Publicado em 8 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet
Michelle recusou ser vice de Flávio mesmo após reconciliação
Rafael Moraes Moura
O Globo
Enquanto tentava atrair aliados e costurar alianças com outros partidos, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, chegou a sondar na semana passada a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro sobre a possibilidade de ela ser companheira de chapa do enteado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A vaga acabou ficando com o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), anunciado na última quarta-feira (5). A escolha frustrou aliados que preferiam uma mulher para tentar reduzir a rejeição ao filho de Jair Bolsonaro no eleitorado feminino. As movimentações de Valdemar Costa Neto foram confirmadas por quatro fontes ao longo dos últimos dias, incluindo integrantes do PL, aliados de Flávio e interlocutores de Michelle. Procurado, Valdemar não respondeu aos questionamentos da reportagem.
DOBRADINHA – Uma eventual dobradinha Flávio-Michelle serviria para pacificar os ânimos e tentar vender ao eleitorado a imagem de unidade familiar, após a guerra que opôs os dois e escancarou as fissuras internas do clã Bolsonaro em praça pública. Em junho, Michelle chegou a gravar um vídeo dizendo ter sido humilhada e apunhalada nas costas por Flávio por conta de desentendimentos sobre alianças políticas no Ceará. Com a escalada da crise, o filho 01 de Jair Bolsonaro pediu publicamente à madrasta “desculpas por alguns momentos que causaram desconforto”.
“Houve uma sondagem pessoal, e isso é feito sempre com a anuência de todo mundo. Mas Michelle decidiu com o Jair que não queria ser vice-presidente, porque ela teria dificuldades de fazer campanha nacional”, afirmou uma fonte que acompanha de perto as movimentações nos bastidores.
Um interlocutor de Michelle, que também confirmou a sondagem, aponta as dificuldades logísticas da ex-primeira dama para se dedicar a uma campanha que envolve uma maratona de eventos e agendas por diversos Estados, enquanto o marido precisa de cuidados médicos ao longo do dia no regime de prisão domiciliar. “Como ela iria fazer campanha? Impossível. Quem cuidaria do Jair?”, disse esse interlocutor. “Na prática, a Michelle também está em prisão domiciliar.”
VIAGENS – Viajar para outros Estados é algo considerado praticamente descartado por Michelle devido aos tempos de deslocamento, questões logísticas e o monitoramento da saúde de Bolsonaro. Esse fator pesou para ela decidir concorrer a uma vaga no Senado pelo Distrito Federal, onde sua eleição é dada como certa, e para não comparecer à convenção que anunciou a candidatura de Flávio, realizada em São Paulo.
A mais recente pesquisa Genial/Quaest mediu o impacto da crise familiar na opinião do eleitorado. Um recorte inédito, obtido pelo blog, aponta que 53% das mulheres avaliam que foi positivo Michelle e Flávio terem feito as pazes em público – índice inferior ao registrado entre os homens (65%). Já para 27% das mulheres, a reconciliação foi negativa, ante 23% do verificado entre os homens.
Na avaliação de 48% das mulheres, o apoio de Michelle não aumenta as chances de vitória de Flávio na eleição presidencial de outubro, ante 42% daquelas que acham o contrário. Entre os homens, a situação é inversa: 51% avaliam que o apoio de Michelle aumenta as chances do senador, enquanto 42% dos entrevistados discordam.
FIADORA – “Isso mostra que Michelle funciona menos como uma simples captadora do voto feminino e mais como uma fiadora da unidade bolsonarista. Entre os homens, seu apoio atua como um selo de reconciliação, reduz a percepção de divisão interna e legitima a candidatura de Flávio”, afirmou à equipe do blog o CEO da Quaest, o cientista político Felipe Nunes.
“Entre as mulheres, ela também ajuda, mas não elimina automaticamente as resistências que parte do eleitorado feminino mantém em relação ao próprio Flávio. Michelle transfere legitimidade com mais facilidade do que transfere voto feminino.”