Dino, indicado por Lula ao STF, é sorteado relator de 3º inquérito pedido pela PF sobre Lulinha
Menções ao filho do presidente foram fatiadas pela Polícia Federal em diferentes investigações e enviadas pelo STF para a redistribuição
Por Aguirre Talento/Estadão
03/08/2026 às 21:00
Foto: Victor Piemonte/STF/Arquivo
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF)
Indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo presidente Lula, o ministro Flávio Dino foi sorteado o relator do terceiro inquérito solicitado pela Polícia Federal para apurar suspeitas de tráfico de influência sobre o filho dele, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
A existência desse terceiro pedido de investigação, feito em conjunto com um segundo pedido de inquérito, foi revelada pelo jornal O Estado de São Paulo na última sexta-feira, 31. Na ocasião, o processo ainda estava sendo distribuído no STF.
Esse terceiro inquérito acabou saindo das mãos do ministro André Mendonça e foi distribuído para Flávio Dino porque a Polícia Federal apresentou os pedidos de investigação sobre Lulinha com um formato diferente dos outros documentos decorrentes da Operação Sem Desconto, abrindo brecha para que a Presidência do STF enviasse os processos para sorteio.
Isso intensificou os atritos entre Mendonça e a Polícia Federal. Nas últimas semanas, o ministro vinha fazendo cobranças à PF por não ter apresentado relatórios de materiais apreendidos na investigação e questionou a direção da corporação sobre trocas na equipe do INSS, por receio de interferências na apuração sobre Lulinha.
Os dois primeiros pedidos de inquérito acabaram sendo enviados novamente a André Mendonça por sorteio. O primeiro trata de suspeitas de tráfico de influência no Ministério da Saúde e no Palácio do Planalto, enquanto o segundo mira suspeitas de negócios envolvendo a Dataprev, empresa de tecnologia do governo federal.
Essa terceira investigação visa apurar ações de aliados de Lulinha em outros órgãos do governo federal. Dino ainda não proferiu despacho autorizando a abertura do inquérito.
As representações de abertura de inquéritos apresentadas pela Polícia Federal contra Lulinha não pediram explicitamente que os casos saíssem da relatoria de André Mendonça, mas abriram brechas que permitiram ao presidente em exercício da Corte, Alexandre de Moraes, o envio dos inquéritos à livre distribuição em uma manobra que tiraria Mendonça das investigações.
Compartilhamento de provas
No primeiro pedido de inquérito, para apurar tráfico de influência no Ministério da Saúde e Palácio do Planalto, a PF pediu um prazo inicial de 60 dias para a realização de diligências e o compartilhamento das provas produzidas em uma das fases da Operação Sem Desconto que mirou a empresária Roberta Luchsinger, amiga muito próxima de Lulinha. Mendonça já autorizou a abertura.
Roberta Luchsinger foi mais de 40 vezes a órgãos do governo federal sem que sua presença fosse registrada nas agendas oficiais de autoridades, entre 2023 e 2025. As visitas tiveram como destino, em 2023, o então ministro da Secretaria das Relações Institucionais Alexandre Padilha. Ela também teve várias entradas registradas no Ministério da Saúde, órgão de interesse do Careca do INSS, inclusive na companhia dele.
Nas representações, a PF traça um panorama de provas colhidas a partir da investigação sobre desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que apontam suspeitas de crimes de tráfico de influência envolvendo Lulinha e a empresária. A partir dessas provas citadas, a PF diz que os fatos apurados não têm relação direta com os desvios do INSS.
Ao solicitar o novo inquérito, a PF não pediu explicitamente a redistribuição para outro relator. O documento cita como processo de referência um dos inquéritos da Operação Sem Desconto, o que poderia resultar em uma distribuição automática para André Mendonça por meio da secretaria do STF. Ao final da representação, a PF apenas pede a abertura de inquérito com base nos ritos do Regimento Interno do STF e o envio do material para a Procuradoria-Geral da República.
Na representação, a PF não pediu diretamente a redistribuição, mas deu brecha para que isso ocorresse ao não indicar vínculo direto do caso com o ministro André Mendonça. Caso os investigadores quisessem solicitar a redistribuição, o mais comum era que isso fosse solicitado ao próprio ministro relator, já que foi sob sua condução que as provas do caso foram colhidas. Como a regra geral do STF é a distribuição de processos por sorteio, essa ausência de vinculação apresentada nos documentos abriu caminhos para que o caso fosse retirado de André Mendonça.
O pedido chegou à Presidência do STF, que passou a ser ocupada interinamente por Alexandre de Moraes durante o recesso. Moraes, então, antes de repassar o material para André Mendonça, enviou o documento para a Procuradoria-Geral da República (PGR) opinar quem deveria ser o relator do processo.
A equipe de Gonet analisou o material e opinou que o inquérito deveria ser distribuído livremente no STF, sem conexão com Mendonça. Moraes procedeu com esse rito. Porém, por meio de um novo sorteio, Mendonça acabou sendo novamente escolhido relator. Com isso, ele só ficou sabendo da existência do caso na noite de quarta-feira, 29, quando o pedido de inquérito aportou em seu gabinete.
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