Rio, berço político e estado que o elegeu senador há oito anos.
ESTRATÉGIA – A concentração de Flávio na região faz parte de uma estratégia para construir nos maiores colégios eleitorais do país uma vantagem capaz de contrabalançar o desempenho de Lula em áreas onde o petista tradicionalmente é mais forte, como o Nordeste. São Paulo, Minas e Rio reúnem 63,3 milhões de eleitores, o equivalente a 39,9% do eleitorado nacional de 158 milhões de pessoas aptas a votar.
A fotografia atual ajuda a explicar a prioridade. Segundo as pesquisas mais recentes divulgadas pela Quaest, Flávio aparece com 40% contra 35% de Lula em São Paulo e com 38% ante 35% do petista no Rio. Em Minas, o cenário se inverte: Lula marca 38%, contra 35% de Flávio. No Rio e em Minas, as diferenças estão dentro da margem de erro.
A campanha petista vai apostar nos palanques montados nesses estados e na comparação de obras e políticas públicas feitas pela gestão petista e pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). No sábado, Lula esteve em Taboão da Serra, na Região Metropolitana de São Paulo, em evento de 30 anos do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e pediu ao público que estudasse a história dos presidentes brasileiros diante da proximidade com o pleito.
PREOCUPAÇÃO – A avaliação é que Lula pode ao menos repetir o número de votos alcançados em São Paulo, principal tarefa da candidatura de Fernando Haddad ao governo. Na última eleição, Lula fez 4,3 milhões a mais de votos no estado do que em 2018, quando Haddad concorreu à Presidência. Mesmo derrotado por Jair Bolsonaro entre os paulistas, Lula terminou o segundo turno com 44,76% dos votos válidos. A possibilidade de Tarcísio avançar nas pesquisas e superar Haddad no primeiro turno, no entanto, preocupa o PT pela possibilidade de desmobilização em um eventual segundo turno.
A escolha por São Bernardo do Campo para o lançamento da campanha também tem o objetivo de mostrar a centralidade de São Paulo na campanha. O evento deve ter forte apelo emocional, apresentar a trajetória política e pessoal de Lula e mirar o futuro: propostas do plano de governo vão para o discurso do petista com foco em “novas conquistas” para os trabalhadores.
DESAFIO – O desafio para Lula está concentrado no interior do estado, majoritariamente conservador e bolsonarista, onde terá o apoio do vice-presidente Geraldo Alckmin para a articulação com prefeitos e lideranças regionais. Haddad também tem feito esse papel.
O núcleo da campanha se reunirá para decidir as agendas após o lançamento em São Bernardo. À mesa, a coordenação tem propostas para idas de Lula a Minas Gerais, Rio e Rio Grande do Sul. Nesse momento, o Sudeste será prioridade, mas o roteiro não está definido e dependerá da análise política da situação dos apoios ao presidente em cada local. Lula avisou a auxiliares que só fará campanha aos finais de semana ou à noite, o que representa desafio logístico e de coordenação de agendas.
O PLANO DO PL – No caso do PL, uma das principais apostas é a força eleitoral do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e na possibilidade de a disputa local se encerrar ainda no primeiro turno.
O cenário é considerado especialmente importante porque deixaria Tarcísio livre para se dedicar à eleição presidencial nas semanas que antecedem um eventual segundo turno. Também evitaria que Lula contasse, nessa etapa decisiva, com um candidato ao governo ainda em campanha e capaz de dividir com ele o palanque paulista.
Na eleição presidencial, Flávio pretende ainda avançar sobre um terreno em que seu pai encontrou dificuldades em 2022: a capital paulista. A campanha prepara atos nas periferias ao lado do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e de vereadores e quer usar as estruturas políticas locais para ampliar a penetração do candidato em regiões onde Lula venceu Jair Bolsonaro há quatro anos.
A DISPUTA EM MINAS – Em Minas, a prioridade do PL foi evitar que Flávio chegasse à campanha sem um candidato ao governo diretamente comprometido com sua eleição. Depois de uma série de negociações no campo da direita, o partido lançou Flávio Roscoe e assegurou ao presidenciável uma estrutura própria no segundo maior colégio eleitoral do país.
Já o PT lançou o deputado Patrus Ananias ao governo, após negociações por outros nomes fracassarem, como o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB) e a ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT). O resultado para presidente em Minas historicamente espelha o cenário nacional, o que faz as campanhas dedicarem atenção especial ao estado.
O CENÁRIO NO RIO – No Rio, Flávio tentará preservar a vantagem conquistada pelo pai há quatro anos. Em 2022, Jair Bolsonaro tinha como candidato ao governo Cláudio Castro (PL), reeleito ainda no primeiro turno, e obteve 56,53% dos votos válidos no estado na segunda rodada da eleição presidencial, ante 43,47% de Lula.
Desta vez, porém, Flávio chega à disputa com um cenário estadual menos favorável. O PL optou por uma chapa pura, sem alianças, e terá Douglas Ruas como candidato ao governo numa corrida em que Eduardo Paes começa consolidado na dianteira. A campanha petista, por sua vez, vê margem para ampliar a votação que teve há quatro anos, mas esbarra na baixa penetração do PT na Baixada Fluminense e no interior do estado.
OUTROS CANDIDATOS – Outros presidenciáveis também apostam no Sudeste para marcar o início da campanha. Renan Santos, do Missão, fará seu primeiro ato no dia 16, em São Paulo, no Largo São Francisco, em frente à Faculdade de Direito da USP. O local tem um significado pessoal para o candidato, que cursou Direito na instituição, mas não concluiu a graduação. Uma das apostas de Renan está no eleitorado jovem.
Em Minas Gerais, o ex-governador Romeu Zema (Novo), que deixou o cargo para disputar a Presidência, também deve iniciar a campanha no dia 16, primeiro dia oficial da corrida eleitoral. Zema ficará na região de Montes Claros, no Norte de Minas, mas não há previsão de um evento específico de lançamento da candidatura. A escolha do estado reforça a tentativa do candidato de transformar a força política construída em dois mandatos à frente do governo mineiro em capital eleitoral nacional, em uma disputa pelo eleitorado de direita que também é alvo de Flávio.
Já Ronaldo Caiado (PSD), por sua vez, deve começar a campanha no entorno do Distrito Federal, em agenda ao lado de Daniel Vilela (MDB), candidato ao governo de Goiás. A atividade também está prevista para o dia 16, embora local e formato ainda não estejam confirmados. O movimento segue a lógica de outros candidatos de iniciar a corrida presidencial em regiões onde construíram suas principais bases políticas.